A METAMORFOSE
FRANZ KAFKA
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 1997
Em A Metamorfose,
Kafka lança mão de uma imagem extrema: a transformação de um homem em inseto.
Não se trata de um artifício fantástico gratuito, mas de uma metáfora radical
daquilo que acontece quando um sujeito é privado de qualquer possibilidade de
desejar, escolher ou existir para além das exigências que lhe são impostas.
Gregor Samsa é um homem que não
pode atender aos próprios desejos. Sua vida é regida pela ordem burguesa,
familiar e econômica. Trabalhar, sustentar a família, cumprir horários — eis o
imperativo absoluto. Mesmo o quarto, último reduto de sua singularidade e de
sua alteridade, não lhe pertence verdadeiramente. A porta nunca é respeitada.
Batem, chamam, exigem. Ele vai perder a hora do trabalho. É isso que importa.
A narrativa revela, com precisão
cruel, a inexistência de espaço para a singularidade. Quando o sujeito não
corresponde às expectativas de produtividade e normalidade, torna-se algo outro
— algo abjeto. A metamorfose não é apenas corporal; é social. Ao deixar de
funcionar, Gregor deixa de ser reconhecido como humano. Igualado a um inseto,
ele é progressivamente isolado, esquecido, descartado.
A morte de Gregor não provoca
luto verdadeiro. Ela funciona, antes, como liberação. Com sua ausência, a
família pode finalmente reorganizar a vida. Os olhares se voltam para a filha,
agora percebida como promessa de futuro: ela poderá fazer um “bom casamento” e,
assim, garantir a continuidade da ordem familiar.
Kafka expõe, sem concessões, a
violência silenciosa de um mundo que reduz o valor da vida à utilidade
econômica e à adequação social. A Metamorfose não fala apenas
de um homem que se transforma em inseto, mas de uma sociedade que transforma
sujeitos em coisas — e que segue adiante sem hesitação quando eles deixam de
servir.
Há, no entanto, um deslocamento
decisivo no final da narrativa que merece atenção: após a morte de Gregor, o
olhar da família se volta para a irmã. Se ele foi descartado por não cumprir
mais sua função produtiva, ela passa a ser investida como promessa de futuro.
Mas esse futuro não é autonomia, nem desejo próprio — é casamento. A solução
para a crise familiar não é a redistribuição justa do cuidado ou do trabalho,
mas a reinscrição da filha em um destino socialmente aceito.
Kafka expõe, com frieza quase
clínica, a lógica que organiza essa passagem: o corpo masculino vale enquanto
trabalha; quando falha, torna-se descartável. O corpo feminino, por sua vez, é
preservado como capital simbólico. Não para existir por si, mas para ser
oferecido — ao matrimônio, à reprodução da ordem, à manutenção da família. A
irmã não é libertada com a morte de Gregor; ela é convocada.
Nesse sentido, A
Metamorfose revela que a violência não termina com a eliminação do
sujeito improdutivo. Ela apenas muda de forma. O sacrifício do filho abre
caminho para a captura da filha. O destino feminino surge como resposta
silenciosa à crise: casar-se, assegurar continuidade, sustentar o que resta.
Kafka não romantiza esse desfecho. Ele o expõe como parte da mesma engrenagem
que transformou Gregor em inseto — uma engrenagem que exige, sempre, um corpo
disponível para garantir a normalidade.
Franz Kafka nasceu em Praga, Tchéquia em 1883 e faleceu em Kierling, Klosterneuburg, Áustria. Foi um escritor de língua alemã.


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