O MUSEU DA RENDIÇÃO INCONDICIONAL
CARAMBAIA – 1ª ED. – 2025
304 páginas
Sem sombra de dúvidas, o melhor livro que li nos últimos tempos. Não é um livro que agradará a todos, principalmente aos que gostam de histórias com começo, meio e fim. A escrita de Ugresic é fragmentada, uma colagem de pedaços, uma junção de pequenos panos - não tecidos como uma colcha de retalhos, mas unidos de alguma forma.
A autora é uma exilada da antiga Iugoslávia,
mais especificamente do território que atualmente corresponde à Croácia. Viveu
em Berlim, passou um tempo nos Estados Unidos, e acabou fixando residência na
Holanda. Precisou deixar a Croácia em 1993 devido às suas declarações contra o
nacionalismo croata e sérvio.
Vivendo no exílio, Ugresic tenta
recuperar memórias, recusa-se ao apagamento da história, aquilo que os
nacionalismos desejam e produzem. Houve uma destruição não apenas material, mas
também mental. Ela se recusa a se adaptar ou se acomodar, como muitos fazem
diante de regimes autoritários para sobreviver.
Da mesma forma que sua vida,
vivida em países diferentes, sem uma casa para chamar de sua, apenas uma mala
com o que lhe restou, ela reúne fragmentos, como em um museu, ou como no
estômago da Morsa que encontramos logo no início do livro. Objetos, fotografias,
lembranças, amigos, relatos, família. É o não-lugar por excelência, sobretudo
um não-lugar interior.
Longe dos livros atuais sobre
traumas – aquilo que às vezes chamo de “literatura da sofrência” -, a autora é
realista, muitas vezes crua, mas há também um senso de humor e linguagem poética.
A solidão, a velhice, a tentativa
de se recuperar interiormente de ter sido obrigada ao exílio, o ostracismo e o
esforço para compreender o mundo em que agora se vive atravessam o livro. No
meio disso, surgem as lembranças da família. O capítulo sobre os álbuns de
fotografia é sensacional; os textos sobre arte e museus, assim como a lembrança
da Condessa que costurava, um texto belíssimo. Há também um certo anjo que une
as amigas que se encontravam e explica um pouco o destino de cada uma delas durante
a guerra.
O título do livro refere-se a um
museu que existiu de fato em Berlim até 1994: o Museu da rendição incondicional
da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Mas Ugresic não se rende
incondicionalmente. Ela parte, deixa seu país em guerra, mas isso também seria
uma forma de rendição? Abandonar tudo?
Berlim, onde vivem muitos refugiados,
é um lugar em que se ouve frequentemente a pergunta: “você é uma das nossas?”. Uma
cidade que também foi dividida e depois reunificada, mas que colocou os alemães
da antiga RDA na condição de “outros” dentro do próprio país, como aparece no
livro que li anteriormente – “Eu vou, tu vais, ele vai”, de Jenny Erpenbeck.
O livro é como um sítio
arqueológico: escavar, encontrar pequenos objetos e lembranças, trazê-los à
tona no mundo em que se vive atualmente, talvez construir um museu particular
de tudo isso. É como no estômago da Morsa: tudo ali, parece sem sentido, mas
aos poucos cada objeto se une ao outro.
O que mais me tocou foi uma
questão que também carrego comigo: boas lembranças são realmente algo bom? Ou doem?
A irreversibilidade, o retorno impossível, a perda – tudo isso é irrecuperável,
mas continua existindo. E dói.
Olhar fotografias pode ser
profundamente ambíguo. Elas preservam, mas também tornam irreversível a
consciência da perda e do tempo. Talvez por isso Ugresic trate os objetos e as
imagens quase como ruínas arqueológicas emocionais.
Dubravka Ugresic nasceu em Kutina,
Croácia, em 1949 e faleceu em Amsterdã, Países Baixos, em 2023. É uma escritora
nascida na ex-Iugoslávia.


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