LIVRE: VIRANDO ADULTA NO FIM DA HISTÓRIA
LEA YPI
TODAVIA – 1ª ED. - 2022
304 páginas
Em Livre: Virando Adulta no Fim da História,
Lea Ypi constrói uma
autobiografia profundamente atravessada pela história política da Albânia,
acompanhando sua infância sob o regime socialista, a queda desse sistema, a
guerra civil que se seguiu e, por fim, sua partida definitiva do país. Trata-se
de um livro especialmente instigante também por seu cenário: a Albânia é um
ponto quase cego da história europeia, apesar de ter sido apresentada, durante
certo período, como modelo exemplar do socialismo/comunismo, o que torna a
narrativa ainda mais potente ao deslocar o leitor de referências já
cristalizadas.
Ypi relata uma infância
aparentemente harmoniosa, marcada pela vida familiar, pela escola e pela rotina
cotidiana. Para a criança que foi, tudo parecia funcionar de modo coerente e
seguro, sem grandes motivos para questionamento. As fissuras surgiam apenas nas
conversas entre adultos, fragmentos de falas que ela não conseguia compreender,
mas que anunciavam algo silenciado. Somente após a queda do regime ela descobre
a história real de sua família e compreende o silêncio que a cercava; um
silêncio construído como forma de proteção, tanto dela quanto da própria
família.
A partir dessa experiência, o
livro avança para uma reflexão mais ampla sobre a ideia de liberdade. Ypi
questiona se ela realmente existe nas democracias liberais, no capitalismo e no
sistema neoliberal, mostrando como a coerção nem sempre é visível e como a
liberdade pode operar como uma ilusão eficaz justamente por ser naturalizada e
internalizada. Não se trata apenas de regimes políticos distintos, mas de
formas diferentes de produzir obediência, adesão e consentimento.
A leitura provoca inevitáveis
deslocamentos e ressonâncias com o contexto brasileiro. É impossível não pensar
no silêncio que recai sobre a escravização e sobre a ditadura militar,
silêncios que produzem a ignorância política que atravessa o presente. Assim
como Lea, também crescemos acreditando no que nos foi ensinado na escola e na
família, sem acesso às camadas ocultas da história e às violências que
estruturaram o país.
O livro também conduz a uma
reflexão sobre o eurocentrismo que nos legou uma ideologia branca, racista e
patriarcal, ainda profundamente operante. Muitos continuam a pensar os povos
indígenas como seres do passado, indolentes ou preguiçosos, e os negros como
inferiores ou, pior, como inimigos sociais — imagens que seguem legitimando
violências cotidianas amplamente visíveis no noticiário. A permanência dessas
hierarquias revela o quanto a chamada liberdade democrática convive com formas
profundas de exclusão e desumanização.
Por fim, o livro nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda: qual é, afinal, a diferença? No Brasil, a palavra “comunismo” ainda provoca pânico, enquanto as formas de manipulação e coerção do sistema vigente passam quase despercebidas. Livre nos convida a percorrer o caminho inverso: se o capitalismo se apresenta como o oposto do comunismo, em que medida eles também se aproximam? Sabemos bem no que diferem, mas raramente nos perguntamos no que são semelhantes. É nesse espaço de reflexão, entre memória, silenciamento e ideologia, que o livro se inscreve com força.
Lea Ypi nasceu em 1979, em Tirana na Albânia. É escritora e
professora de teoria política e filosofia.


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