Os livros sempre fizeram parte de minha vida, meus pais liam muito e na minha casa sempre teve uma biblioteca. Leio pelo prazer de ler, mas também para estudos e o mais importante, para me refletir no outro e muitas vezes encontrar respostas para minhas dúvidas, medos, conflitos. E gosto muito de filmes, pelo mesmo motivo.
Este blog surgiu para compartilhar minhas leituras e filmes que assisti, mas sem me estender muito nem efetuar uma análise crítica.
Direção: John Curran - 2013 Duração: 112 min Baseado na biografia homônima de Robyn Davidson
Em 1995 Robyn Davidson (Mia Wasikowska) decide atravessar o deserto da Austrália por 2700 quilômetros partindo de Alice Springs. Para conseguir o dinheiro para a travessia ela aceita ser patrocinada pela National Geographic, mas para isto terá que ir acompanhada do fotógrafo Rick Smolan (Adam Driver) que irá documentar a viagem para a revista. Ela parte em 1997 com sua cachorra e mais quatro camelos em direção ao Oceano Índico.
Robyn é uma pessoa solitária que prefere mesmo se manter afastada e ao longo do filme vemos algumas lembranças de sua infância traumática com o suicídio da mãe, sua cachorra que teve que ser sacrificada por não terem onde deixá-la, a Tia que vai buscá-la para ficar com ela após a morte de sua mãe. Compreendemos que esta vida se arriscando, indo as vezes à exaustão nas caminhadas, passando por obstáculos, mas ao mesmo tempo podendo estar consigo mesma, em contato com a natureza é uma maneira de lidar com esta infância difícil.
As paisagens são belas, o deserto é sempre algo que me cativa.
Roby Davidson nasceu em 1950 em Miles, Austrália
Roby Davidson e sua cachorra e Mia Wasikowska com a cachorra do filme.
Capa da National Geographic
Roby Davidson e Rick Smolan
John Curran nasceu em 1960 em Utica, Nova Yorque, EUA.
Direção: Joel Coen e Ethan Coen - 2009 Duração: 105 min Título Original: A serious man Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen País: Estados Unidos
Excelente filme. Larry (Michael Stuhlberg) é um professor de física na Universidade e leva uma vida metódica até que sua esposa, Judith (Sari Lennick) resolve trocá-lo por Sy Ableman (Fred Melamed). Paralelamente ele sofre ameaças na Universidade por causa de notas de um aluno, seu irmão mora em sua casa e dorme no sofá, seu filho é problemático e rebelde e sua filha surrupia dinheiro em sua carteira para fazer uma cirurgia plástica. Sem saber o que fazer ele procura a ajuda de três rabinos. Parece Jó com tudo lhe caindo na cabeça, desmoronando, vai perdendo tudo e não faz nada.
Não sei se fico com raiva dele ou das pessoas que estão em sua volta. Ele não reage, fazem o que querem com ele. Por achar que não consegue ou não pode, ele não age e fica sem saber o que fazer. Os outros parecem tão seguros de si, parecem que sabem tudo e estão certos, mas são egocêntricos, devoradores, aproveitadores, e claro, temos a tampa e a caçarola. Por que os outros só agem assim porque ele o permite, não reage, deseja ser amado, ser correto, e acaba permitindo que os outros façam dele o que querem e assim alimentem também suas neuroses.
Estão sempre a lhe dizer: não aja como criança, seja adulto. Mas quem será que é infantil no filme? serão tão adultos assim? E lhe dizem: desta vez você foi adulto. E ele acaba repetindo o que os outros lhe falam.
Um filme que recomendo, pois quantas vezes nos vemos enrodilhados em tramas assim? Desejando ser aceitos e amados acabamos fazendo o que não desejamos, ou não fazendo nada, se deixando levar e ainda se sentindo péssimo. E vem a pergunta: o que fiz para merecer isto? ou será que é: o que será que não fiz para merecer isto?
Os irmãos Coen. Ethan nasceu em 1957 e Joel em 1954.
Trilha sonora de Carter Burwell
Carter Burwell nasceu em 1954 em New York, EUA. É um compositor.
Direção: Arnaud Desplechin - 2013 Duração: 117 min Título original: Jimmy P. Psychothérapie d'un indien des planes. País: França Indicado no Festival de Cannes 2013 para longa-metragem Baseado em fatos reais e no Estudo de Georges Devereux - Realidades e Sonhos
Jimmy Piccard (Benecio del Toro) é um índio americano da etnia Blackfoot que lutou na Segunda Guerra Mundial na França. Ele sofre de dores de cabeça muito fortes, vertigens e perda de audição que inicialmente são atribuídas ao acidente que sofreu na Guerra quando teve uma fratura no cérebro. Sua irmã o leva para o melhor hospital sob os cuidados do exército, em Kansas, nos Estados Unidos.
Chegando lá ele passará por uma bateria de exames que nada revelarão de anormal em seu físico e por uma avaliação psicológica pensando nos traumas de guerra que levará o psicólogo a pensar numa esquizofrenia. Mas a equipe é competente, e não acreditam de imediato num diagnóstico de psicose. Chamam então um colega, o antropólogo Georges Devereux (Mathieu Amalric) que faz análise e espera poder ser também um psicanalista. Georges é divertido e de bem com a vida, viveu entre os índios, mas oculta que na verdade ele é húngaro e não francês como faz crer a todos.
Aos poucos vamos vendo a antropologia se unir à psicanálise e desvendar os traumas deste sujeito, mostrando inclusive que a psicanálise é aplicável aos índios desde que se possa compreender que eles tem outros costumes, parentesco, linguagem, rituais, o que não requer que o psicanalista seja um deles. Devereux irá trabalhar com as duas ciências e acabara percebendo que os traumas de Jimmy não são da guerra como todos acreditavam, mas sim de sua infância.
O filme demonstra bem como um trauma psíquico se reativa pelos traços e geralmente a causa, o fato que causou o trauma está oculto, e nem mesmo o paciente sabe qual é. O trauma se forma no momento em que se vê pela primeira vez o traço e não no momento do ocorrido. Nunca é o real, mas sim sua representação que causa o trauma. E será através dos sonhos de Jimmy que o recalcado surgirá.
O que será que Jimmy percebia ou via no momento que dava inicio em sequência às suas insuportáveis dores de cabeça? o que causou o acidente dele na guerra? Aos poucos as respostas vão surgindo e sua alma vai se curando.
Recomendo a todos que se interessam pela psicanálise e principalmente àqueles que como eu acreditam que a Antropologia e a psicanálise devem trabalhar juntas, não apenas por ser um índio neste caso, mas porque todos nós somos formados pela linguagem e pela cultura.
Também vale ressaltar que há os traumas de guerra, mas Jimmy não participou da guerra, quando ele chegou os alemães já haviam ido embora. Ele fez parte dos soldados que foram para ajudar a libertação e limpeza do terreno.
Georges Devereux nasceu em 1908 na Hungria e faleceu em 1985. Estudou no Instituto de Etnologia de Paris e fez estudos de campo na América do Norte, Melanésia, Nova Guiné e no Vietname. Nos Estados Unidos fez doutoramento em Filosofia e se especializou em Psicologia e Psicanálise onde lecionou por muitos anos. Retornou à França em 1963 onde dirigiu a Escola Prática de Altos Estudos à convite de Claude Lévi-Strauss. É considerado um dos fundadores da Etnopsiquiatria. Ele foi aluno de Marcel Mauss. Foi durante sua temporada entre os índios Mohave que Devereux aprendeu com eles a dar importância aos sonhos levando-o para a psicanálise.
Foi analisado por Marc Schlumberger e por Robert Jokl e completou sua formação analítica em 1952 na clínica Menninger, em Topeka, Kansas onde se passa o filme.
Arnaud Desplechin nasceu em 1960 em Roubaix, Nord de France, França.
Trilha sonora de Howard Shore
Howard Shore nasceu em 1946 em Toronto, Canadá. É um compositor e já compôs mais de 40 trilhas para filmes.
Direção: Isabel Coixet - 2005 Duração: 115 min Título original: La vida secreta de las palabras Roteiro: Isabel Coixet Produção: Pedro Almodóvar , Esther Garcia e Jaime Roures. País: Espanha
Ganhou quatro prêmios Goya - de melhor roteiro original, melhor diretor, melhor filme e melhor diretor de produção.
Um filme denso, fala sobre a culpa, causada por erros, pelo prazer, pela paixão.
Josef (Tim Robbins) - se apaixonou pela mulher de seu melhor amigo.
Hannah (Sarah Polley) - A guerra, a Universidade fecha e ela resolve voltar para casa com a filha apesar de todos avisarem do perigo. Na estrada ela vê a destruição, mas seguem em frente, cantam "La dolce vita". Foi um grande erro seguir em frente.
Ambos se encontram mais tarde, cada um com seu drama particular. Aos poucos eles falam, usam as palavras para tirar de si toda a carga destas culpas que carregam por escolhas que no momento pareciam as melhores e se mostraram errôneas, mas como saber? Ela conta sua história mas ainda não consegue falar como ela própria, conta como sendo a de um terceiro.
Vemos as consequências do trágico em suas vidas, no seu comportamento, nos medos, obsessões. Aos poucos um pequeno prazer é permitido, se aproximam para se afastarem novamente e se reencontrarem. A vida vence.
É receber do outro o que este não tem, o que nos falta, mas que mesmo não tendo podemos dar ao outro.
Um filme triste, porém belíssimo.
Veja o trailer:
Isabel Coixet nasceu em 1960 em Sant Adrià de Besòs, Espanha. Estudou História Contemporânea na Universidade de Barcelona.