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terça-feira, 11 de agosto de 2026

LIVRO: A MULHER COM OLHOS DE FOGO: O DESPERTAR FEMINISTA

 

A MULHER COM OLHOS DE FOGO: O DESPERTAR FEMINISTA

NAWAL EL SAADAWI

FARO EDITORIAL – 1ª ED. – 2023

160 páginas

 

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – EGITO 

Este livro é impactante, principalmente por se tratar de uma ficção construída em cima a partir de uma história real. Nawal El Saadawi realmente entrevistou uma mulher na prisão, condenada à morte, e escreveu “A mulher com olhos de Fogo”.

Vou iniciar com uma pequena ressalva ao título em português, que traz “O despertar feminista” como subtítulo. Muitos podem pensar que se trata de um livro que aborda uma mulher que desperta diante de um mundo absolutamente patriarcal e, a partir disso, muda sua vida. Eu diria que, na verdade, ela tem uma conscientização feminista. No entanto, isso não irá mudar sua vida, mas a levará a enfrentar uma verdade que acaba por condená-la à morte.

Logo no início, Firdaus diz: “não tenho tempo para ouvir você”. Ela quer contar sua própria história, da qual finalmente se apropriou; É através de sua história que acompanhamos a formação de uma consciência feminista.

É notório o quanto os olhos dos outros são vitais para Firdaus. Em vários momentos do livro, ela irá se referir aos olhos do outro. Sim, é pelo olhar do outro que nos constituímos, a psicanálise o explica. E, em uma sociedade patriarcal e machista, esse olhar objetifica o corpo da mulher. É através dessa objetificação que a mulher se constitui.

Nawal El Saadawi escreveu o livro em 1975. É importante levar isso em consideração. Sabemos que foi exatamente nos anos 70 que os estudos das mulheres ganharam força, o que não quer dizer que antes não houvesse estudos sobre o tema. Mas o caminho percorrido de lá para cá já trouxe muitas mudanças.

Outro ponto que é importante levar em consideração é que, por mais que a sociedade egípcia de 1975 fosse machista e patriarcal, e ainda o é, não se pode generalizar as condições relatadas por Firdaus para todas as mulheres egípcias. Isso só reforçaria a visão Ocidental de que as mulheres do chamado Oriente precisam ser salvas. A própria autora é um exemplo de que essa não é uma situação que se aplica a todas. No entanto, sim, muitas mulheres enfrentaram e ainda enfrentam situações como as narradas por Firdaus.

Não tenho conhecimento suficiente sobre a situação atual das mulheres no Egito para fazer uma comparação com o que é relatado no livro. Minha leitura se limita à obra, ao seu contexto de produção e à experiência de Firdaus, narrada por Nawal El Saadawi.

O simples fato de nascer menina, o que não é uma escolha, já define o destino de Firdaus naquela sociedade. A menina não é valorizada como um menino, e ela percebe isso. Todas as violências sofridas, na família, a mutilação genital, o abuso pelo tio, o casamento forçado, até chegar à prostituição. Ter cursado a escola e obter um diploma de nada lhe serviu.

Não existe apenas um vilão. Praticamente todos os homens que cruzaram o caminho de Firdaus foram violentos ou, então, pagavam para usufruir de seu corpo. Em um único momento, em que ela parece ter encontrado um homem bom, se apaixonado e encontrado uma luz para si, sofrerá a desilusão ao descobrir que ele se casará com outra. Sabemos o porquê: ela dormia com ele sem ser casada, lhe contou sua vida e, portanto, não era uma mulher considerada adequada para ser esposa de alguém.

Nem mesmo as mulheres são generosas com ela. Seguem as normas sociais, e a esposa do tio é quem a casa com um velho que irá espancá-la e controlar o que ela come. Uma prostituta a ampara, dá-lhe um lugar para morar e boa comida, mas se aproveita do corpo dela, vendendo-o. Isso demonstra como as mulheres internalizam normas patriarcais e também as reproduzem.

Quando ela consegue um emprego, o salário é muito baixo, e isso também é um reflexo da sociedade e do sistema econômico. Portanto, não vale dizer que ela poderia ter seguido por outro caminho e alcançado uma autonomia financeira pelo trabalho.

Quando ela retorna à prostituição que, segundo sua experiência, é a única forma de ter uma certa autonomia e independência financeira, surge o cafetão.

Para ela, ser prostituta é o destino de todas as mulheres, inclusive das esposas. Eu não concordo com essa visão, apesar de ser um dos pontos que as feministas apontam. Naqueles anos 70, eu até compreendo, pois conheci muitas mulheres que consideravam o sexo uma obrigação do casamento. Mas muita coisa mudou depois, e a mulher pode ter desejo sexual e sentir prazer em suas relações sem, com isso, ser uma prostituta.

Firdaus vê o véu cair de seus olhos e enxerga uma realidade que a leva a odiar todos os homens. Ela enxerga a insegurança deles, o desejo do poder, do status e do dinheiro que lhes dá segurança. E tem consciência de que isso apavora os homens, eles têm medo dela. E é isso que a condena.

Ela não escapa do sistema. Ela prefere morrer a se submeter ao sistema.

“Eu me dei conta de que todos esses governantes eram homens. O que eles tinham em comum era uma personalidade gananciosa e distorcida, um apetite insaciável por dinheiro, sexo e poder sem limites.” (pág. 52)

“Em certa ocasião ele me deu uma grande surra com seu sapato. Meu rosto e meu corpo ficaram inchados e cheios de contusões. Então eu fui embora de casa e procurei o meu tio. Mas o meu tio me disse que todos os maridos batiam nas suas mulheres, e a esposa do meu tio ainda comentou que ela mesma apanhava do marido com frequência.” (pág. 75)

“Eu tomei consciência do fato de que odiava os homens, mas por longos anos mantive esse segredo cuidadosamente escondido. Os homens que eu mais odiava eram aqueles que tentavam me dar conselhos, ou diziam que queriam me resgatar da vida que eu levava. Eu costumava odiá-los mais do que aos outros porque eles pensavam que eram melhores que eu, e que podiam me ajudar a mudar de vida. Eles se enxergavam como algum tipo de heróis magnânimos – um papel que não fizeram nenhuma questão de desempenhar em outras circunstâncias. Queriam se sentir nobres e superiores lembrando-me do fato de que eu estava em situação de inferioridade. Eles diziam a si mesmos: ‘Vejam só que pessoa maravilhosa eu sou. Estou tentando tirar essa puta da lama antes que seja tarde demais’. (pág. 135)


Nawal El Saadawi nasceu em Kafr Tahlah, Egito, em 1931 e faleceu no Cairo, Egito, em 2021. Foi uma escritora, médica, psiquiatra e feminista egípcia.