terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

TESTEMUNHAR A CATÁSTROFE

 

HAITI, DEPOIS DO INFERNO: MEMÓRIAS DE UM REPÓRTER NO MAIOR TERREMOTO DO SÉCULO

RODRIGO ALVAREZ

GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2010

120 páginas

Em Haiti, depois do inferno: memórias de um repórter no maior terremoto do século, o jornalista Rodrigo N. Alvarez constrói um relato marcado pela experiência direta do horror. O livro nasce do que foi visto, vivido e sentido durante o terremoto de 2010, que atingiu de forma devastadora o Haiti, especialmente a capital Porto Príncipe, deixando milhares de mortos, feridos e desabrigados, em um cenário de escassez extrema de água, comida e socorro imediato.

A narrativa é atravessada por imagens de destruição absoluta, mas também por uma dimensão humana intensa: corpos sob os escombros, pessoas vagando sem destino, o desespero coletivo e a sensação de abandono. Alvarez escreve como repórter, mas também como alguém afetado profundamente pela tragédia, o que confere ao texto uma força testemunhal que ultrapassa a simples descrição factual.

O livro, porém, não se limita ao acontecimento sísmico. O autor amplia o olhar ao contextualizar a catástrofe dentro da história do Haiti, marcada por séculos de exploração colonial, primeiro sob domínio francês e depois sob forte interferência dos Estados Unidos. Ao retomar esse passado, Alvarez evidencia como o terremoto não atua sozinho: ele incide sobre um país já fragilizado por dívidas impostas, intervenções estrangeiras, pobreza estrutural e sucessivos processos de despossessão.

Nesse sentido, a tragédia natural revela também uma tragédia política. O modo como os Estados Unidos e a comunidade internacional atuam durante o desastre expõe relações de poder assimétricas, interesses geopolíticos e limites evidentes da chamada “ajuda humanitária”. O sofrimento haitiano aparece, assim, como resultado de uma longa história de violência colonial que não se encerra com o fim formal da dominação.

Curto e direto, o livro não pretende esgotar a complexidade do Haiti, mas cumpre um papel importante: introduz o leitor à história do país e às camadas profundas que tornam uma catástrofe natural ainda mais devastadora. É uma leitura rápida, mas incômoda, que nos obriga a confrontar a desigualdade global e a lembrar que desastres nunca são apenas naturais. Vale a leitura, sobretudo como exercício de memória, consciência histórica e responsabilidade ética.


Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um jornalista e escritor brasileiro. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário