DETALHE MENOR
TODAVIA – 1ª ED. – 2021
112 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – PALESTINA
1949, um ano após a Nakba, um
batalhão do exército de Israel monta acampamento no deserto de Neguev, próximo
à fronteira com o Egito. Sua missão: encontrar árabes que ainda permaneciam na
região.
Logo na primeira noite, o
comandante é mordido por uma aranha, mas ele apenas trata a picada e continua
suas rondas em busca dos árabes até que encontra um acampamento de beduínos. Os
soldados matam todos, inclusive os camelos, mas uma menina e um cachorro
sobrevivem e são levados para o acampamento, onde a menina é trancafiada em uma
cabana. O comandante ordena que ninguém toque nela.
No entanto, o que se sucede é o
contrário. A menina é estuprada e depois morta com sete tiros, sendo enterrada
no deserto. O cachorro sobrevive e, depois de quase ser morto pelo comandante, foge
uivando.
Esta é a primeira parte do livro,
que é curto, mas extremamente impactante, doloroso e dilacerante. A escrita da
autora é seca e repetitiva. Um bando de homens, soldados de Israel, que agem de
modo automático. O comandante é retratado repetindo os mesmos movimentos dia
após dia.
Fico com uma impressão de que o
cachorro tem um papel fundamental na escrita da autora. O cão é simbólico; ele demonstra
mais “humanidade” do que os soldados na narrativa. Além disso, por não ter sido
morto, parece possuir um valor maior que a menina, uma vez que nenhum dos dois
representava perigo imediato aos soldados ou ao comandante.
O cachorro é um detalhe nesta parte da
história, mas que a meu ver, representa muito mais do que o restante. Tanto é
que a segunda parte, que se passa 25 anos depois, inicia com um cachorro
uivando ao longe.
Uma palestina que vive na
Palestina Ocupada, em Ramallah, lê um artigo em um jornal sobre o que aconteceu,
e um “detalhe menor” chama sua atenção: a menina foi morta no dia de seu
nascimento, 13 de agosto.
A notícia tece em volta dela,
como uma aranha, uma teia que a prende e a faz desejar saber mais sobre o que
aconteceu. Essa jovem traz em si mesma os efeitos traumáticos da ocupação: o
medo, o estresse e a desorientação. Ao
mesmo tempo, porém, ela procura não se entregar e enfrentar todas as
barreiras, sejam as psicológicas, sejam as reais, que precisa atravessar para
passar de uma zona a outra controlada pelos israelenses e chegar ao local onde
ocorreu o assassinato da menina beduína.
Ela persiste em sua busca. Deseja
descobrir o outro lado da história, não apenas a narrada pelos soldados. No
caminho, enquanto aguardava na fila para passar pela primeira barreira, uma
menina que vende chicletes insiste muito para que ela compre. Ela não quer, mas
acaba lhe dando dinheiro. A menina então joga duas caixas de chiclete no banco
do carro e vai embora. Um pequeno detalhe. Um detalhe menor que irá definir o
destino da jovem palestina em sua busca.
Adania Shibli constrói a
narrativa de Detalhe Menor com uma escrita econômica, quase austera, mas
de uma potência impressionante. Não há excesso, não há sentimentalismo, mas há
uma violência que atravessa todas as páginas. Ao final, nos perguntamos quem
tem o direito de ser lembrado e quem pode ser transformado em um simples
detalhe menor.
O que me impressionou no romance
não é apenas o que ele conta, mas como ele conta. A repetição obsessiva dos
gestos do comandante, a ausência quase total de psicologização das personagens
na primeira parte, a maneira como o espaço do deserto parece absorver tudo: a
água, o sangue. A estrutura em espelho das duas partes, a recorrência da aranha,
do cachorro, dos sons.
A autora não explica o horror;
ela o faz operar na própria forma do texto. Quanto menos ela comenta, mais
sentimos. O horror está na normalidade dos procedimentos. São os detalhes,
elementos aparentemente insignificantes que estruturam toda a narrativa.
Um exemplo é o camelo morto com
capim na boca. O animal estava simplesmente comendo. A vida cotidiana é
interrompida de forma abrupta e absurda. Através dessa imagem a autora comunica
mais do que muitas páginas de descrição sangrenta.
O mesmo ocorre com o estupro da
menina. Sabemos o que aconteceu, mas Shibli não transforma a menina em espetáculo,
não vamos consumir a cena. Isso é muito diferente de outras literaturas sobre
violência, onde se transforma o sofrimento em objeto de observação.
Da mesma forma a reação
automática dos soldados. O comandante que vivia repetindo gestos mecânicos, os
soldados que obedeciam mecanicamente, a violência incorporada na rotina. No
final, décadas depois, a resposta continua automática. Não há reflexão, não há reconhecimento
da pessoa diante deles. Há apenas o reflexo condicionado de uma máquina que
continuar funcionando.
Adania Shibli nasceu na Palestina
em 1974. É uma escritora palestina que deveria ter recebido o prêmio alemão
Litprom na feira de Frankfurt, no entanto a premiação foi cancelada quando o
diretor da premiação associou o evento ao “terror bárbaro do Hamas contra
Israel”, conforme reportagem que consta no Le Diplomatique, o que gerou
forte reação de escritores, editoras e organizações literárias que viram na
decisão uma forma de silenciamento de uma voz palestina.
O livro Detalhe Menor, escrito
originalmente em árabe, foi traduzido para mais de onze idiomas. Shibli domina vários idiomas, mas escrever em árabe, sua
língua materna, também é uma forma de resistência.


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