HAITI, DEPOIS DO INFERNO: MEMÓRIAS DE UM REPÓRTER NO MAIOR
TERREMOTO DO SÉCULO
GLOBO LIVROS – 1ª ED. – 2010
120 páginas
Em Haiti, depois do inferno: memórias de um
repórter no maior terremoto do século, o jornalista Rodrigo N. Alvarez
constrói um relato marcado pela experiência direta do horror. O livro nasce do
que foi visto, vivido e sentido durante o terremoto de 2010, que atingiu de
forma devastadora o Haiti, especialmente a capital Porto Príncipe, deixando
milhares de mortos, feridos e desabrigados, em um cenário de escassez extrema
de água, comida e socorro imediato.
A narrativa é atravessada por imagens de
destruição absoluta, mas também por uma dimensão humana intensa: corpos sob os
escombros, pessoas vagando sem destino, o desespero coletivo e a sensação de
abandono. Alvarez escreve como repórter, mas também como alguém afetado
profundamente pela tragédia, o que confere ao texto uma força testemunhal que
ultrapassa a simples descrição factual.
O livro, porém, não se limita ao acontecimento
sísmico. O autor amplia o olhar ao contextualizar a catástrofe dentro da
história do Haiti, marcada por séculos de exploração colonial, primeiro sob
domínio francês e depois sob forte interferência dos Estados Unidos. Ao retomar
esse passado, Alvarez evidencia como o terremoto não atua sozinho: ele incide
sobre um país já fragilizado por dívidas impostas, intervenções estrangeiras,
pobreza estrutural e sucessivos processos de despossessão.
Nesse sentido, a tragédia natural revela
também uma tragédia política. O modo como os Estados Unidos e a comunidade
internacional atuam durante o desastre expõe relações de poder assimétricas,
interesses geopolíticos e limites evidentes da chamada “ajuda humanitária”. O
sofrimento haitiano aparece, assim, como resultado de uma longa história de
violência colonial que não se encerra com o fim formal da dominação.
Curto e direto, o livro não pretende esgotar a
complexidade do Haiti, mas cumpre um papel importante: introduz o leitor à
história do país e às camadas profundas que tornam uma catástrofe natural ainda
mais devastadora. É uma leitura rápida, mas incômoda, que nos obriga a
confrontar a desigualdade global e a lembrar que desastres nunca são apenas
naturais. Vale a leitura, sobretudo como exercício de memória, consciência
histórica e responsabilidade ética.
Rodrigo Alvarez nasceu no Rio de Janeiro, em 1974. É um
jornalista e escritor brasileiro.


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