quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

POR QUE JÁ NÃO PRECISAMOS DE UM OPRESSOR EXTERNO

 


PSICOPOLÍTICA

BYUNG CHUL-HAN

EDITORA ÂYINÉ – 2020

Em Psicopolítica, Byung-Chul Han propõe uma leitura incisiva das formas contemporâneas de poder. Diferentemente das sociedades disciplinares analisadas por Foucault — baseadas na vigilância, na repressão e na coerção externa —, o filósofo sul-coreano argumenta que vivemos sob um regime mais sutil e, por isso mesmo, mais eficaz: o da exploração voluntária de si.

O poder neoliberal já não opera prioritariamente pela proibição, mas pela positividade. Não diz “não”, diz “você pode”. Não impõe, seduz. O sujeito contemporâneo não se sente dominado, mas livre — e é justamente nessa sensação de liberdade que reside a armadilha. Ao internalizar as exigências de desempenho, produtividade e sucesso, o indivíduo passa a se auto explorar, acreditando que age por vontade própria.

Han descreve a passagem do sujeito obediente ao sujeito empreendedor de si. Já não há um outro claramente identificável que oprime; o sujeito se torna simultaneamente senhor e escravo. Essa dinâmica produz não revolta, mas cansaço. Não gera resistência coletiva, mas esgotamento individual. Depressão, burnout e ansiedade surgem, então, não como falhas pessoais, mas como sintomas políticos de um sistema que transforma liberdade em obrigação.

O termo “psicopolítica” nomeia exatamente esse deslocamento do poder para o interior da psique. As técnicas de dominação não se dirigem mais apenas ao corpo, mas à mente, às emoções, aos desejos. A transparência, a comunicação constante, a exposição voluntária nas redes e a cultura do like funcionam como dispositivos de controle que dispensam a violência explícita. O sujeito se oferece, se mostra, se mede — e se vigia.

Nesse contexto, a liberdade deixa de ser espaço de indeterminação e se converte em performance. Tudo deve ser comunicado, otimizado, monetizado. Até o tempo livre se torna produtivo. O descanso precisa ser “eficiente”, a felicidade mensurável, a identidade constantemente atualizada. O silêncio, a negatividade, o ócio e a contemplação — condições fundamentais do pensamento crítico — tornam-se suspeitos, improdutivos, quase ilegítimos.

Um dos aspectos mais inquietantes do livro é a análise da perda da alteridade. A sociedade da positividade não tolera o outro como diferença radical. O que circula é o igual, o semelhante, o que confirma. O conflito dá lugar ao consenso algorítmico. A política, nesse cenário, esvazia-se: transforma-se em gestão, em cálculo, em administração de dados, enquanto a possibilidade de ação coletiva se dissolve em experiências individuais de fracasso ou sucesso.

Psicopolítica é um livro breve, mas contundente. Sua força está menos em oferecer soluções do que em nomear o mal-estar contemporâneo, deslocando-o do plano psicológico para o político. Han nos obriga a reconhecer que aquilo que vivenciamos como exaustão pessoal é, na verdade, o efeito de uma racionalidade que colonizou a própria subjetividade.

Ao final, a pergunta que o livro deixa não é confortável: como resistir a um poder que se exerce através do desejo, da liberdade e da autossuperação? Pensar talvez seja, hoje, um dos últimos gestos verdadeiramente subversivos.


Byung-Chul Han nasceu em Seul, Coréia do Sul em 1959. É um filósofo ensaísta sul-coreano que vive na Alemanha.  


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