O QUE VOCÊ ESTÁ ENFRENTANDO
SIGRID NUNEZ
Editora Instante - 1ªed. 2021
Que boa surpresa este livro!
Comprei porque ele foi adaptado por Pedro Almodóvar no filme Um
Quarto ao Lado. Não conhecia a autora e agora já estou com mais
dois livros dela na fila.
A escrita é muito gostosa.
Sigrid vai relatando suas escutas, as histórias de outras pessoas, mescladas
com a sua própria história. Um dos relatos de que mais gostei foi o do gato do
abrigo — há algo de realismo mágico nessa parte.
Mas o eixo central do livro é a
amiga da narradora, que tem um câncer terminal, e, a partir disso, o tema é a
morte. Só que aqui não há chororô, nem discursos de autoajuda, nada de
superação, salvação ou listas de últimos desejos. O que encontramos é a realidade
de uma morte que se aproxima. Aliás, como o próprio livro lembra: o sentido da
vida é a morte. Nascemos para morrer; o que nos resta é viver da melhor forma
possível, colorir a vida dentro do que é possível.
E é exatamente isso que as duas
personagens fazem. Elas riem muito, veem filmes, recordam muitas coisas e falam
da morte. Sim, porque o comum é a negação — mas elas não negam, mesmo com o
incômodo que isso causa na amiga doente. A vida não é fácil nem justa, mas é
preciso viver. Por isso, mesmo falando da morte, o relato é profundamente sobre
a vida.
Em determinado momento, a
personagem com câncer reconhece que sempre odiou gente burra. Em uma entrevista
feita com pessoas terminais, perguntam do que ela mais sentirá falta quando
morrer. A resposta é direta: de nada, estarei morta. Sim, há pessoas que fazem
esse tipo de pergunta.
Outra questão que permeia o
livro é a do suicídio assistido. Diante de uma situação terminal, que tende a
provocar cada vez mais dor, degradação física e até mental, não teríamos o
direito de interromper isso antes? De poder morrer com dignidade? Por que essas
pessoas precisam agir quase como criminosas?
Alguns dirão que só Deus tem
esse poder. Mas então eu pergunto: qual é o direito da medicina de manter uma
vida por meio de aparelhos que, ao serem desligados, levarão à morte — muitas
vezes porque a família assim deseja, ao não aceitar a decisão divina? Isso
também não seria interferir na decisão de Deus?
Esse questionamento atravessa o
livro o tempo todo — sem religiosidade, mas a partir de um ponto de vista
profundamente humano.

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