KAFKA À BEIRA-MAR
HARUKI MURAKAMI
ALFAGUARA – 1ª ED. 2008
Kafka à Beira-Mar
é um romance que resiste à resenha tradicional. Murakami constrói uma narrativa
deliberadamente aberta, na qual explicações definitivas parecem sempre escapar.
O livro não se oferece como enigma a ser resolvido, mas como experiência a ser
atravessada. Cada leitura produz sua própria interpretação e talvez seja
justamente aí que resida sua força.
Apesar dessa abertura radical, o
romance está longe de ser decepcionante ou disperso. Ao contrário: prende o
leitor do início ao fim de suas mais de quinhentas páginas, com uma fluidez
quase hipnótica. É uma leitura que envolve, conduz e perturba, mesmo quando não
se deixa compreender plenamente. Murakami parece apostar menos na clareza
narrativa do que na intensidade da atmosfera.
A obra é atravessada por
múltiplas referências literárias e filosóficas, com destaque para o mito grego
de Édipo, que funciona como uma espécie de eixo subterrâneo da narrativa. Ao
mesmo tempo, o romance articula elementos da modernidade ocidental com lendas e
imaginários japoneses, criando um espaço híbrido, onde tradição e
contemporaneidade coexistem sem hierarquia.
A história se desenrola a partir
de dois personagens centrais. Kafka Tamura é um garoto de quinze anos que foge
de casa em razão da relação conflituosa com o pai, que o amaldiçoa com uma
profecia incestuosa: Kafka estaria destinado a dormir com a mãe e a irmã, ambas
desaparecidas desde que ele tinha apenas quatro anos, deixando-o para trás.
Essa maldição ecoa o mito de Édipo, mas é deslocada para um registro
psicológico, simbólico e contemporâneo.
O segundo personagem é Nakata,
um idoso que, ainda criança, passou por uma experiência inexplicável que o
incapacitou de ler e escrever, mas lhe concedeu dons extraordinários: falar com
gatos e antecipar acontecimentos fora da ordem comum das coisas. À primeira
vista, Kafka e Nakata não compartilham nada — idade, história, linguagem,
mundo. Ainda assim, suas trajetórias correm em paralelo e acabam se cruzando de
maneira enigmática, como se obedecessem a uma lógica que ultrapassa a
causalidade linear.
Murakami constrói, assim, um
romance sobre solidão, amizade, amadurecimento, culpa e destino. Mas esses
temas não aparecem como conceitos fechados; surgem como estados de espírito,
como forças que atravessam os personagens sem jamais se estabilizar. O destino,
em especial, não é apresentado como fatalidade clara, mas como algo nebuloso,
que se cumpre justamente quando tenta ser evitado.
Kafka à Beira-Mar
não pede compreensão total. Pede entrega. É um livro que se move no limiar
entre o real e o onírico, entre o mito e a vida cotidiana, convidando o leitor
a habitar esse espaço de incerteza. Ao final, talvez reste menos a sensação de
ter entendido tudo e mais a de ter sido transformado pela travessia.
Haruki Murakami nasceu Fushimi, Quioto no Japão em 1949. É um escritor e tradutor japonês.

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