sábado, 23 de maio de 2026

A LITERATURA COMO ARQUIVO DA VIOLÊNCIA

 


UM TÚMULO PARA BÓRIS DAVIDOVITCH

DANILO KIS

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 1987

152 páginas

 

PAÍS – EX-IOGUSLÁVIA – ATUAL SÉRVIA


São contos interligados, mas o que realmente surpreende é a escrita de Danilo Kis. O autor transforma pequenas biografias oriundas de documentos em verdadeiras obras de arte da literatura. 

Para aqueles que não gostam de cenas de maus tratos a animais, o primeiro conto pode ser especialmente odioso. Ainda assim, ou pule-o ele ou enfrente-o, mas não abandone o livro, porque vale a pena continuar.

Os contos, construídos a partir dessas pequenas biografias, deixam muito claro o quanto, durante o stalinismo, ninguém estava seguro. O clima era de total desconfiança e traição, e tudo dependia do humor do “pai”, com seu sorriso sempre amigável nos retratos dispersos pelas instituições públicas, ocupando o lugar onde antes poderia haver um crucifixo ou a imagem (ícone) de uma santa ou de um santo.

Em um dia você está ali, cooperando e sendo bem visto; no seguinte, encontra-se na cadeia, sendo torturado ou enviado para um gulag. O mesmo acontece com os chamados presos políticos que, na prisão ou no gulag, têm seu destino selado pelo jogo de cartas entre os “chefes” dos criminosos.  

São, portanto, pequenas biografias romanceadas de algumas vítimas do terror stalinista, e Kis traça ainda um paralelo com a Inquisição, incluindo o capítulo “Cães e livros”. O autor cita Marco Aurélio, em Meditações: “Quem viu o presente viu tudo: o que ocorreu num passado recente e o que irá ocorrer no futuro.” Para Kis, trata-se de uma evolução cíclica dos tempos.

De fato, quando estudamos História, percebemos o quanto tudo parece sempre se repetir de alguma maneira: em outro tempo, em outro contexto, mas com o ser humano permanecendo, essencialmente, o mesmo.

Um livro duro, inquietante e profundamente atual. 

Kis Danilo nasceu em Subotica (antiga Ioguslávia), Sérvia, em 1935 e faleceu em Paris, França em 1989. 



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