quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Quando tudo muda para que tudo permaneça igual

 


O LEOPARDO

GIUSEPE TOMASI DI LAMPEDUSA

Companhia das Letras – 1ª ed. 2017

O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, estava na minha lista de leitura havia algum tempo. Quando vi que a Netflix lançará uma minissérie baseada no livro, resolvi passá-lo à frente. Gosto de ler o livro antes de ver filmes ou séries. Publicado em 1958, ele já havia sido adaptado para o cinema por Luchino Visconti.

O romance é inspirado no bisavô paterno do autor e narra a vida de uma família aristocrática siciliana, os Salina, entre as décadas de 1860 e 1910, período em que ocorre o Risorgimento — o processo que culmina na unificação da Itália — e em que a Sicília é anexada ao Reino da Sardenha. Os Bourbons, que governavam até então, são substituídos pela burguesia liberal e pela dinastia de Saboia. Garibaldi, figura central desse processo histórico, também aparece como referência. Esse é o pano de fundo da narrativa, embora o foco principal recaia sobre o príncipe Fabrizio — o Leopardo, nome que remete ao animal presente no brasão da família.

Durante a leitura, lembrei-me diversas vezes de Tolstói e de suas descrições da aristocracia russa. As minúcias, os detalhes que à primeira vista parecem fúteis, mas que revelam com precisão o modo de vida dessas famílias: o mobiliário, os tapetes, as louças, os quadros, a curvatura do lustre e, claro, os cardápios servidos — e a quem eram servidos.

O sobrinho do príncipe, Tancredi, adere ao movimento de unificação, mas assegura que, ao final, nada realmente mudará. Fabrizio percebe que ele tem razão: a Sicília continuará sendo a mesma, apenas sob outro domínio.

O sogro de Tancredi representa a burguesia liberal emergente. Há passagens marcantes em que Dom Calogero e o príncipe são colocados frente a frente, evidenciando a distância que os separa. A arte, para um, tem valor monetário; para o outro, é beleza — apenas para citar um exemplo. Aos poucos, o príncipe é tomado por uma melancolia profunda. O romance traz cenas pungentes que acompanham a decadência de um mundo e o surgimento de outro. Fabrizio assiste ao desmoronamento do universo ao qual pertence, sem que possa fazer algo para detê-lo.

O livro também expõe as questões sociais — a pobreza, a exploração e a opressão — observadas pelo olhar do príncipe ou em suas conversas com outros personagens. Nada disso se transforma com a chegada do capitalismo.



Giusepe Tomasi Di Lampedusa nasceu em Palermo em 1896 e faleceu em Roma em 1947. Foi um escritor italiano 

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