OS TESTAMENTOS
MARGARET ATWOOD
ROCCO – 1ª ED. 2021
Em Os Testamentos,
Margaret Atwood desloca o foco da vítima silenciosa para a estrutura do poder em decomposição. Se O
Conto da Aia era o relato claustrofóbico da opressão vivida no
corpo das mulheres, aqui o que se expõe é o funcionamento
interno de Gilead — seus mecanismos de manutenção, suas
cumplicidades e, sobretudo, suas fissuras.
A grande virada do romance está
na multiplicidade de vozes femininas.
Atwood abandona a narração única e fragmenta o relato entre mulheres situadas
em posições distintas do regime. Essa escolha não é apenas formal: ela é
política. O totalitarismo não se sustenta apenas pela violência explícita, mas
pela adesão, pelo medo administrado e pela promessa de sobrevivência. Em Os
Testamentos, compreendemos que o patriarcado precisa de mulheres
que o reproduzam para continuar existindo.
A figura da Tia Lydia é central
nesse sentido. Longe de ser apresentada apenas como vilã, ela encarna uma
questão incômoda: como mulheres podem ocupar lugares de
poder dentro de regimes misóginos? Sua narrativa revela o preço
da adaptação, da negociação moral e da crença de que, para sobreviver, é
preciso colaborar. Atwood não absolve, mas também não simplifica. O mal, aqui,
não é espetacular; é burocrático, estratégico, calculado.
O romance também desloca o eixo
da resistência. Diferente da espera quase suspensa de Offred, agora a
resistência se organiza por arquivos, testemunhos,
segredos e memórias. A palavra escrita torna-se uma arma
silenciosa contra o esquecimento. Não é pela revolta aberta que Gilead começa a
ruir, mas pela produção de provas,
pela circulação subterrânea da verdade, pela erosão interna da autoridade.
Há ainda um aspecto fundamental:
Os Testamentos é um livro sobre o depois. Depois do trauma, depois da
violência, depois do silêncio. Atwood nos lembra que regimes totalitários não
caem em grandes gestos heroicos, mas em processos lentos de desgaste. A queda
não é gloriosa; é suja, ambígua, cheia de pactos incômodos. E mesmo quando o
sistema termina, suas marcas permanecem.
Se O Conto da Aia
perguntava como é possível viver sob a tirania, Os Testamentos
pergunta algo ainda mais perturbador: o que fazemos com o que
fomos obrigadas a ser para sobreviver? A resposta não é
confortável. Mas é necessária.
Atwood escreve, mais uma vez,
não como quem imagina um futuro distópico, mas como quem reconhece padrões
históricos. Os Testamentos não oferece
redenção plena, apenas lucidez. E talvez seja exatamente isso que o torna tão
atual: a certeza de que nenhum regime termina sem deixar rastros e que
narrá-los é um gesto político.

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