quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

AS MULHERES QUE MANTÊM O SISTEMA — E AS QUE O FAZEM RUIR

 


OS TESTAMENTOS

MARGARET ATWOOD

ROCCO – 1ª ED. 2021

Em Os Testamentos, Margaret Atwood desloca o foco da vítima silenciosa para a estrutura do poder em decomposição. Se O Conto da Aia era o relato claustrofóbico da opressão vivida no corpo das mulheres, aqui o que se expõe é o funcionamento interno de Gilead — seus mecanismos de manutenção, suas cumplicidades e, sobretudo, suas fissuras.

A grande virada do romance está na multiplicidade de vozes femininas. Atwood abandona a narração única e fragmenta o relato entre mulheres situadas em posições distintas do regime. Essa escolha não é apenas formal: ela é política. O totalitarismo não se sustenta apenas pela violência explícita, mas pela adesão, pelo medo administrado e pela promessa de sobrevivência. Em Os Testamentos, compreendemos que o patriarcado precisa de mulheres que o reproduzam para continuar existindo.

A figura da Tia Lydia é central nesse sentido. Longe de ser apresentada apenas como vilã, ela encarna uma questão incômoda: como mulheres podem ocupar lugares de poder dentro de regimes misóginos? Sua narrativa revela o preço da adaptação, da negociação moral e da crença de que, para sobreviver, é preciso colaborar. Atwood não absolve, mas também não simplifica. O mal, aqui, não é espetacular; é burocrático, estratégico, calculado.

O romance também desloca o eixo da resistência. Diferente da espera quase suspensa de Offred, agora a resistência se organiza por arquivos, testemunhos, segredos e memórias. A palavra escrita torna-se uma arma silenciosa contra o esquecimento. Não é pela revolta aberta que Gilead começa a ruir, mas pela produção de provas, pela circulação subterrânea da verdade, pela erosão interna da autoridade.

Há ainda um aspecto fundamental: Os Testamentos é um livro sobre o depois. Depois do trauma, depois da violência, depois do silêncio. Atwood nos lembra que regimes totalitários não caem em grandes gestos heroicos, mas em processos lentos de desgaste. A queda não é gloriosa; é suja, ambígua, cheia de pactos incômodos. E mesmo quando o sistema termina, suas marcas permanecem.

Se O Conto da Aia perguntava como é possível viver sob a tirania, Os Testamentos pergunta algo ainda mais perturbador: o que fazemos com o que fomos obrigadas a ser para sobreviver? A resposta não é confortável. Mas é necessária.

Atwood escreve, mais uma vez, não como quem imagina um futuro distópico, mas como quem reconhece padrões históricos. Os Testamentos não oferece redenção plena, apenas lucidez. E talvez seja exatamente isso que o torna tão atual: a certeza de que nenhum regime termina sem deixar rastros e que narrá-los é um gesto político.



Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Canadá em 1939. É uma romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária. 

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