A CABEÇA DO SANTO
SOCORRO ACIOLI
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2014
Há livros que se deixam ler com
gula. A Cabeça do Santo é um deles: desses que se devoram
sem culpa, mas que, ao final, permanecem ecoando, como se a leveza da narrativa
escondesse algo mais fundo.
A história começa com um gesto
ancestral. A mãe de Samuel, pertencente a uma linhagem de mulheres que sabiam
quando iam morrer, anuncia sua partida iminente e lhe confia seus últimos
pedidos: acender uma vela aos pés da estátua de Padre Cícero, em Juazeiro;
outra diante de São Francisco, em Canindé; e mais uma para Santo Antônio, em
Candeia. Depois disso, Samuel deveria retornar a essa cidade para encontrar o
pai que nunca conheceu. Contrariado, ele promete cumprir a missão — promessa
que o coloca em movimento, tanto no espaço quanto na própria vida.
A viagem até Candeia dura
dezesseis dias de estrada dura: fome, cansaço, solidão. Quando finalmente chega
ao endereço indicado pela mãe, é recebido pela avó, que não abre o portão.
Apenas lhe diz para procurar abrigo, pois uma forte chuva se aproxima. Samuel
obedece. No dia seguinte, ao despertar, escuta vozes — muitas vozes de
mulheres. Descobre, então, que está abrigado dentro de uma enorme cabeça de
concreto: a cabeça de Santo Antônio, esquecida no chão, separada do corpo da
estátua que permanece no alto do morro.
É a partir dessa imagem insólita
que Socorro Acioli constrói o coração do romance. Samuel passa a ouvir, de
dentro da cabeça do santo, os pedidos das mulheres que recorrem ao santo
casamenteiro. Pedidos íntimos, desesperados, às vezes cômicos, às vezes dolorosos.
Incapaz de ignorá-los, ele começa a agir em favor dessas mulheres — e, nesse
movimento, acaba reanimando uma cidade quase morta. A decadência de Candeia é
atribuída, pelos moradores, à “desgraça” simbólica de um santo incompleto,
decapitado. A intervenção de Samuel reorganiza não apenas destinos individuais,
mas o próprio imaginário coletivo da cidade.
O tom do livro oscila com
inteligência entre o comovente e o hilariante. Há momentos de humor afiado, mas
nunca gratuito. O fantástico aqui não serve como ornamento exótico, e sim como
linguagem para falar de fé, desejo, abandono e esperança — sobretudo a
esperança feminina, tantas vezes silenciada.
Muito se fala da aproximação do
romance com o realismo fantástico latino-americano, e é verdade que Acioli
estudou com Gabriel García Márquez. Ainda assim, o mérito do livro não está em
qualquer filiação estética, mas na autonomia de sua escrita. A
Cabeça do Santo não imita: inventa. É fruto de uma imaginação
própria, profundamente enraizada no Nordeste brasileiro, capaz de transformar
religiosidade popular, oralidade e crítica social em literatura de alta
qualidade.
É um livro que parece simples —
e talvez por isso seja tão poderoso. Porque sob a leveza da narrativa, o que se
revela é uma reflexão delicada sobre fé, escuta e reparação. E, sobretudo,
sobre o que acontece quando alguém decide levar a sério as vozes que o mundo
costuma ignorar.
Há ainda um aspecto decisivo do
romance que merece ser destacado: o modo como A Cabeça do Santo
organiza sua narrativa a partir dos desejos femininos — desejos que, não por
acaso, se dirigem a Santo Antônio, o santo casamenteiro. As vozes que Samuel
escuta são, majoritariamente, vozes de mulheres. E o que elas pedem não é
qualquer coisa: pedem casamento, pertencimento, reconhecimento social. Pedem um
destino.
O livro expõe, com delicadeza e
ironia, como o casamento aparece como horizonte quase obrigatório da vida
feminina, especialmente em contextos marcados pela precariedade material e
simbólica. Não se trata apenas de fé, mas de sobrevivência. Casar, aqui, é
promessa de proteção, de saída da invisibilidade, de algum tipo de futuro
possível. Ao transformar esses pedidos em murmúrios incessantes dentro da
cabeça do santo, Acioli materializa o peso desse destino imposto — um destino
que ecoa, insiste, cobra resposta.
É significativo que seja um
homem, Samuel, quem escuta essas vozes e age em nome delas. O romance não
ignora essa assimetria; ao contrário, torna-a parte da engrenagem narrativa. As
mulheres falam, mas não são ouvidas diretamente pelo mundo. Precisam atravessar
o santo, o milagre, o intermediário masculino. Nesse deslocamento, o livro
sugere uma crítica sutil às estruturas que condicionam o desejo feminino à
mediação alheia — seja religiosa, social ou patriarcal.
Assim, A
Cabeça do Santo pode ser lido como uma fábula sobre fé e
comunidade, mas também como uma reflexão sobre o modo como o destino das
mulheres é historicamente reduzido a um único enredo possível. Ao dar corpo e
voz a esses pedidos, Acioli não os ridiculariza; ela os expõe. E, ao fazê-lo,
nos convida a escutar o que essas vozes dizem — e, talvez, a perguntar por que
ainda dizem sempre a mesma coisa.
Socorro Acioli nasceu em Fortaleza no Ceará em 1975. É jornalista e escritora brasileira


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