quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Memória familiar e a história de um país dividido


 

MINHA UCRÂNIA: A JORNADA DE UMA MULHER EM BUSCA DA HISTÓRIA DE SUA FAMÍLIA E SEU PAÍS.

VICTORIA BELIM

Record – 1ª ed. 2023

Para compreender melhor a história da Ucrânia comecei por este livro de Victoria Belim, uma ucraniana que vive atualmente na Bélgica e que retorna ao seu país natal, antes da guerra, para visitar a avó. A partir de suas memórias familiares, vamos conhecendo a história da Ucrânia, suas tradições e seus costumes.

A autora reconstrói a trajetória de seus bisavós, Asya e Sergy, que atravessaram a Revolução Bolchevique, a Guerra Civil, o Terror Vermelho, a coletivização forçada, o Holodomor, os Grandes Expurgos dos anos 1930, a Segunda Guerra Mundial, a fome de 1946, a decadência dos anos 1970 e, por fim, o colapso da União Soviética na virada dos anos 1980 para os 1990. Victoria Belim viveu sua infância e adolescência ainda sob o regime soviético.

Ela se hospeda na casa da avó materna, Valentina, filha de Asya e Sergy. A partir do diário do bisavô, descobre a existência de um irmão sobre o qual ninguém jamais falava — e decide investigar o que lhe aconteceu.

Há também a figura do tio paterno da autora e o embate político entre ele e a sobrinha: ele pró-Rússia, ela pró-Ocidente, pró-Europa. A Ucrânia aparece como um país profundamente dividido. O oeste, historicamente ligado ao Império Austro-Húngaro dos Habsburgos, é majoritariamente pró-Ocidente; o Leste, que fez parte da Rússia, é pró-Rússia; e há ainda a região de Kiev, a capital. São histórias distintas convivendo em um mesmo território.

No país, falam-se duas línguas, o russo e o ucraniano — ao menos até a recente proibição do uso do russo. Quase todas as famílias têm russos e ucranianos em sua composição. Alguns comemoram o Natal em janeiro, segundo o calendário juliano; outros seguem o Natal ocidental, de acordo com o calendário gregoriano. Trata-se de um país multiétnico.

A autora também fala dos bordados ucranianos feitos pelas mulheres — belíssimos — e das pinturas florais nas casas, que funcionam como marcas de identidade, memória e resistência cultural.

É um livro de leitura fluida que, ao narrar a história da família da autora, apresenta como pano de fundo a história da Ucrânia. Para quem, como eu, sabia muito pouco sobre o país, a leitura é altamente recomendável.


Victoria Belim nasceu em 1978 na Ucrânia. É uma memorialista. 


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