Mostrando postagens com marcador Hoda Barakat. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Hoda Barakat. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de julho de 2026

LIVRO: CORREIO NOTURNO

 


CORREIO NOTURNO

HODA BARAKAT

EDITORA TABLA – 1ª ED. – 2020

160 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – LÍBANO


A primeira carta é de um homem que escreve para a mulher que ama. Inicialmente pensamos tratar-se de uma declaração de amor, mas, aos poucos, a carta se transforma em um relato de sua mágoa em relação a ela, de tudo o que ele considerava não corresponder ao que sentia e fazia. A carta termina bruscamente, quando ele decide ir ao encontro de um homem que o observava da janela de um apartamento em frente.

A segunda carta é escrita por uma mulher hospedada em um hotel, que encontra essa primeira carta no meio de uma bíblia e a começa a lê-la. Ela relata isso ao homem que aguarda no hotel, que, no entanto, não vem e não envia nenhuma mensagem. Há recordações do tempo em que eram felizes, uma primavera que passaram juntos. Ele é casado, mora no Canadá e foi quem pediu esse encontro, porém não comparece. A carta contém tudo o que ela gostaria de lhe dizer e tudo o que esperava dele caso viesse.

A terceira carta é a mais impactante. Um homem escreve para sua mãe enquanto está em um aeroporto. Ele não a vê há anos e decide lhe contar o que lhe aconteceu. Aqui temos um jovem que foi preso sem saber o motivo. Algo meio Kafkaniano, mas de uma crueldade muito maior. Ele foi torturado ao extremo até confessar o que nem sabe, e depois disso, é incorporado ao grupo e passa a ser ele o torturador de outros. Ele explica que precisou fazer isso para sobreviver, mas admite que, em determinado momento, também começou a sentir prazer em torturar. Quando o Estado se impõe e acaba com o grupo, ele foge e passa a viver uma vida miserável em outro lugar, até o momento em que uma mulher o acolhe em seu apartamento onde encontra algum conforto. Mas o medo nunca o abandona, ele tem medo que ela o expulse e decide fazer com que ela se apaixone por ele. O desfecho é trágico.

A quarta carta é de uma mulher cuja sua mãe a obrigou a casar-se com um homem desprezível, com quem teve uma filha. Agora ela escreve ao irmão para relatar tudo que aconteceu e explicar por que tomou certas decisões.

A quinta carta é de um homem homossexual que escreve ao pai, dizendo o quanto sua vida foi despedaçada após ser expulso de casa por ele, incapaz de aceitar um filho gay.

Barakat une essas cartas, que nunca chegaram aos seus destinatários, fazendo com que cada um encontre a carta do outro e a comente, exceto o homem homossexual que não encontra nenhuma.

Em uma segunda parte, intitulada Aeroporto, temos a versão dos destinatários das cartas: a mulher a quem o primeiro homem declara seu amor misturado ao rancor, o homem que deveria encontrar a mulher no hotel, a prisão do torturador e o irmão que responde à irmã. Essa parte me recordou “Risíveis Amores”, de Milan Kundera. Não pelo tema, mas porque, nos dois livros, primeiro vemos um personagem pensando e falando do outro. Naturalmente construímos uma imagem desse destinatário. Quando esse outro finalmente fala, descobrimos alguém completamente diferente daquele que imaginávamos. Barakat faz isso de forma surpreendente.

O livro termina com a carta de um carteiro, que relembra os bons tempos em sua região quando entregava as cartas de bicicleta. Então, vieram a guerra e, principalmente, o Estado Islâmico. Já não existiam endereços para onde enviar cartas, nem pessoas aguardando ansiosamente por elas.  Nos correios restam pilhas de cartas que não chegaram aos seus destinatários e ele decide catalogá-las e deixar sua própria explicando como classificou as mesmas.

Bakarat oferece uma visão da guerra sem descrever combates ou ataques. Seu foco está nos efeitos psíquicos, as separações, os destinos que se alteram completamente, o exílio. A autora não trata apenas da guerra, aborda costumes da região, como o casamento forçado, a desonra de se divorciar, de se prostituir ou de ser homossexual. São histórias marcadas pela violência, pela intolerância e pelo desenraizamento, cujas vidas permanecem suspensas como as cartas que nunca encontraram seus destinatários.

                    Hoda Barakat nasceu em Beirute, Líbano, em 1952. É uma romancista libanesa.