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domingo, 28 de junho de 2026

LIVRO: MARINA: A VIDA POR UMA CAUSA


 

MARINA: A VIDA POR UMA CAUSA

MARILÍA DE CAMARGO CÉSAR

MUNDO CRISTÃO – 1ª ED. – 2010

256 páginas

Marina resistiu por muito tempo a que escrevessem sua biografia, mas, ao conhecer Marília Camargo ela cedeu e por isso temos essa biografia, um retrato fiel na medida do possível, sobre quem é Marina e sua vida.

A autora em momento algum romantiza a narrativa ou deixa de apontar algo que pudesse ser visto como negativo. Ao mesmo tempo realça todos os aspectos positivos desta mulher e sua luta pelo meio ambiente, a política, a mulher Marina.

Marina nasceu no interior do Acre e teve uma infância muito pobre, trabalhando nos seringais junto com sua família. Devido a uma doença precisou sair dali e ir para a cidade. A doença foi uma constante em sua vida, e chegou a ser desenganada pelos médicos que diziam que só um milagre a salvaria. Ela acreditou no milagre.

O que ela mais desejava era estudar e o conseguiu. Com os conhecimentos adquiridos através de sua formação educacional e sua vivência nos seringais, surge a ativista política, como forte vínculo com o movimento seringueiro e parceria com Chico Mendes.

O livro acompanha tanto sua trajetória política quanto sua atuação intelectual incluindo seu percurso na política como vereadora, deputada estadual, senadora e Ministra do meio Ambiente. Também lembra sua candidatura à presidência da República.

Vale a pena ler e conhecer esta mulher, que tem ideais e os respeita, o que frequentemente é simplificado no debate político brasileiro.


Marília de Camargo César nasceu em São Paulo em 1964. É jornalista e escritora. 


terça-feira, 9 de junho de 2026

LIVRO: NOITE É O DIA TODO

 


NOITE É O DIA TODO

PREETA SAMARASAN

ROCCO – 1ª ED. – 2010

400 páginas

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – MALÁSIA

Malásia, década de 1970. Uma poderosa família descendente de indianos. É partindo desse contexto que Samarasan irá apresentar a Malásia com todas suas contradições internas. Trata-se de um país formado por emigrantes, principalmente chineses e indianos. O livro aborda questões internas da sociedade malaia, onde, após o fim da colonização inglesa, os malaios desejam seu país para eles.

A autora retorna ao período colonial da família Rajasekharan para poder falar dos descendentes em torno dos quais o romance gira. O casamento de Raju com Vasanthi, uma mulher de classe social mais baixa, provocará ressentimentos e mágoas com a família, principalmente com a sogra Paati.

Ao abordar a revolta malaia de 1969, que ocorreu em Kuala Lumpur, capital da Malásia, a autora utiliza uma metáfora por meio de dois personagens, para explicar o que aconteceu – Boato e Fato.  

Gostei muito do uso dessas figuras para demonstrar como muitas vezes revoltas ocorrem movidas pelo que atualmente chamamos de fakes news. Nada mais fácil do que espalhar boatos e mentiras para inflamar uma população que já está arredia, com raiva, desconfiada, prestes a explodir. E, como fica claro no livro, de nada adiantam os Fatos diante dos Boatos, algo que continua extremamente atual.

Ao contrário do anunciado na sinopse do livro, há relativamente pouco sobre a história da Malásia. O romance permanece centrado na trajetória de uma família e suas questões. Ainda assim, esse microcosmo reflete os preconceitos raciais e de classe que existiam na sociedade malaia da época. Podemos conhecer um pouco da culinária e há o relato do desabamento das cavernas onde vivia a família de uma das empregadas da casa, que perdeu seu marido e filhos na tragédia, mas dois dias depois retorna ao trabalho por precisar dele. Esse episódio faz referência à tragédia de Gunung Cheroh, ocorrida em 1973.

A família é composta pelo casal e seus três filhos, pela avó Paati e por Balu apelidado de “Tio salão de baile”, irmão de Raju, desprezado pelo irmão por ser dançarino. A narrativa demora a se desenrolar, e apenas aos poucos começarmos a compreender o comportamento de cada personagem. Praticamente apenas na reta final do livro descobrimos o que levou cada um deles a agir da maneira como age.  

Já Vasanthi, me deixou com a sensação de um salto sem explicação. Da jovem explorada na casa do pai, que se encanta por Raju, ela se transforma, logo após o casamento, em uma pessoa fria e extremamente fútil. É possível compreender o ressentimento e a profunda mágoa que sente em relação à sogra e ao marido, assim como a sensação de não ser amada pelos filhos. O que me incomodou foi a brusquidão dessa transformação. Não foi exatamente um processo; pelo menos a autora não o demonstra.

A história dessa família é construída sobre mentiras, enganos, omissões e uma absoluta falta de diálogo. Quando algo ocorre, cada um deles formula sua própria interpretação, que geralmente não condiz com o que de fato ocorreu. E isso, porque nada é falado, tudo é omitido.

A filha caçula, Aasha, uma criança de apenas quatro anos, sofre de uma enorme carência afetiva. Sem atenção da mãe. do pai ou da avó, ela desenvolve uma verdadeira obsessão pela irmã mais velha, Uma. Inicialmente, Uma zela por ela, mas, devido a um acontecimento que só conheceremos ao final do livro, afasta-se da menina.  Esse abandono leva Aascha a cometer algumas crueldades com outros, mentindo descaradamente.

Um segredo que Balu carrega desde a infância o desestabiliza profundamente e o transforma em uma pessoa insegura. Mais tarde, ele será testemunha de outro momento difícil envolvendo Uma e seu pai, no entanto, ele se cala sobre ambos os acontecimentos.

Temos também Chellam, a empregada contratada para cuidar “exclusivamente” de Paati, que a partir de um certo dia, passa de uma mulher enérgica e atenta a uma velha encarquilhada, que só sabe reclamar e não consegue mais andar. Chellam é demitida logo no primeiro capítulo do livro, mas só muito depois iremos descobrir o que de fato ocorreu.

Chellan é quem nos traz o universo cosmológico da Malásia com seus espíritos e fantasmas que enriquece o imaginário de Aascha. A principal referência é Pontianak, um dos espíritos mais temidos pelos malaios.

Ao final da narrativa vemos Appa relatar com orgulho que sua filha foi para os Estados Unidos. Seguindo uma ideia muito presente na época – e que ainda persiste em certa medida -, ele acredita que a América é o lugar onde todos podem alcançar um “felizes para sempre”.

Quando alcançamos a metade do livro, começamos e compreender o que aconteceu com cada personagem e percebemos o quanto todos são incapazes de enxergar o outro, incapazes de se envolver, e recolhem-se aos seus próprios casulos. É uma solidão completa vivida em meio a várias pessoas.

 Confesso que tive dificuldades para continuar a leitura em determinados momentos. Não sentia vontade de pegar o livro e demorei um pouco para compreender a razão de minha resistência. Em muitos romances é comum o autor ou autora se utilizar de flashbacks ou alterne presente e passado. Neste livro, há uma intercalação tripla, ou seja, parte-se do presente, retorna-se ao passado e, surgem acontecimentos localizados entre esses dois momentos. O problema é que, a cada retomada, há uma repetição de informações já apresentadas, o que torna a leitura menos envolvente e além disso, a autora não se utiliza de iscas, não cria mistério, o que levaria o leitor a querer saber mais. O resultado é que a revelação chega muito tarde, o que pode fazer com que muitos abandonem o livro antes.

No entanto, ao chegar ao final, essa impressão muda. Não há como não pensar nas injustiças e crueldades cometidas em consequência do egoísmo de cada um, e na incapacidade de fazer uso de palavras e de dizer o que pensa e sente. Aasha, a caçula, sintetiza de forma particularmente dolorosa todas essas questões. Mas ela tem apenas quatro anos.



terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

TESTEMUNHAR A CATÁSTROFE

 

HAITI, DEPOIS DO INFERNO: MEMÓRIAS DE UM REPÓRTER NO MAIOR TERREMOTO DO SÉCULO

RODRIGO ALVAREZ

GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2010

120 páginas

Em Haiti, depois do inferno: memórias de um repórter no maior terremoto do século, o jornalista Rodrigo N. Alvarez constrói um relato marcado pela experiência direta do horror. O livro nasce do que foi visto, vivido e sentido durante o terremoto de 2010, que atingiu de forma devastadora o Haiti, especialmente a capital Porto Príncipe, deixando milhares de mortos, feridos e desabrigados, em um cenário de escassez extrema de água, comida e socorro imediato.

A narrativa é atravessada por imagens de destruição absoluta, mas também por uma dimensão humana intensa: corpos sob os escombros, pessoas vagando sem destino, o desespero coletivo e a sensação de abandono. Alvarez escreve como repórter, mas também como alguém afetado profundamente pela tragédia, o que confere ao texto uma força testemunhal que ultrapassa a simples descrição factual.

O livro, porém, não se limita ao acontecimento sísmico. O autor amplia o olhar ao contextualizar a catástrofe dentro da história do Haiti, marcada por séculos de exploração colonial, primeiro sob domínio francês e depois sob forte interferência dos Estados Unidos. Ao retomar esse passado, Alvarez evidencia como o terremoto não atua sozinho: ele incide sobre um país já fragilizado por dívidas impostas, intervenções estrangeiras, pobreza estrutural e sucessivos processos de despossessão.

Nesse sentido, a tragédia natural revela também uma tragédia política. O modo como os Estados Unidos e a comunidade internacional atuam durante o desastre expõe relações de poder assimétricas, interesses geopolíticos e limites evidentes da chamada “ajuda humanitária”. O sofrimento haitiano aparece, assim, como resultado de uma longa história de violência colonial que não se encerra com o fim formal da dominação.

Curto e direto, o livro não pretende esgotar a complexidade do Haiti, mas cumpre um papel importante: introduz o leitor à história do país e às camadas profundas que tornam uma catástrofe natural ainda mais devastadora. É uma leitura rápida, mas incômoda, que nos obriga a confrontar a desigualdade global e a lembrar que desastres nunca são apenas naturais. Vale a leitura, sobretudo como exercício de memória, consciência histórica e responsabilidade ética.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro.