quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Amizade, finitude e o que resta viver

 


O QUE VOCÊ ESTÁ ENFRENTANDO

SIGRID NUNEZ 

Editora Instante - 1ªed. 2021

Que boa surpresa este livro! Comprei porque ele foi adaptado por Pedro Almodóvar no filme Um Quarto ao Lado. Não conhecia a autora e agora já estou com mais dois livros dela na fila.

A escrita é muito gostosa. Sigrid vai relatando suas escutas, as histórias de outras pessoas, mescladas com a sua própria história. Um dos relatos de que mais gostei foi o do gato do abrigo — há algo de realismo mágico nessa parte.

Mas o eixo central do livro é a amiga da narradora, que tem um câncer terminal, e, a partir disso, o tema é a morte. Só que aqui não há chororô, nem discursos de autoajuda, nada de superação, salvação ou listas de últimos desejos. O que encontramos é a realidade de uma morte que se aproxima. Aliás, como o próprio livro lembra: o sentido da vida é a morte. Nascemos para morrer; o que nos resta é viver da melhor forma possível, colorir a vida dentro do que é possível.

E é exatamente isso que as duas personagens fazem. Elas riem muito, veem filmes, recordam muitas coisas e falam da morte. Sim, porque o comum é a negação — mas elas não negam, mesmo com o incômodo que isso causa na amiga doente. A vida não é fácil nem justa, mas é preciso viver. Por isso, mesmo falando da morte, o relato é profundamente sobre a vida.

Em determinado momento, a personagem com câncer reconhece que sempre odiou gente burra. Em uma entrevista feita com pessoas terminais, perguntam do que ela mais sentirá falta quando morrer. A resposta é direta: de nada, estarei morta. Sim, há pessoas que fazem esse tipo de pergunta.

Outra questão que permeia o livro é a do suicídio assistido. Diante de uma situação terminal, que tende a provocar cada vez mais dor, degradação física e até mental, não teríamos o direito de interromper isso antes? De poder morrer com dignidade? Por que essas pessoas precisam agir quase como criminosas?

Alguns dirão que só Deus tem esse poder. Mas então eu pergunto: qual é o direito da medicina de manter uma vida por meio de aparelhos que, ao serem desligados, levarão à morte — muitas vezes porque a família assim deseja, ao não aceitar a decisão divina? Isso também não seria interferir na decisão de Deus?

Esse questionamento atravessa o livro o tempo todo — sem religiosidade, mas a partir de um ponto de vista profundamente humano.

 



Sigrid Nunez nasceu em Nova Iorque em 1951. É escritora. 

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