sábado, 7 de fevereiro de 2026

A FORÇA SILENCIOSA DE EUNICE PAIVA


 

AINDA ESTOU AQUI

MARCELO RUBENS PAIVA

ALFAGUARA – 1ª ED. 2015

Não assisti ainda ao filme, mas diante de toda a repercussão recente, confesso que esperava mais do livro. Ainda estou aqui tem sido amplamente mobilizado no debate público como uma obra sobre a ditadura militar, mas, na leitura, essa dimensão aparece de forma relativamente limitada e, em certos momentos, até repetitiva.

A prisão e o assassinato de Rubens Paiva ocupam menos espaço do que se poderia supor. Os episódios ligados à repressão retornam ao longo do texto, mas sem grande aprofundamento histórico ou político, o que contrasta com a centralidade que o tema ganhou na mídia. A ditadura está ali, sem dúvida, mas não é esse o núcleo mais potente do livro.

O que realmente se impõe como experiência literária e afetiva é o relato do Alzheimer de Eunice Paiva. É um texto pungente, delicado, por vezes devastador. Se é possível usar essa palavra diante de uma doença tão cruel, trata-se de um relato “belíssimo”, justamente por sua contenção e honestidade. O apagamento progressivo da memória, a inversão de papéis entre mãe e filhos, a perda cotidiana e irreversível da pessoa que se ama é narrado com uma sensibilidade que sustenta o livro.

Chama atenção, no entanto, o pouco espaço dedicado à vida de Eunice entre a prisão do marido e o início da doença. Há apenas apontamentos: sua formação em Direito, sua atuação na defesa dos povos indígenas, a conquista de autonomia e independência. Eunice era uma mulher de classe média alta, dona de casa, inserida em um casamento tradicional, cuja vida foi abruptamente virada do avesso. Essa transformação — talvez uma das mais fortes — permanece quase como pano de fundo.

O livro toca em um ponto delicado e raramente explorado: a raiva que Eunice sentiu do marido. Uma raiva legítima, complexa, que conviveu com a lealdade, a defesa incansável de sua memória e a luta por justiça. Essa ambivalência humaniza a personagem e rompe com qualquer idealização fácil.

Até hoje, não se sabe exatamente do que Rubens Paiva foi acusado. No livro, a explicação apresentada envolve uma correspondência vinda do Chile com seu nome, destinada a outra pessoa. Ainda assim, a violência foi extrema e rápida. Muitos morreram nos porões da ditadura, mas esse caso se destaca pela brutalidade concentrada em poucas horas. Não há registro de delação. Eunice foi presa junto com a filha; a menina foi libertada rapidamente, enquanto Eunice permaneceu dias encarcerada. Mesmo sem agressão física direta, trata-se de tortura psicológica, e isso também destrói.

No fundo, Ainda estou aqui é menos um livro sobre a ditadura e mais um livro sobre uma mulher. Uma mulher que, de um dia para o outro, precisou se emancipar. Que perdeu o marido, o amparo financeiro, a posição social e a segurança. Sem pensão, já que Rubens Paiva foi declarado fugitivo e não morto, ela assumiu sozinha a criação dos filhos, o sustento da família e a reconstrução de si mesma.

Vou assistir agora ao filme — já ouvi que ele enfatiza muito mais a ditadura. Resta ver como essa escolha desloca o centro da narrativa. O livro, ao menos, permanece como o retrato de uma força feminina silenciosa, construída na perda, na raiva contida e na resistência cotidiana.



Marcelo Rubens Paiva nasceu em São Paulo em 1959. É escritor, dramaturgo e roteirista 

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