UM TÚMULO PARA BÓRIS DAVIDOVITCH
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 1987
152 páginas
PAÍS – EX-IOGUSLÁVIA – ATUAL SÉRVIA
São contos interligados, mas o
que realmente surpreende é a escrita de Danilo Kis. O autor transforma pequenas
biografias oriundas de documentos em verdadeiras obras de arte da
literatura.
Para aqueles que não gostam de
cenas de maus tratos a animais, o primeiro conto pode ser especialmente odioso.
Ainda assim, ou pule-o ele ou enfrente-o, mas não abandone o livro, porque vale
a pena continuar.
Os contos, construídos a partir
dessas pequenas biografias, deixam muito claro o quanto, durante o stalinismo,
ninguém estava seguro. O clima era de total desconfiança e traição, e tudo
dependia do humor do “pai”, com seu sorriso sempre amigável nos retratos
dispersos pelas instituições públicas, ocupando o lugar onde antes poderia
haver um crucifixo ou a imagem (ícone) de uma santa ou de um santo.
Em um dia você está ali,
cooperando e sendo bem visto; no seguinte, encontra-se na cadeia, sendo
torturado ou enviado para um gulag. O mesmo acontece com os chamados presos
políticos que, na prisão ou no gulag, têm seu destino selado pelo jogo de
cartas entre os “chefes” dos criminosos.
São, portanto, pequenas biografias
romanceadas de algumas vítimas do terror stalinista, e Kis traça ainda um
paralelo com a Inquisição, incluindo o capítulo “Cães e livros”. O autor cita Marco
Aurélio, em Meditações: “Quem viu o presente viu tudo: o que ocorreu num
passado recente e o que irá ocorrer no futuro.” Para Kis, trata-se de uma
evolução cíclica dos tempos.
De fato, quando estudamos História,
percebemos o quanto tudo parece sempre se repetir de alguma maneira: em outro
tempo, em outro contexto, mas com o ser humano permanecendo, essencialmente, o
mesmo.
Um livro duro, inquietante e
profundamente atual.
Kis Danilo nasceu em Subotica (antiga Ioguslávia), Sérvia,
em 1935 e faleceu em Paris, França em 1989.


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