PSICOPOLÍTICA
BYUNG CHUL-HAN
EDITORA ÂYINÉ – 2020
Em Psicopolítica, Byung-Chul Han propõe uma leitura incisiva das
formas contemporâneas de poder. Diferentemente das sociedades disciplinares
analisadas por Foucault — baseadas na vigilância, na repressão e na coerção
externa —, o filósofo sul-coreano argumenta que vivemos sob um regime mais
sutil e, por isso mesmo, mais eficaz: o da exploração voluntária de si.
O
poder neoliberal já não opera prioritariamente pela proibição, mas pela
positividade. Não diz “não”, diz “você pode”. Não impõe, seduz. O sujeito
contemporâneo não se sente dominado, mas livre — e é justamente nessa sensação
de liberdade que reside a armadilha. Ao internalizar as exigências de
desempenho, produtividade e sucesso, o indivíduo passa a se auto explorar,
acreditando que age por vontade própria.
Han
descreve a passagem do sujeito obediente ao sujeito empreendedor de si. Já não
há um outro claramente identificável que oprime; o sujeito se torna
simultaneamente senhor e escravo. Essa dinâmica produz não revolta, mas
cansaço. Não gera resistência coletiva, mas esgotamento individual. Depressão,
burnout e ansiedade surgem, então, não como falhas pessoais, mas como sintomas
políticos de um sistema que transforma liberdade em obrigação.
O
termo “psicopolítica” nomeia exatamente esse deslocamento do poder para o
interior da psique. As técnicas de dominação não se dirigem mais apenas ao
corpo, mas à mente, às emoções, aos desejos. A transparência, a comunicação
constante, a exposição voluntária nas redes e a cultura do like funcionam como
dispositivos de controle que dispensam a violência explícita. O sujeito se
oferece, se mostra, se mede — e se vigia.
Nesse
contexto, a liberdade deixa de ser espaço de indeterminação e se converte em
performance. Tudo deve ser comunicado, otimizado, monetizado. Até o tempo livre
se torna produtivo. O descanso precisa ser “eficiente”, a felicidade
mensurável, a identidade constantemente atualizada. O silêncio, a negatividade,
o ócio e a contemplação — condições fundamentais do pensamento crítico —
tornam-se suspeitos, improdutivos, quase ilegítimos.
Um
dos aspectos mais inquietantes do livro é a análise da perda da alteridade. A
sociedade da positividade não tolera o outro como diferença radical. O que
circula é o igual, o semelhante, o que confirma. O conflito dá lugar ao
consenso algorítmico. A política, nesse cenário, esvazia-se: transforma-se em
gestão, em cálculo, em administração de dados, enquanto a possibilidade de ação
coletiva se dissolve em experiências individuais de fracasso ou sucesso.
Psicopolítica é um livro breve, mas
contundente. Sua força está menos em oferecer soluções do que em nomear o
mal-estar contemporâneo, deslocando-o do plano psicológico para o político. Han
nos obriga a reconhecer que aquilo que vivenciamos como exaustão pessoal é, na
verdade, o efeito de uma racionalidade que colonizou a própria subjetividade.
Ao
final, a pergunta que o livro deixa não é confortável: como resistir a um poder
que se exerce através do desejo, da liberdade e da autossuperação? Pensar
talvez seja, hoje, um dos últimos gestos verdadeiramente subversivos.
Byung-Chul Han nasceu em Seul, Coréia do Sul em 1959. É um filósofo ensaísta sul-coreano que vive na Alemanha.

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