A VIDA DE CHARLOTTE BRONTË
ELIZABETH GASKELL
PEDRAZUL EDITORA – 2021
Escrita por Elizabeth Gaskell —
também romancista e amiga próxima de Charlotte Brontë, A
Vida de Charlotte Brontë é uma biografia atravessada por afeto,
cautela e silêncio. Embora o foco recaia sobre Charlotte, o livro
inevitavelmente abarca as irmãs Brontë, igualmente escritoras, compondo o
retrato de uma constelação feminina marcada pela reclusão, pela perda e pela
escrita como forma de sobrevivência.
Publicada em plena sociedade
vitoriana, a biografia nasce sob o signo da mutilação. Gaskell foi obrigada a
suprimir nomes, episódios e trechos inteiros para preservar a memória de
Charlotte e evitar escândalos envolvendo pessoas ainda vivas. Essas ausências,
no entanto, não passam despercebidas: ao final do livro, há uma explicação do
que foi retirado, revelando as tensões entre verdade, reputação e moral
pública. O que se lê, assim, é tanto uma biografia quanto um documento sobre os
limites impostos às mulheres — inclusive quando escrevem sobre outras mulheres.
A obra se baseia
majoritariamente nas cartas de Charlotte trocadas com uma grande amiga. Nessas
correspondências emerge uma subjetividade marcada por angústia e sofrimento,
intensificados por um amor impossível: a paixão por um professor casado, que a
via apenas como aluna. Esse desencontro afetivo não é tratado como episódio
romântico, mas como mais uma expressão da contenção emocional e social que
moldava a experiência feminina do período.
A vida das irmãs Brontë é
descrita como simples e restrita. Vivem em uma pequena cidade, no presbitério,
com poucos contatos sociais. Seus romances nascem diretamente dessas
experiências limitadas, do confinamento, da observação minuciosa do mundo ao
redor. Charlotte, diferentemente das irmãs, viaja com mais frequência e chega a
circular em Londres, mas essas incursões não a libertam do desconforto social:
sua timidez é quase paralisante, e o convívio público lhe causa verdadeiro
pavor.
A doença atravessa o livro como
uma presença constante. Ela aparece nas cartas como ameaça, como rotina, como
alívio temporário (“graças a Deus estamos melhor”). A vida é marcada por perdas
sucessivas: Charlotte perde a mãe, quatro irmãs e o irmão. Quando finalmente
encontra alguma felicidade no casamento, morre durante a gravidez. A tragédia,
aqui, não é excepcional — é contínua, quase estrutural.
Ainda assim, há algo que escapa
a essa existência estreita. Se a vida das Brontë foi limitada em termos sociais
e materiais, ela se expande radicalmente na escrita. A riqueza que lhes foi
negada em vida transforma-se em literatura. Os livros que nos legaram são o
lugar onde essa experiência contida ganha voz, intensidade e permanência.
A biografia de Gaskell, com
todas as suas lacunas e silêncios, nos permite perceber isso com clareza: para
algumas mulheres do século XIX, escrever não foi apenas uma vocação, mas uma
forma de continuar existindo para além das perdas, da doença e das fronteiras
impostas à própria vida.


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