quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A HISTÓRIA QUE ESQUECERAM DE CONTAR


 

A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA DAS MULHERES

Durante séculos, o que chamamos de “História” foi escrito a partir de um olhar parcial: masculino, eurocêntrico e frequentemente elitista. O passado, tal como o conhecemos, é uma narrativa construída — e, como toda narrativa, carrega escolhas: o que foi lembrado e o que foi esquecido; quem pôde falar e quem foi silenciado.

O silenciamento do saber feminino, assim como de outras vozes ditas “subalternas” — povos originários, povos negros, os chamados “orientais” no Ocidente — é resultado da patriarcalização e da misoginia, do racismo e de interesses que privilegiaram apenas uma parcela da humanidade. Esse talvez seja o maior crime já cometido contra o conhecimento e contra a intelectualidade: jamais saberemos o que o mundo perdeu diante desse apagamento. Resta-nos agora recuperar a história das mulheres e de todos aqueles que foram silenciados.

No entanto, não basta recuperar nomes ou inserir mulheres numa narrativa previamente construída. Não é suficiente “adicioná-las” à História. É preciso interrogar as bases epistemológicas sobre as quais essa História foi produzida. O que foi considerado digno de ser registrado? Que critérios definiram o que seria “universal”? E quem ficou fora dessa universalidade?

A historiografia das mulheres nasce desse gesto de insubmissão. É o movimento que decide olhar novamente os arquivos, as ruínas e os mitos — não para idealizar o feminino, mas para restituir presença. Trata-se de buscar não apenas as mulheres que atuaram publicamente, mas também aquelas cuja existência foi diluída nas margens: mães, camponesas, sacerdotisas, curandeiras, filósofas esquecidas, anônimas que sustentaram a vida cotidiana e, por isso mesmo, foram apagadas da memória oficial.

Há todo um saber silenciado que começa, lentamente, a nos ser restituído. Pensar a historiografia das mulheres é pensar outra forma de compreender o mundo — uma forma que não apenas descreve o que houve, mas também revela o que foi ocultado; que interroga a própria ideia de poder e de conhecimento.

Anos atrás percebi que aprendi a pensar através dos homens. A literatura, a história, a sociologia, a antropologia, a psicanálise, a filosofia — tudo era predominantemente masculino. A produção filosófica feminina só ganha visibilidade em meados do século XX. Ainda hoje há professores que afirmam não ter existido mulheres filósofas na Antiguidade, ocultando pensadoras que de fato existiram e influenciaram figuras como Platão, Sócrates e talvez até Aristóteles, tão frequentemente apontado como misógino.

Infelizmente, grande parte da produção dessas filósofas desapareceu. Ainda assim, é possível recuperá-las, ao menos em parte. Podemos examinar o que os homens disseram sobre elas; há fragmentos, referências, ecos. A primeira escritora conhecida da humanidade é Enheduana — não há textos escritos anteriores aos seus, pelo menos nada que tenha sobrevivido. Felizmente, seus hinos nos chegaram. Ana Comnena, por sua vez, foi uma historiadora bizantina que escreveu a Alexíada, um relato épico sobre a história política e militar de seu tempo.

A pergunta que me faço é: por que ninguém fala delas? Por que estudamos Homero e não Enheduana? Por que a Alexíada não integra os currículos acadêmicos? Seria porque foram escritas por mulheres — e, portanto, precisaríamos silenciá-las, esquecê-las?

Foi somente em meados do século XX que mulheres começaram a revisar tudo o que havia sido produzido pelos homens e iniciaram a busca pelas mulheres na história. É importante lembrar que, até os anos 1970, praticamente não havia mulheres na historiografia, com exceção de figuras excepcionais ou rainhas que exerceram poder.

A história das mulheres inicia-se na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos na década de 1960, chegando à França cerca de dez anos depois. Os anos 1970 marcam, portanto, o início de um duplo movimento: o da libertação das mulheres e o da inclusão das mulheres nas universidades. Esse contexto permitiu não apenas o estudo e a recuperação da memória feminina, mas também o surgimento de uma nova epistemologia, voltada à crítica dos saberes constituídos e à reformulação dos próprios fundamentos do conhecimento histórico.

Christiane Depooter 

Janeiro 2025

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