quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Poder, violência e vozes que não descansam

 



PEDRO PÁRAMO

JUAN RULFO

José Olympio, 7ª ed. 2020

Juan Rulfo é um escritor mexicano, e sua obra-prima é Pedro Páramo. Confesso que, no começo, quase desisti: o livro é tétrico, funesto. Mas, aos poucos, fui percebendo o quanto essa obra é magistral.

Sim, Rulfo retrata um México de pobreza, miséria e revoluções, onde um único personagem concentra todo o poder: o nosso “coronel” no México, o latifundiário cruel, aquele que faz as leis e determina tudo de acordo com seus próprios desejos. E, para isso, manda matar se for preciso, como se fosse a coisa mais banal do mundo.

Recentemente postei aqui um livro da Sigrid Nunez, que fala de uma paciente terminal e da vida diante da morte. Em Pedro Páramo, temos o inverso: é a morte falando da vida. São os mortos que narram a história de Comala e de Pedro Páramo.

Juan Preciado, após a morte da mãe, atende a seu último desejo: ir até a aldeia onde ela nasceu — descrita por ela como um lugar muito bonito — e exigir de seu pai, Pedro Páramo, tudo o que lhe é devido, mas sem lhe pedir nada. Ao chegar, encontra um lugar ermo, seco, abandonado. Não há uma única árvore. Tudo é extremamente desolador.

Aos poucos, começam a aparecer pessoas. Mas essas pessoas estão mortas — e são elas que vão contando o que aconteceu ali. Preciado acaba se juntando a elas. Em Comala, já não há mais lugar para a vida. Pedro Páramo decretou isso após a morte de sua amada, cujo luto a aldeia desrespeitou. Em vingança, decidiu deixar todos morrerem de fome.

É realismo fantástico, sim — e é genial. A maneira como Rulfo conta essa história não segue um tempo linear, mas se constrói como uma reunião de lembranças, fragmentos, vozes. Penso que, assim, sentimos muito mais o que foi aquele México e aquele tempo.

 


Juan Rulfo nasceu em Apulco, Tuxcacuesco, Jalisco, México, em 1917 e faleceu na Cidade do México em 1986. Foi escritor. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário