quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Diário de um cerco e a destruição da vida civil em Gaza


 

QUERO ESTAR ACORDADO QUANDO MORRER

ATEF ABU SAIF

Editora Elefante – 1ª – 2024


Atef Abu Saif é escritor e também ministro da Cultura da Autoridade Nacional Palestina. Ele estava em Gaza quando começaram os ataques de Israel após o dia 7 de outubro de 2023. Encontrava-se ali com um de seus filhos; sua esposa e os outros filhos haviam permanecido em Ramallah, na Cisjordânia, onde a família reside. Foram 85 dias sob intenso bombardeio até que conseguissem sair de Gaza e retornar para casa. Durante todo esse período, Atef Abu Saif escreveu um diário — o livro agora publicado em dez países.

O relato é visceral. O horror de estar ali: milhões de pessoas sob ataque constante, sem qualquer lógica que pudesse ser compreendida. Diferentemente do que se costuma considerar como “alvos” em guerras, os mísseis, drones e, depois, os ataques terrestres se dirigiam a qualquer lugar — escolas, residências, hospitais, ruas. O alvo não era o Hamas, apesar das justificativas apresentadas por Israel; o alvo era a população civil. Trata-se de uma limpeza étnica.

Os habitantes recebiam ordens para seguir em direção ao sul e eram mortos no caminho, ou presos e levados para prisões em Israel. Morriam em suas casas, na fila da padaria, dentro de hospitais, em escolas. Crianças, idosos, mulheres e homens. Quando conseguiam chegar ao sul, eram novamente bombardeados.

E há algo ainda mais cruel: o cerco absoluto. Diferentemente da Ucrânia, por exemplo, onde parte da população conseguiu se refugiar em outros países, em Gaza isso é impossível. Não há saída. A ajuda humanitária foi cortada: sem água, sem eletricidade, sem internet, sem comida, sem medicamentos. Muitas vidas que poderiam ter sido salvas foram perdidas.

Os palestinos separam os membros da família para que, caso uma casa seja atingida, não morram todos juntos. O autor tem várias irmãs, irmãos e o pai em Gaza. Precisou deixá-los quando conseguiu partir. Ele relata que o medo é algo que, na guerra, desaparece — o mesmo que dirá outro autor de um diário sobre a Ucrânia. O cotidiano se reduz a encontrar pão e torcer para não estar no lugar onde o míssil vai cair. 

É um livro difícil de ler pelo que revela, mas absolutamente necessário — sobretudo por desmentir muito do que se diz no Ocidente.


Atef Abu Saif nasceu no campo de refugiados de Jabalia, na Faixa de Gaza, em 1973. É um escritor palestino. 

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