O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO
JOSÉ SARAMAGO
COMPANHIA DE BOLSO – 2005
Em O Evangelho Segundo
Jesus Cristo, José Saramago propõe uma reinterpretação radical da
figura de Jesus, narrando sua história de modo a desafiar frontalmente as
crenças religiosas convencionais. Não se trata de uma negação simples do
cristianismo, mas de uma reescrita que desloca seus fundamentos, expondo
tensões éticas, políticas e teológicas geralmente silenciadas.
A narrativa se inicia com o
nascimento de Jesus em Belém, mas desde as primeiras páginas fica claro que
Saramago não está interessado em repetir a versão bíblica consagrada. O autor
rapidamente abandona a infância milagrosa e avança para a vida adulta, concentrando-se
no momento em que Jesus passa a ser confrontado pelas exigências de sua missão
— exigências que não aparecem como redenção, mas como imposição.
O Jesus de Saramago é, antes de
tudo, um homem. Um homem atravessado por dúvidas, medos, desejos e tentações.
Um homem que sofre, ama, hesita e se interroga. Ao humanizar radicalmente
Jesus, Saramago desmonta a imagem de um messias plenamente consciente de seu
destino e revela o peso insuportável de uma identidade divina que não foi
escolhida, mas imposta. A relação com Deus não é de obediência serena, mas de
conflito; a fé não é conforto, mas inquietação.
As relações de Jesus com seus
discípulos, com Maria e com outras figuras bíblicas são igualmente deslocadas.
Maria deixa de ocupar o lugar idealizado da virgindade intocável para surgir
como mulher marcada pela dor, pela culpa e pela perda. A santidade dá lugar à
experiência concreta, corporal e histórica. Ao fazê-lo, Saramago questiona não
apenas dogmas específicos — como a Trindade ou a virgindade de Maria —, mas a
própria lógica que sustenta uma teologia fundada no sacrifício.
Ao longo do romance, a crítica à
Igreja Católica e ao seu papel histórico é incisiva. O cristianismo aparece
menos como mensagem de amor e mais como projeto de poder, sustentado pela dor e
pelo sofrimento humanos. Essa crítica atinge seu ponto mais alto no célebre
encontro, em um barco, entre Jesus, Deus e o diabo. O diálogo entre os três é
magistral e perturbador: Deus surge como figura sedenta de domínio, disposto a
sacrificar o próprio filho para ampliar seu reino; o diabo, paradoxalmente,
aparece como aquele que reconhece o horror desse plano; e Jesus, preso entre
ambos, percebe que seu destino não é salvar o mundo, mas inaugurá-lo como
espaço permanente de culpa e violência.
Nesse sentido, O
Evangelho Segundo Jesus Cristo não é apenas um romance religioso,
mas uma reflexão profunda sobre poder, obediência e responsabilidade. Saramago
nos obriga a perguntar: que tipo de Deus exige o sofrimento como prova de amor?
Que tipo de fé se funda no sacrifício de um inocente? Ao devolver a Jesus sua
humanidade, o autor desloca o sagrado e expõe o custo humano das grandes
narrativas de salvação.
É um livro incômodo — e justamente por isso
necessário.

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