quarta-feira, 27 de maio de 2026

MULHERES SENEGALESAS ENTRE TRADIÇÃO E MODERNIDADE



UMA CARTA TÃO LONGA

MARIAMA BÂ

JANDAÍRA – 1ª ED. – 2023

160 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – SENEGAL 


Uma Carta tão longa, da escritora senegalesa Mariama Bâ, acompanha Ramatoulaye logo após a morte de seu marido, momento em que escreve uma longa carta à sua melhor amiga de infância, Aïssatou. Ao longo desta carta, na qual rememora sua vida e a de sua amiga, a autora discorre sobre os vários problemas enfrentados pelas mulheres senegalesas, os costumes e tradições, a religião e a poligamia.  

Se por um lado vemos Ramatoulaye se construindo em meio a tudo o que lhe acontece, muitas vezes decidindo conforme tradições e aquilo que aprendeu desde a infância, Aïssatou já surge como uma mulher diferente, que enfrenta o sistema e toma decisões em prol de si mesma, sem se preocupar tanto com a honra familiar e tradições senegalesas.

Ambas passaram pelo mesmo drama: maridos com os quais conviveram durante anos, construindo uma vida em comum, tendo filhos e partilhando tudo, decidem tomar uma segunda esposa, ou a “coesposa”, como são chamadas. No caso de Aïssatou, o casamento do marido foi resultado da vingança da sogra, que nunca aceitou a união do único filho homem com uma mulher de casta inferior. Durante anos ela planejou sua vingança até conseguir obrigá-lo a se casar com sua prima.

Aïssatou não aceitou a situação: pediu o divórcio, partiu com os filhos, estudou e foi morar nos Estados Unidos, conquistando estabilidade financeira. Já o marido de Ramatoylaye encantou-se por uma amiga de sua filha e fez de tudo para conquistá-la. A jovem o chamava de velho, mas acabou aceitando o casamento por imposição da mãe. Após isso, ele abandonou a primeira família.

Os filhos de Ramatoylaye revoltaram-se  e queriam que a mãe seguisse o exemplo de Aïssatou, porém ela escolheu permanecer onde estava, mantendo-se como primeira-esposa. Com a morte do marido surgem novos pretendentes. O primeiro é o irmão mais velho dele, que deseja casar-se com ela como segunda esposa, o que ela não aceitou. O segundo é o homem que se apaixonara por ela na juventude e que era o predileto de sua mãe; novamente ela não aceitou.

 Desde que Madou se casou com uma adolescente, Ramatoulaye passou a viver em solidão, tendo que lutar para manter os filhos. Ao mesmo tempo, relembra casos de outras mulheres que entraram em depressão, algo que ela própria tenta evitar. A amiga é sempre um suporte emocional para ela e exemplo, ainda que Ramatoulaye não siga exatamente o mesmo caminho.  

 O livro discute a situação feminina no Senegal. Quantas mulheres que são postas de lado após o segundo casamento do marido. Mas não apenas, é uma sociedade absolutamente patriarcal e muçulmana na qual a mulher tem pouco valor e é sempre colocada em segundo plano. O debate sobre política que Ramatoylaye tem com seu antigo apaixonado, um médico e político, evidencia isso de maneira muito clara.

A definição que a autora faz da depressão é feita de forma sensível e precisa. Mariama Bâ também desenvolve uma bela reflexão sobre o amor e a amizade. Através de relatos íntimos a autora constrói uma crítica social, principalmente sobre a condição das mulheres senegalesas. 

 

Mariama Bâ nasceu em Dacar, Senegal, em 1929 e faleceu na mesma localidade em 1981. Foi uma pioneira escritora e feminista senegalesa


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