quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

• Entre o santo e o contrato: o destino feminino

 


A CABEÇA DO SANTO

SOCORRO ACIOLI

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2014

Há livros que se deixam ler com gula. A Cabeça do Santo é um deles: desses que se devoram sem culpa, mas que, ao final, permanecem ecoando, como se a leveza da narrativa escondesse algo mais fundo.

A história começa com um gesto ancestral. A mãe de Samuel, pertencente a uma linhagem de mulheres que sabiam quando iam morrer, anuncia sua partida iminente e lhe confia seus últimos pedidos: acender uma vela aos pés da estátua de Padre Cícero, em Juazeiro; outra diante de São Francisco, em Canindé; e mais uma para Santo Antônio, em Candeia. Depois disso, Samuel deveria retornar a essa cidade para encontrar o pai que nunca conheceu. Contrariado, ele promete cumprir a missão — promessa que o coloca em movimento, tanto no espaço quanto na própria vida.

A viagem até Candeia dura dezesseis dias de estrada dura: fome, cansaço, solidão. Quando finalmente chega ao endereço indicado pela mãe, é recebido pela avó, que não abre o portão. Apenas lhe diz para procurar abrigo, pois uma forte chuva se aproxima. Samuel obedece. No dia seguinte, ao despertar, escuta vozes — muitas vozes de mulheres. Descobre, então, que está abrigado dentro de uma enorme cabeça de concreto: a cabeça de Santo Antônio, esquecida no chão, separada do corpo da estátua que permanece no alto do morro.

É a partir dessa imagem insólita que Socorro Acioli constrói o coração do romance. Samuel passa a ouvir, de dentro da cabeça do santo, os pedidos das mulheres que recorrem ao santo casamenteiro. Pedidos íntimos, desesperados, às vezes cômicos, às vezes dolorosos. Incapaz de ignorá-los, ele começa a agir em favor dessas mulheres — e, nesse movimento, acaba reanimando uma cidade quase morta. A decadência de Candeia é atribuída, pelos moradores, à “desgraça” simbólica de um santo incompleto, decapitado. A intervenção de Samuel reorganiza não apenas destinos individuais, mas o próprio imaginário coletivo da cidade.

O tom do livro oscila com inteligência entre o comovente e o hilariante. Há momentos de humor afiado, mas nunca gratuito. O fantástico aqui não serve como ornamento exótico, e sim como linguagem para falar de fé, desejo, abandono e esperança — sobretudo a esperança feminina, tantas vezes silenciada.

Muito se fala da aproximação do romance com o realismo fantástico latino-americano, e é verdade que Acioli estudou com Gabriel García Márquez. Ainda assim, o mérito do livro não está em qualquer filiação estética, mas na autonomia de sua escrita. A Cabeça do Santo não imita: inventa. É fruto de uma imaginação própria, profundamente enraizada no Nordeste brasileiro, capaz de transformar religiosidade popular, oralidade e crítica social em literatura de alta qualidade.

É um livro que parece simples — e talvez por isso seja tão poderoso. Porque sob a leveza da narrativa, o que se revela é uma reflexão delicada sobre fé, escuta e reparação. E, sobretudo, sobre o que acontece quando alguém decide levar a sério as vozes que o mundo costuma ignorar.

Há ainda um aspecto decisivo do romance que merece ser destacado: o modo como A Cabeça do Santo organiza sua narrativa a partir dos desejos femininos — desejos que, não por acaso, se dirigem a Santo Antônio, o santo casamenteiro. As vozes que Samuel escuta são, majoritariamente, vozes de mulheres. E o que elas pedem não é qualquer coisa: pedem casamento, pertencimento, reconhecimento social. Pedem um destino.

O livro expõe, com delicadeza e ironia, como o casamento aparece como horizonte quase obrigatório da vida feminina, especialmente em contextos marcados pela precariedade material e simbólica. Não se trata apenas de fé, mas de sobrevivência. Casar, aqui, é promessa de proteção, de saída da invisibilidade, de algum tipo de futuro possível. Ao transformar esses pedidos em murmúrios incessantes dentro da cabeça do santo, Acioli materializa o peso desse destino imposto — um destino que ecoa, insiste, cobra resposta.

É significativo que seja um homem, Samuel, quem escuta essas vozes e age em nome delas. O romance não ignora essa assimetria; ao contrário, torna-a parte da engrenagem narrativa. As mulheres falam, mas não são ouvidas diretamente pelo mundo. Precisam atravessar o santo, o milagre, o intermediário masculino. Nesse deslocamento, o livro sugere uma crítica sutil às estruturas que condicionam o desejo feminino à mediação alheia — seja religiosa, social ou patriarcal.

Assim, A Cabeça do Santo pode ser lido como uma fábula sobre fé e comunidade, mas também como uma reflexão sobre o modo como o destino das mulheres é historicamente reduzido a um único enredo possível. Ao dar corpo e voz a esses pedidos, Acioli não os ridiculariza; ela os expõe. E, ao fazê-lo, nos convida a escutar o que essas vozes dizem — e, talvez, a perguntar por que ainda dizem sempre a mesma coisa.


Socorro Acioli nasceu em Fortaleza no Ceará em 1975. É jornalista e escritora brasileira 



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