quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

UMA VIDA ESTREITA, UMA LITERATURA IMENSA


A VIDA DE CHARLOTTE BRONTË

ELIZABETH GASKELL

PEDRAZUL EDITORA – 2021

Escrita por Elizabeth Gaskell — também romancista e amiga próxima de Charlotte Brontë, A Vida de Charlotte Brontë é uma biografia atravessada por afeto, cautela e silêncio. Embora o foco recaia sobre Charlotte, o livro inevitavelmente abarca as irmãs Brontë, igualmente escritoras, compondo o retrato de uma constelação feminina marcada pela reclusão, pela perda e pela escrita como forma de sobrevivência.

Publicada em plena sociedade vitoriana, a biografia nasce sob o signo da mutilação. Gaskell foi obrigada a suprimir nomes, episódios e trechos inteiros para preservar a memória de Charlotte e evitar escândalos envolvendo pessoas ainda vivas. Essas ausências, no entanto, não passam despercebidas: ao final do livro, há uma explicação do que foi retirado, revelando as tensões entre verdade, reputação e moral pública. O que se lê, assim, é tanto uma biografia quanto um documento sobre os limites impostos às mulheres — inclusive quando escrevem sobre outras mulheres.

A obra se baseia majoritariamente nas cartas de Charlotte trocadas com uma grande amiga. Nessas correspondências emerge uma subjetividade marcada por angústia e sofrimento, intensificados por um amor impossível: a paixão por um professor casado, que a via apenas como aluna. Esse desencontro afetivo não é tratado como episódio romântico, mas como mais uma expressão da contenção emocional e social que moldava a experiência feminina do período.

A vida das irmãs Brontë é descrita como simples e restrita. Vivem em uma pequena cidade, no presbitério, com poucos contatos sociais. Seus romances nascem diretamente dessas experiências limitadas, do confinamento, da observação minuciosa do mundo ao redor. Charlotte, diferentemente das irmãs, viaja com mais frequência e chega a circular em Londres, mas essas incursões não a libertam do desconforto social: sua timidez é quase paralisante, e o convívio público lhe causa verdadeiro pavor.

A doença atravessa o livro como uma presença constante. Ela aparece nas cartas como ameaça, como rotina, como alívio temporário (“graças a Deus estamos melhor”). A vida é marcada por perdas sucessivas: Charlotte perde a mãe, quatro irmãs e o irmão. Quando finalmente encontra alguma felicidade no casamento, morre durante a gravidez. A tragédia, aqui, não é excepcional — é contínua, quase estrutural.

Ainda assim, há algo que escapa a essa existência estreita. Se a vida das Brontë foi limitada em termos sociais e materiais, ela se expande radicalmente na escrita. A riqueza que lhes foi negada em vida transforma-se em literatura. Os livros que nos legaram são o lugar onde essa experiência contida ganha voz, intensidade e permanência.

A biografia de Gaskell, com todas as suas lacunas e silêncios, nos permite perceber isso com clareza: para algumas mulheres do século XIX, escrever não foi apenas uma vocação, mas uma forma de continuar existindo para além das perdas, da doença e das fronteiras impostas à própria vida.


Elizabeth Gaskell nasceu em Chelsea, Londres no Reino Unido em 1810 e faleceu em Holybourne, Reino Unido em 1865. Foi uma romancista e contista britânica.


 

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