A BIBLIOTECA DO CENSOR DE LIVROS
BOTHAYNA EL-ESSA
INSTANTE – 1ª ED. – 2025
224 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – KUWAIT
Este é um livro que trata da
censura de livros. O ponto que mais chama a atenção é que censurar livros não
significa apenas uma censura política ou ideológica, como ocorreu com livros
marxistas ou considerados comunistas no Ocidente, nem somente por uma questão
moralista ou sexual.
Bothayana El-Essa nos mostra uma
censura que inclui esses aspectos, mas vai além, inclui livros que possam levar
pessoas a imaginar ou interpretar. A linguagem tem que ser superficial. E aí
entramos em outro campo que vem me preocupando atualmente: uma certa “censura”
que opera de uma forma totalmente imperceptível para a grande maioria das
pessoas: o mercado.
É interessante ver que a autora
lista uma série de livros que são os autorizados: autoajuda, religiosos
aprovados pelo conselho religioso, romances simples, os de pensamento positivo,
os que promovem a meritocracia, os que focam em uma literatura do eu, incluindo
aí o individualismo e a vitimização, e os de superação individual. Então é só
pensar nas vitrines ou sites de livrarias atuais.
O mercado controla o que vai ser
traduzido e divulgado. O algoritmo controla o que aparece nas pesquisas do Google
ou da IA, e então temos os youtubers e influencers divulgadores de livros, que
se atém justamente a esses livros. Isso reduz enormemente o leque de livros ou
autores aos quais chegamos para ler.
Sim, há muitas editoras menores
fazendo um trabalho sensacional e trazendo outros autores de lugares diferentes,
fora do eixo eurocêntrico ou estadunidense, mas que não possuem a mesma
abrangência de divulgação e, o pior, não despertam o interesse da grande
maioria.
Atualmente, os leitores são
conduzidos por rankings - os mais vendidos, a lista dos melhores, os que você
tem que ler antes de morrer etc.-, algoritmos e influenciadores. Não é uma
censura explicita, mas não deixa de ser um cerceamento. Também estamos vendo
algo que não é novo em absoluto, mas muito pelo contrário, que é a retirada e
censura de livros em escolas e bibliotecas públicas. E a questão atual não é
mais apenas o que um governo determina, mas algo aleatório: um prefeito de uma
cidade decide censurar, um vereador ou um deputado, e em função de sua própria
ideologia religião. Ou seja, em cidades vizinhas há livros que foram proibidos
em uma delas e, na outra, não.
“A biblioteca do censor de Livros” traz
tabelas das normas de censura e o manual da leitura correta para o censor de
livros, que são extremamente interessantes, além dos motivos da censura e
várias ilustrações no decorrer do livro.
Há um momento em que o Novo
Censor vai ao escritório do chefe do departamento e se depara com uma
biblioteca imensa, repleta dos livros proibidos. Isso não é nada que impacte, em
todos os governos que censuravam livros, os que estavam no alto escalão
possuíam os livros e os liam. Mas aqui o que chama a atenção é que o chefe
chama esta biblioteca de cemitério de livros. E o que isso significa? Que são
livros mortos, não é uma biblioteca viva que circula, de livros que são lidos.
O primeiro livro que o Novo
Censor lê e que mexe com ele é “Zorba, o Grego”. A partir da leitura desse
livro, tudo muda para o censor, que começa a interpretar e imaginar, o que é
totalmente proibido na Nova República que se instaurou com a vitória do
Movimento Popular do Realismo Positivista e a queda da democracia.
O sistema se preocupava
principalmente com a imaginação das crianças. Havia cartazes espalhados por
todos os locais e uma campanha para conscientizar: “Seu filho sofre de
imaginação? Não hesite em pedir ajuda. Não permita que sofra. Você não está
sozinho. Conte Conosco.” O Censor tinha uma filha com os sintomas da
imaginação, e seu maior medo era que ela fosse enviada para um centro de
reabilitação, de onde raramente uma criança retornava para sua família.
Havia um núcleo de resistência
que tentava salvar os livros da fogueira, que ocorria uma vez por ano, no dia do
Eid da Purificação, uma data em que se permitia lembrar o Velho Mundo com
festas, danças, fantasias, o que nos lembra muito nosso Carnaval, mas em que também
se queimavam os livros que foram proibidos. Os membros da resistência eram
chamados de “câncer” porque corroíam o sistema por dentro.
E havia milhares de coelhos em
todos os lugares. É interessante pensar nos coelhos. O primeiro pensamento nos
leva para o coelho de “Alice no país das maravilhas”, mas aqui são milhares.
Coelhos se reproduzem sem parar, e isso revela que aquilo que o sistema tenta
eliminar volta incessantemente.
O final do livro surpreende: “a
imaginação é real, a realidade é imaginária” é a conclusão do Censor. E é então
que ele percebe algo, e que não vou revelar aqui, para deixar o prazer da
descoberta a quem ler o livro.
Bothayna El-Essa nasceu no Kuwait em 1982. É uma romancista.

