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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

LIVRO: EVA DOS SEUS ESCOMBROS


 

EVA DOS SEUS ESCOMBROS

ANANDA DEVI

EDITORA MEIA AZUL – 1ª ED. – 2025

138 páginas

  

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ILHAS MAURÍCIO 


Ananda Devi apresenta uma Ilhas Maurício muito distante dos cartões-postais da ilha para os turistas que a visitam e de seus luxuosos resorts. São quatro personagens: Eva, Sad, Clélio e Savita, que vivem na periferia, em um lugar chamado Troumaron.

A autora utiliza uma linguagem poética e lírica para dar voz a esses quatros personagens, que vivem uma realidade muito diferente daquela experimentada pelos turistas que visitam a ilha e não tem a percepção desse lado do país. 

Eva é a personagem principal e ela faz uso de seu corpo como forma de resistência. Já Savita deseja ir embora dali, mas quer que Eva vá com ela.

Saadiq, ou Sad, é um jovem apaixonado por Eva que é sensível e gostaria de ser poeta e se inspira em Rimbaud. Clélio, por sua vez, revolta-se com as condições de sua vida e de sua família e espera que seu irmão, que se mudou para a França, retorne para buscá-lo, conforme lhe prometeu. Sad e Clélio pertencem a uma gangue que domina o bairro.

Já li muitos livros que retratam a vida nas periferias e nas favelas. Não é o cenário, porém, que se torna o ponto alto deste livro, mas a linguagem utilizada pela autora. Mesmo sendo um livro curto, li-o devagar. Cada capítulo que traz o relato de um dos personagens e, com grande sensibilidade e poesia, não deixa de revelar toda a tristeza e a miséria que permeiam essas vidas.

Troumaron é um trocadilho e pode ser lido como “buraco marrom”. Na colonização francesa do Caribe marrons eram os africanos escravizados que fugiam e criavam comunidades – as marronages – equivalentes aos nossos quilombos. Porto Luís, a cidade onde fica Troumaron, parece não incorporar o local, lhe dá as costas como diz um dos personagens. É no meio desses escombros que a autora dá voz aos quatro personagens.

O contraste entre Porto Luís, voltada para o turismo internacional, e esse mundo à parte, que enclausura sem muros, que retém ali uma parte da população menos favorecida, que destrói sonhos e compromete o futuro dos jovens que ficam sem perspectivas, nos é mostrado através desses quatro personagens. As correntes da escravidão permanecem, ainda que agora se manifestem nas inúmeras impossibilidades que aprisionam esses jovens. Eles vivem entre os escombros e, apesar das tentativas de Sad de tirar Eva desse mesmo lugar, essa se mostra uma tarefa árdua demais.  

Quero acrescentar uma análise a mais sobre o livro. A referência a Arthur Rimbaud não parece gratuita. Se em Uma temporada no Inferno a escrita acompanha uma travessia pelo sofrimento e pela desilusão, em Troumaron a poesia de Sad nasce em meio aos escombros, como uma tentativa de resistir a uma realidade que insiste em sufoca-lo.

A linguagem poética empregada por Ananda Devi não suaviza a violência nem a miséria. Ao contrário, demonstra que a poesia também é capaz de dar formas ao horror, assim como Paul Celan mostrou que, mesmo após Auschwitz, ela continuava sendo uma linguagem possível para dizer o indizível.

Eva chama muito a atenção. Já pelo nome que corresponde a Eva bíblica que vivia em um paraíso, e as Ilhas Maurício são consideradas um paraíso turístico. Mas também pelo fato de fazer uso de seu corpo para conseguir o que deseja. Um corpo que serve de resistência, mas antes disso ele foi transformado, pelas circunstâncias, em capital, em mercadoria, em único recurso disponível.

Em um dos episódios, um delegado lhe entrega uma arma, e Eva não consegue interpretar aquele gesto dentro de uma lógica de confiança, solidariedade ou simples decisão pessoal. Ela procura imediatamente a contrapartida, porque foi assim que aprendeu a sobreviver. Isso é mais profundo do que denunciar a exploração sexual. A autora mostra como um sistema de violência consegue moldar a subjetividade. Para Eva é impossível conseguir qualquer coisa sem oferecer seu corpo. Essa é uma forma de colonização da consciência.

Ananda Devi não está apenas denunciando a pobreza. Ela mostra como a pobreza, o patriarcado, a violência e a exclusão produzem subjetividades. Cada personagem passa a enxergar o mundo através da estrutura que o oprime.


Ananda Devi nasceu em Trois Boutiques, Ilhas Maurício, em 1957. É uma escritora.