O LEOPARDO
GIUSEPE
TOMASI DI LAMPEDUSA
Companhia
das Letras – 1ª ed. 2017
O Leopardo, de Giuseppe
Tomasi di Lampedusa, estava na minha lista de leitura havia algum tempo. Quando
vi que a Netflix lançará uma minissérie baseada no livro, resolvi passá-lo à
frente. Gosto de ler o livro antes de ver filmes ou séries. Publicado em 1958,
ele já havia sido adaptado para o cinema por Luchino Visconti.
O
romance é inspirado no bisavô paterno do autor e narra a vida de uma família
aristocrática siciliana, os Salina, entre as décadas de 1860 e 1910, período em
que ocorre o Risorgimento — o processo que
culmina na unificação da Itália — e em que a Sicília é anexada ao Reino da
Sardenha. Os Bourbons, que governavam até então, são substituídos pela
burguesia liberal e pela dinastia de Saboia. Garibaldi, figura central desse
processo histórico, também aparece como referência. Esse é o pano de fundo da
narrativa, embora o foco principal recaia sobre o príncipe Fabrizio — o
Leopardo, nome que remete ao animal presente no brasão da família.
Durante
a leitura, lembrei-me diversas vezes de Tolstói e de suas descrições da
aristocracia russa. As minúcias, os detalhes que à primeira vista parecem
fúteis, mas que revelam com precisão o modo de vida dessas famílias: o
mobiliário, os tapetes, as louças, os quadros, a curvatura do lustre e, claro,
os cardápios servidos — e a quem eram servidos.
O
sobrinho do príncipe, Tancredi, adere ao movimento de unificação, mas assegura
que, ao final, nada realmente mudará. Fabrizio percebe que ele tem razão: a
Sicília continuará sendo a mesma, apenas sob outro domínio.
O
sogro de Tancredi representa a burguesia liberal emergente. Há passagens
marcantes em que Dom Calogero e o príncipe são colocados frente a frente,
evidenciando a distância que os separa. A arte, para um, tem valor monetário;
para o outro, é beleza — apenas para citar um exemplo. Aos poucos, o príncipe é
tomado por uma melancolia profunda. O romance traz cenas pungentes que
acompanham a decadência de um mundo e o surgimento de outro. Fabrizio assiste
ao desmoronamento do universo ao qual pertence, sem que possa fazer algo para
detê-lo.
O
livro também expõe as questões sociais — a pobreza, a exploração e a opressão —
observadas pelo olhar do príncipe ou em suas conversas com outros personagens.
Nada disso se transforma com a chegada do capitalismo.


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