A IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA DAS MULHERES
Durante séculos, o que chamamos
de “História” foi escrito a partir de um olhar parcial: masculino, eurocêntrico
e frequentemente elitista. O passado, tal como o conhecemos, é uma narrativa
construída — e, como toda narrativa, carrega escolhas: o que foi lembrado e o
que foi esquecido; quem pôde falar e quem foi silenciado.
O silenciamento do saber
feminino, assim como de outras vozes ditas “subalternas” — povos originários,
povos negros, os chamados “orientais” no Ocidente — é resultado da
patriarcalização e da misoginia, do racismo e de interesses que privilegiaram
apenas uma parcela da humanidade. Esse talvez seja o maior crime já cometido
contra o conhecimento e contra a intelectualidade: jamais saberemos o que o
mundo perdeu diante desse apagamento. Resta-nos agora recuperar a história das
mulheres e de todos aqueles que foram silenciados.
No entanto, não basta recuperar
nomes ou inserir mulheres numa narrativa previamente construída. Não é
suficiente “adicioná-las” à História. É preciso interrogar as bases
epistemológicas sobre as quais essa História foi produzida. O que foi
considerado digno de ser registrado? Que critérios definiram o que seria
“universal”? E quem ficou fora dessa universalidade?
A historiografia das mulheres
nasce desse gesto de insubmissão. É o movimento que decide olhar novamente os
arquivos, as ruínas e os mitos — não para idealizar o feminino, mas para
restituir presença. Trata-se de buscar não apenas as mulheres que atuaram
publicamente, mas também aquelas cuja existência foi diluída nas margens: mães,
camponesas, sacerdotisas, curandeiras, filósofas esquecidas, anônimas que
sustentaram a vida cotidiana e, por isso mesmo, foram apagadas da memória
oficial.
Há todo um saber silenciado que
começa, lentamente, a nos ser restituído. Pensar a historiografia das mulheres
é pensar outra forma de compreender o mundo — uma forma que não apenas descreve
o que houve, mas também revela o que foi ocultado; que interroga a própria
ideia de poder e de conhecimento.
Anos atrás percebi que aprendi a
pensar através dos homens. A literatura, a história, a sociologia, a
antropologia, a psicanálise, a filosofia — tudo era predominantemente
masculino. A produção filosófica feminina só ganha visibilidade em meados do
século XX. Ainda hoje há professores que afirmam não ter existido mulheres
filósofas na Antiguidade, ocultando pensadoras que de fato existiram e
influenciaram figuras como Platão, Sócrates e talvez até Aristóteles, tão
frequentemente apontado como misógino.
Infelizmente, grande parte da
produção dessas filósofas desapareceu. Ainda assim, é possível recuperá-las, ao
menos em parte. Podemos examinar o que os homens disseram sobre elas; há
fragmentos, referências, ecos. A primeira escritora conhecida da humanidade é
Enheduana — não há textos escritos anteriores aos seus, pelo menos nada que
tenha sobrevivido. Felizmente, seus hinos nos chegaram. Ana Comnena, por sua
vez, foi uma historiadora bizantina que escreveu a Alexíada,
um relato épico sobre a história política e militar de seu tempo.
A pergunta que me faço é: por
que ninguém fala delas? Por que estudamos Homero e não Enheduana? Por que a Alexíada
não integra os currículos acadêmicos? Seria porque foram escritas por mulheres
— e, portanto, precisaríamos silenciá-las, esquecê-las?
Foi somente em meados do século
XX que mulheres começaram a revisar tudo o que havia sido produzido pelos
homens e iniciaram a busca pelas mulheres na história. É importante lembrar
que, até os anos 1970, praticamente não havia mulheres na historiografia, com
exceção de figuras excepcionais ou rainhas que exerceram poder.
A história das mulheres
inicia-se na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos na década de 1960, chegando à
França cerca de dez anos depois. Os anos 1970 marcam, portanto, o início de um
duplo movimento: o da libertação das mulheres e o da inclusão das mulheres nas
universidades. Esse contexto permitiu não apenas o estudo e a recuperação da
memória feminina, mas também o surgimento de uma nova epistemologia, voltada à
crítica dos saberes constituídos e à reformulação dos próprios fundamentos do
conhecimento histórico.
Christiane Depooter
Janeiro 2025

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