EVA DOS SEUS ESCOMBROS
ANANDA DEVI
EDITORA MEIA AZUL – 1ª ED. – 2025
138 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ILHAS MAURÍCIO
Ananda Devi apresenta uma Ilhas
Maurício muito distante dos cartões-postais da ilha para os turistas que a
visitam e de seus luxuosos resorts. São quatro personagens: Eva, Sad, Clélio e Savita,
que vivem na periferia, em um lugar chamado Troumaron.
A autora utiliza uma linguagem
poética e lírica para dar voz a esses quatros personagens, que vivem uma
realidade muito diferente daquela experimentada pelos turistas que visitam a
ilha e não tem a percepção desse lado do país.
Eva é a personagem principal e
ela faz uso de seu corpo como forma de resistência. Já Savita deseja ir embora
dali, mas quer que Eva vá com ela.
Saadiq, ou Sad, é um jovem
apaixonado por Eva que é sensível e gostaria de ser poeta e se inspira em
Rimbaud. Clélio, por sua vez, revolta-se com as condições de sua vida e de sua família
e espera que seu irmão, que se mudou para a França, retorne para buscá-lo, conforme
lhe prometeu. Sad e Clélio pertencem a uma gangue que domina o bairro.
Já li muitos livros que retratam
a vida nas periferias e nas favelas. Não é o cenário, porém, que se torna o
ponto alto deste livro, mas a linguagem utilizada pela autora. Mesmo sendo um
livro curto, li-o devagar. Cada capítulo que traz o relato de um dos
personagens e, com grande sensibilidade e poesia, não deixa de revelar toda a
tristeza e a miséria que permeiam essas vidas.
Troumaron é um trocadilho e pode
ser lido como “buraco marrom”. Na colonização francesa do Caribe marrons
eram os africanos escravizados que fugiam e criavam comunidades – as
marronages – equivalentes aos nossos quilombos. Porto Luís, a cidade onde
fica Troumaron, parece não incorporar o local, lhe dá as costas como diz um dos
personagens. É no meio desses escombros que a autora dá voz aos quatro
personagens.
O contraste entre Porto Luís, voltada
para o turismo internacional, e esse mundo à parte, que enclausura sem muros,
que retém ali uma parte da população menos favorecida, que destrói sonhos e compromete
o futuro dos jovens que ficam sem perspectivas, nos é mostrado através desses
quatro personagens. As correntes da escravidão permanecem, ainda que agora se
manifestem nas inúmeras impossibilidades que aprisionam esses jovens. Eles
vivem entre os escombros e, apesar das tentativas de Sad de tirar Eva desse
mesmo lugar, essa se mostra uma tarefa árdua demais.
Quero acrescentar uma análise a
mais sobre o livro. A referência a Arthur Rimbaud não parece gratuita. Se em Uma
temporada no Inferno a escrita acompanha uma travessia pelo sofrimento e
pela desilusão, em Troumaron a poesia de Sad nasce em meio aos escombros, como
uma tentativa de resistir a uma realidade que insiste em sufoca-lo.
A linguagem poética empregada por
Ananda Devi não suaviza a violência nem a miséria. Ao contrário, demonstra que
a poesia também é capaz de dar formas ao horror, assim como Paul Celan mostrou
que, mesmo após Auschwitz, ela continuava sendo uma linguagem possível para
dizer o indizível.
Eva chama muito a atenção. Já
pelo nome que corresponde a Eva bíblica que vivia em um paraíso, e as Ilhas
Maurício são consideradas um paraíso turístico. Mas também pelo fato de fazer
uso de seu corpo para conseguir o que deseja. Um corpo que serve de
resistência, mas antes disso ele foi transformado, pelas circunstâncias, em
capital, em mercadoria, em único recurso disponível.
Em um dos episódios, um delegado
lhe entrega uma arma, e Eva não consegue interpretar aquele gesto dentro de uma
lógica de confiança, solidariedade ou simples decisão pessoal. Ela procura
imediatamente a contrapartida, porque foi assim que aprendeu a sobreviver. Isso
é mais profundo do que denunciar a exploração sexual. A autora mostra como um
sistema de violência consegue moldar a subjetividade. Para Eva é impossível
conseguir qualquer coisa sem oferecer seu corpo. Essa é uma forma de
colonização da consciência.
Ananda Devi não está apenas
denunciando a pobreza. Ela mostra como a pobreza, o patriarcado, a violência e
a exclusão produzem subjetividades. Cada personagem passa a enxergar o mundo
através da estrutura que o oprime.
Ananda Devi nasceu em Trois Boutiques, Ilhas Maurício, em
1957. É uma escritora.

