A INSUBMISSA
CRISTINA PERI ROSSI
BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2025
208 páginas
PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – URUGUAI
Rossi inicia relatando sua
infância, seu amor incondicional pela mãe e o ódio nutrido pelo pai, mais fruto
do que dizia sua mãe – “você é igual ao seu pai”, do que pela violência e poder
que ele exercia sobre a família. Essa frase dita pela mãe afetava a menininha
que queria “se casar com a mãe”, uma vez que conhecia o desprezo da mãe pelo marido.
Ela contraiu tuberculose quando
pequena e foi para o campo, para a casa dos tios-avôs. A liberdade, o espaço
vasto, os animais e os avós que a protegiam e compreendiam marcaram Rossi. De
minha parte, chamou-me a atenção a presença britânica no Uruguai, o que me
levou a pesquisar e descobrir que, após a Guerra da Cisplatina, os britânicos
transformaram o país em uma espécie de “colônia informal”.
A história familiar é cercada de
mistérios e silêncios. Rossi levará anos para saber o que aconteceu com seus
bisavôs e avós. A história de sua bisavó, extremamente apaixonada pelo marido a
ponto de ignorar completamente o lugar onde vivia, e com isso não se preocupar em
aprender o idioma ou fazer amizades. Que diante da inevitável morte do amado
ainda jovem, a levou ao suicídio, é a razão do silêncio dos filhos que não a
perdoaram pelo abandono deles ainda crianças. Anos depois, Rossi irá se ver em
uma situação semelhante em Barcelona, na Espanha, quando estava no exílio, o
que a levará a compreender melhor os sentimentos de sua bisavó.
Há um relato sobre um quadro que
está na sala de visitas da casa da família que me chamou a atenção. Primeiro, Rossi
descreve a cena que está no quadro para, em seguida, refletir sobre ela. São
homens elegantemente vestidos em um bosque e, entre eles, sentada de lado no
chão, uma mulher completamente nua. Suponho tratar-se do quadro “Le déjeuner
sur l’herbe” (Almoço sobre a relva), de Édouard Manet. Rossi percebe que os homens,
brancos e ricos, estão vestidos com requinte (de fraque), enquanto a mulher
provavelmente pobre, pode ser despida. Ou seja, é uma objetificação da mulher e
uma percepção das diferenças sociais e econômicas.
Rossi constrói uma autobiografia
de formação, relatando não apenas eventos de sua infância e adolescência, mas também
os efeitos que eles terão posteriormente em sua vida adulta. Em outros
momentos, revela descobertas feitas muitos anos depois, quando compreendeu a
própria ignorância infantil diante de determinados acontecimentos. É explicito
sua rebeldia a determinados costumes e tradições, sobretudo aqueles impostos às
meninas.
Fico sempre com uma impressão um tanto
ambígua diante de relatos autobiográficos de infância. Senti isso ao ler Simone
de Beauvoir em “Memórias de uma Moça Bem Comportada”. Muitas vezes encontramos
crianças formulando pensamentos e análises que parecem sofisticados demais para
a idade. A sensação que tenho é que é a adulta que está falando pela criança.
Que uma criança se revolte contra proibições impostas às meninas, é
perfeitamente plausível; o que me parece mais difícil é que ela seja capaz de analisa-las
da forma como aparecem no relato. Acredito que, em muitos casos, é a mulher
adulta interpretando retrospectivamente a criança que foi. Rossi, porém, evita
isso na medida do possível. Frequentemente deixa claro que, à época, não
compreendia o que estava acontecendo, preservando as dúvidas e perplexidades
próprias da infância diante do comportamento dos adultos.
Uma das partes do livro, que
considerei uma das mais belas é a aquela quando ela descobre a paixão e o amor.
Ela não entende o que lhe acontece; apenas sente. Ansiedade, expectativa, medo,
necessidade da pessoa amada, ausência, desejo. Tudo surge antes da compreensão.
O desejo move grande parte da
escrita de Rossi. Em outro momento, ela descobre sua sexualidade e também a
existência da homossexualidade, que na época, e ainda hoje, para muitas
pessoas, era condenado, considerado algo “anormal”. “Somos monstros”, lhe diz
uma amiga que compartilha da mesma orientação sexual. É um pecado e mortal, e precisam mudar, se
corrigir. Rossi, porém, recusará essa lógica.
Ela tentou ler Freud na coleção
de obras completas que seu tio possuía e confessa não ter entendido nada. Ainda
assim, a presença da psicanálise é perceptível em seu relato. Logo no início do livro, Rossi descreve seu
amor pela mãe, seu objeto de desejo infantil, e a hostilidade dirigida ao pai. Uma
leitura freudiana poderia identificar aí elementos do complexo de Édipo. Ela mudará
de objeto, mas não redirecionará seu desejo ao outro sexo.
Seus relatos deixam claro que
Rossi foi, desde pequena, um espírito livre, insubordinado às regras sociais e
aos costumes que, segundo ela, funcionavam como mecanismos de coerção,
restringindo a liberdade de escolha, de amar, de experimentar e de viver de acordo
com os próprios desejos.
O que admirei em Rossi é sua capacidade de preservar na escrita o universo infantil, sem permitir que sua consciência adulta dominasse a narrativa. É uma criança e não um “adulto em miniatura” que vemos vivenciar suas experiências dentro de sua perspectiva infantil.
Um bom exemplo é quando na festa
de casamento de sua amiga Mabel ela dá uma rasteira no noivo. Ela sentiu ciúme
e medo de perder alguém amado e agiu impulsivamente e até com crueldade, o que
é típico na infância. Mas ela não analisa a situação, ela não possui ainda um
vocabulário psicológico para explicar o que sentiu. Ela simplesmente estica a
perna e derruba o homem. Rossi preserva isso, e somente depois, já adulta pode
refletir sobre isso.
Percebemos o patriarcado e a
situação das mulheres em toda a narrativa, inclusive de um episódio de abuso
sexual que Rossi sofreu e que ao relatar à sua mãe recebe como resposta – “Esquece
isso e nunca comente com ninguém!”, no entanto, a questão da menina não é essa,
ela não elabora uma crítica do patriarcado, ela contesta as regras por lhe
parecerem absurdas e injustas.
Ela é insubmissa desde a infância, resiste, luta pelo que deseja, mas dentro do universo infantil. Somente anos depois, já adulta, ela pode fazer a crítica ao patriarcado e analisar suas consequências. Mais do que uma simples autobiografia, A Insubmissa mostra como essa recusa em aceitar os papéis impostos às mulheres não foi uma conquista tardia, mas uma disposição que atravessa toda a vida de Cristina Peri Rossi.
Cristina Peri Rossi nasceu em
Montevidéu, Uruguai, em 1941. É uma romancista, poetisa, tradutora e autora
uruguaia. Em 1972, quando o golpe de Estado iminente a forçou a deixar seu país por causa de seu ativismo político, exilou-se na cidade de Barcelona, Espanha, onde vive até hoje.


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