quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A LÓGICA BURGUESA DA DESUMANIZAÇÃO

 


A METAMORFOSE

FRANZ KAFKA

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 1997

Em A Metamorfose, Kafka lança mão de uma imagem extrema: a transformação de um homem em inseto. Não se trata de um artifício fantástico gratuito, mas de uma metáfora radical daquilo que acontece quando um sujeito é privado de qualquer possibilidade de desejar, escolher ou existir para além das exigências que lhe são impostas.

Gregor Samsa é um homem que não pode atender aos próprios desejos. Sua vida é regida pela ordem burguesa, familiar e econômica. Trabalhar, sustentar a família, cumprir horários — eis o imperativo absoluto. Mesmo o quarto, último reduto de sua singularidade e de sua alteridade, não lhe pertence verdadeiramente. A porta nunca é respeitada. Batem, chamam, exigem. Ele vai perder a hora do trabalho. É isso que importa.

A narrativa revela, com precisão cruel, a inexistência de espaço para a singularidade. Quando o sujeito não corresponde às expectativas de produtividade e normalidade, torna-se algo outro — algo abjeto. A metamorfose não é apenas corporal; é social. Ao deixar de funcionar, Gregor deixa de ser reconhecido como humano. Igualado a um inseto, ele é progressivamente isolado, esquecido, descartado.

A morte de Gregor não provoca luto verdadeiro. Ela funciona, antes, como liberação. Com sua ausência, a família pode finalmente reorganizar a vida. Os olhares se voltam para a filha, agora percebida como promessa de futuro: ela poderá fazer um “bom casamento” e, assim, garantir a continuidade da ordem familiar.

Kafka expõe, sem concessões, a violência silenciosa de um mundo que reduz o valor da vida à utilidade econômica e à adequação social. A Metamorfose não fala apenas de um homem que se transforma em inseto, mas de uma sociedade que transforma sujeitos em coisas — e que segue adiante sem hesitação quando eles deixam de servir.

Há, no entanto, um deslocamento decisivo no final da narrativa que merece atenção: após a morte de Gregor, o olhar da família se volta para a irmã. Se ele foi descartado por não cumprir mais sua função produtiva, ela passa a ser investida como promessa de futuro. Mas esse futuro não é autonomia, nem desejo próprio — é casamento. A solução para a crise familiar não é a redistribuição justa do cuidado ou do trabalho, mas a reinscrição da filha em um destino socialmente aceito.

Kafka expõe, com frieza quase clínica, a lógica que organiza essa passagem: o corpo masculino vale enquanto trabalha; quando falha, torna-se descartável. O corpo feminino, por sua vez, é preservado como capital simbólico. Não para existir por si, mas para ser oferecido — ao matrimônio, à reprodução da ordem, à manutenção da família. A irmã não é libertada com a morte de Gregor; ela é convocada.

Nesse sentido, A Metamorfose revela que a violência não termina com a eliminação do sujeito improdutivo. Ela apenas muda de forma. O sacrifício do filho abre caminho para a captura da filha. O destino feminino surge como resposta silenciosa à crise: casar-se, assegurar continuidade, sustentar o que resta. Kafka não romantiza esse desfecho. Ele o expõe como parte da mesma engrenagem que transformou Gregor em inseto — uma engrenagem que exige, sempre, um corpo disponível para garantir a normalidade.



Franz Kafka nasceu em Praga, Tchéquia em 1883 e faleceu em Kierling, Klosterneuburg, Áustria. Foi um escritor de língua alemã. 


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