AINDA ESTOU AQUI
MARCELO RUBENS PAIVA
ALFAGUARA – 1ª ED. 2015
Não assisti ainda ao filme, mas
diante de toda a repercussão recente, confesso que esperava mais do livro. Ainda estou aqui tem sido amplamente
mobilizado no debate público como uma obra sobre a ditadura militar, mas, na
leitura, essa dimensão aparece de forma relativamente limitada e, em certos
momentos, até repetitiva.
A
prisão e o assassinato de Rubens Paiva ocupam menos espaço do que se poderia
supor. Os episódios ligados à repressão retornam ao longo do texto, mas sem
grande aprofundamento histórico ou político, o que contrasta com a centralidade
que o tema ganhou na mídia. A ditadura está ali, sem dúvida, mas não é esse o
núcleo mais potente do livro.
O
que realmente se impõe como experiência literária e afetiva é o relato do
Alzheimer de Eunice Paiva. É um texto pungente, delicado, por vezes devastador.
Se é possível usar essa palavra diante de uma doença tão cruel, trata-se de um
relato “belíssimo”, justamente por sua contenção e honestidade. O apagamento
progressivo da memória, a inversão de papéis entre mãe e filhos, a perda
cotidiana e irreversível da pessoa que se ama é narrado com uma sensibilidade
que sustenta o livro.
Chama
atenção, no entanto, o pouco espaço dedicado à vida de Eunice entre a prisão do
marido e o início da doença. Há apenas apontamentos: sua formação em Direito,
sua atuação na defesa dos povos indígenas, a conquista de autonomia e
independência. Eunice era uma mulher de classe média alta, dona de casa,
inserida em um casamento tradicional, cuja vida foi abruptamente virada do
avesso. Essa transformação — talvez uma das mais fortes — permanece quase como
pano de fundo.
O
livro toca em um ponto delicado e raramente explorado: a raiva que Eunice
sentiu do marido. Uma raiva legítima, complexa, que conviveu com a lealdade, a
defesa incansável de sua memória e a luta por justiça. Essa ambivalência
humaniza a personagem e rompe com qualquer idealização fácil.
Até
hoje, não se sabe exatamente do que Rubens Paiva foi acusado. No livro, a
explicação apresentada envolve uma correspondência vinda do Chile com seu nome,
destinada a outra pessoa. Ainda assim, a violência foi extrema e rápida. Muitos
morreram nos porões da ditadura, mas esse caso se destaca pela brutalidade
concentrada em poucas horas. Não há registro de delação. Eunice foi presa junto
com a filha; a menina foi libertada rapidamente, enquanto Eunice permaneceu
dias encarcerada. Mesmo sem agressão física direta, trata-se de tortura
psicológica, e isso também destrói.
No
fundo, Ainda estou aqui é menos um livro
sobre a ditadura e mais um livro sobre uma mulher. Uma mulher que, de um dia
para o outro, precisou se emancipar. Que perdeu o marido, o amparo financeiro,
a posição social e a segurança. Sem pensão, já que Rubens Paiva foi declarado
fugitivo e não morto, ela assumiu sozinha a criação dos filhos, o sustento da
família e a reconstrução de si mesma.
Vou assistir agora ao filme — já ouvi
que ele enfatiza muito mais a ditadura. Resta ver como essa escolha desloca o
centro da narrativa. O livro, ao menos, permanece como o retrato de uma força
feminina silenciosa, construída na perda, na raiva contida e na resistência
cotidiana.


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