quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

TRADIÇÃO, COLONIZAÇÃO E A TRAGÉDIA DE UM MUNDO EM RUPTURA

 


O MUNDO SE DESPEDAÇA

CHINUA ACHEBE

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2009

O Mundo se Despedaça é, antes de tudo, um romance sobre a violência das rupturas. Achebe nos apresenta o povo ibo, na região que hoje corresponde à Nigéria, antes da colonização, permitindo que conheçamos seus rituais, sua organização social, suas crenças, sua justiça e suas formas próprias de pertencimento. Trata-se de um gesto político e literário fundamental: mostrar que havia mundo, sentido e complexidade antes da chegada europeia.

No centro da narrativa está Okonkwo, um grande guerreiro de Umuófia, cuja vida é marcada por um medo profundo: o de se tornar semelhante ao pai, considerado fraco e indigno pela comunidade. Esse pavor molda sua personalidade e o conduz a uma adesão quase violenta à tradição, à honra e à virilidade. Okonkwo não se permite falhar, não se permite sentir, não se permite vacilar. Sua rigidez é tanto sua força quanto sua ruína.

Achebe constrói Okonkwo como uma figura trágica. Seu apego intransigente à tradição não nasce de uma reflexão serena, mas de uma ferida íntima. O que está em jogo não é apenas a preservação cultural, mas uma identidade masculina construída sobre o medo da fragilidade. Quando o destino o atinge — obrigando-o ao exílio por sete anos —, não é apenas um indivíduo que se afasta da aldeia, mas uma forma inteira de estar no mundo que começa a se desfazer.

Durante sua ausência, chegam os missionários e os homens brancos. A colonização não aparece como um evento súbito, mas como um processo lento de infiltração, que atua sobre as fissuras internas da sociedade ibo: a conversão de alguns membros, a introdução de novas leis, a deslegitimação das autoridades tradicionais, a substituição gradual dos sentidos do sagrado e da justiça. O mundo não explode — ele se despedaça.

Quando Okonkwo retorna, encontra uma aldeia transformada. Aquilo que antes era consenso agora é dúvida; o que era tradição torna-se objeto de negociação. Incapaz de se adaptar, Okonkwo percebe que já não há lugar para ele naquele novo arranjo colonial. Sua tragédia pessoal espelha a tragédia coletiva de um povo cuja cosmologia, linguagem e organização social são violentamente reordenadas a partir de parâmetros externos.

Achebe escreve contra a narrativa colonial que retratou as sociedades africanas como primitivas ou sem história. O Mundo se Despedaça devolve densidade, humanidade e contradição a esses mundos, ao mesmo tempo em que revela que a colonização não destrói apenas culturas, mas produz sujeitos deslocados, presos entre um passado que não pode retornar e um presente que não lhes pertence.

É um romance profundamente antropológico, político e ético. Um livro que mostra que a perda mais radical não é apenas territorial ou econômica, mas simbólica: perder o sentido do que se é.



Chinua Achebe em Ogidi, Nigéria, em 1930 e faleceu em Boston, Massachusetts, EUA, em 2013. Foi um romancista, poeta e crítico literário. 

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