quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O CIÚME COMO NARRATIVA E A CONDENAÇÃO SEM PROVA


 

DOM CASMURRO

MACHADO DE ASSIS

PRINCIPIS – 2019

MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS


Dom Casmurro é um romance sobre o ciúme, mas, sobretudo, sobre o poder de quem narra. Lido há muito tempo, o que permanece é menos a dúvida sobre Capitu e mais a certeza da insegurança de Bentinho. Para mim, Capitu não traiu. O que existe ali é a imaginação de um homem incapaz de lidar com o amor sem posse.

Bentinho narra a própria história tentando convencer o leitor, e talvez a si mesmo, de que foi traído. Mas o romance inteiro se constrói sobre indícios frágeis, suposições, interpretações enviesadas, leituras paranoicas de gestos e olhares. Capitu é condenada sem prova, julgada sem defesa, silenciada sem possibilidade de resposta. Tudo passa pelo filtro de uma subjetividade ressentida.

O ciúme em Dom Casmurro não nasce de fatos, mas da insegurança. Bentinho projeta em Capitu seus medos, suas dúvidas, sua fragilidade emocional. Ele não confia nela porque não confia em si. O olhar de Capitu — famoso, enigmático, “de ressaca” — torna-se ameaça justamente porque ele não suporta a autonomia do outro.

Machado de Assis constrói uma obra-prima ao transformar o narrador em personagem pouco confiável. O leitor atento percebe as fissuras do discurso, as contradições, o esforço excessivo de convencer. A narrativa não busca a verdade objetiva dos acontecimentos, mas revela o funcionamento do ciúme: como ele reorganiza a memória, distorce o passado e cria uma lógica própria.

Capitu, por sua vez, é uma personagem de força silenciosa. Inteligente, observadora, estrategista em um mundo que não lhe oferece espaço de fala, ela incomoda exatamente por não ser transparente. E talvez seja isso que Bentinho não perdoe: Capitu pensa, decide, age, e ele não a controla.

Dom Casmurro não é um romance sobre adultério. É um romance sobre a construção da culpa. A tragédia não está na traição, que jamais se comprova, mas na incapacidade de Bentinho de amar sem vigiar, sem suspeitar, sem reduzir o outro a uma extensão de si.

Reler Machado hoje é perceber o quanto ele antecipa discussões profundamente contemporâneas: gaslighting, narrativas de poder, silenciamento feminino. Capitu não precisa ser inocentada — porque talvez nunca tenha sido culpada. O verdadeiro réu sempre foi Bentinho, e o tribunal é a própria linguagem.


Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e faleceu na mesma cidade em 1908. Foi um escritor brasileiro. 


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