O CONTO DA AIA
MARGARET ATWOOD
ROCCO – 1ª ED. 2017
O Conto da Aia
não é uma distopia sobre um futuro distante, tecnológico ou improvável. Ao
contrário: é uma narrativa construída a partir de fragmentos muito
reconhecíveis da história — patriarcado, fundamentalismo religioso, controle
dos corpos das mulheres, autoritarismo político. Atwood não inventa nada que já
não tenha existido. Apenas reorganiza.
A República de Gilead surge após
um golpe teocrático que dissolve a democracia e instaura um regime baseado numa
leitura literal e instrumental da Bíblia. Diante da queda drástica da
fertilidade, o corpo feminino torna-se o principal território de disputa
política. As mulheres férteis são transformadas em “aias”, reduzidas à função
reprodutiva, privadas de nome, história, desejo e linguagem própria. Offred —
“do Fred”, pertencente ao comandante — já não é sujeito: é posse.
A violência em Gilead não se dá
apenas pela força física, mas pela normalização. O horror não é gritado, é
ritualizado. A cerimônia do estupro, travestida de ato religioso, talvez seja
um dos momentos mais perturbadores do livro justamente por sua frieza, por sua
repetição mecânica, por sua tentativa de apagar o crime sob a aparência da
ordem. O patriarcado aqui não é caótico: ele é meticulosamente organizado.
Atwood é particularmente
incisiva ao mostrar como o regime só se sustenta porque conta com a
participação ativa de algumas mulheres. As Tias, responsáveis por disciplinar
as aias, encarnam a pedagogia da submissão. As Esposas, embora também
aprisionadas, exercem poder sobre aquelas que estão abaixo delas. O livro
desmonta qualquer fantasia de uma solidariedade feminina automática: em
sistemas autoritários, a hierarquia atravessa também o gênero.
A narração em primeira pessoa é
fragmentada, entrecortada por memórias do “antes”. Esse recurso revela algo
fundamental: a opressão não começa de repente. Ela se instala aos poucos,
enquanto direitos são retirados em nome da segurança, da moral, da tradição.
Offred lembra de quando as mulheres perderam o direito ao trabalho, à conta
bancária, à autonomia — e de como tudo parecia temporário, administrável,
reversível. Não era.
O corpo feminino, em O
Conto da Aia, deixa de ser experiência e torna-se função.
Menstruação, gravidez, parto — tudo é monitorado, regulado, apropriado pelo
Estado. A maternidade não é potência, é dever. A sexualidade não é desejo, é
instrumento. O silêncio não é escolha, é imposição. Atwood expõe, com clareza
cruel, como o controle do corpo é sempre o primeiro passo para o controle da
subjetividade.
Mais do que uma distopia, o
romance funciona como advertência. Ele pergunta o tempo todo: até
onde estamos dispostas a ir para manter uma aparência de normalidade?
O que aceitamos perder antes de perceber que já não temos nada? E quem paga
primeiro esse preço?
O Conto da Aia
permanece atual porque dialoga com retrocessos reais: ataques aos direitos
reprodutivos, alianças entre religião e política, discursos morais que
legitimam a violência contra mulheres em nome da ordem. Ler Atwood hoje não é
exercício de imaginação — é exercício de vigilância.
No fim, a narrativa de Offred
não é apenas um testemunho de opressão, mas um gesto de resistência. Contar a
própria história, mesmo fragmentada, mesmo em segredo, é recusar o apagamento
total. Onde o poder quer silêncio, a memória insiste. E onde o regime quer
corpos dóceis, a palavra ainda é risco.
Margaret Atwood nasceu em Ottawa, Canadá, em 1939. É uma escritora canadense, romancista, poetisa, contista, ensaísta e crítica literária.

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