DOM CASMURRO
MACHADO DE ASSIS
PRINCIPIS – 2019
MEMÓRIAS DE MINHAS LEITURAS
Dom Casmurro é um romance sobre o ciúme,
mas, sobretudo, sobre o poder de quem narra. Lido há muito tempo, o que
permanece é menos a dúvida sobre Capitu e mais a certeza da insegurança de
Bentinho. Para mim, Capitu não traiu. O que existe ali é a imaginação de um homem
incapaz de lidar com o amor sem posse.
Bentinho narra a própria história tentando
convencer o leitor, e talvez a si mesmo, de que foi traído. Mas o romance
inteiro se constrói sobre indícios frágeis, suposições, interpretações
enviesadas, leituras paranoicas de gestos e olhares. Capitu é condenada sem
prova, julgada sem defesa, silenciada sem possibilidade de resposta. Tudo passa
pelo filtro de uma subjetividade ressentida.
O ciúme em Dom Casmurro não nasce de
fatos, mas da insegurança. Bentinho projeta em Capitu seus medos, suas dúvidas,
sua fragilidade emocional. Ele não confia nela porque não confia em si. O olhar
de Capitu — famoso, enigmático, “de ressaca” — torna-se ameaça justamente
porque ele não suporta a autonomia do outro.
Machado de Assis constrói uma obra-prima ao
transformar o narrador em personagem pouco confiável. O leitor atento percebe
as fissuras do discurso, as contradições, o esforço excessivo de convencer. A
narrativa não busca a verdade objetiva dos acontecimentos, mas revela o
funcionamento do ciúme: como ele reorganiza a memória, distorce o passado e
cria uma lógica própria.
Capitu, por sua vez, é uma personagem de força
silenciosa. Inteligente, observadora, estrategista em um mundo que não lhe
oferece espaço de fala, ela incomoda exatamente por não ser transparente. E
talvez seja isso que Bentinho não perdoe: Capitu pensa, decide, age, e ele não
a controla.
Dom Casmurro não é um romance sobre
adultério. É um romance sobre a construção da culpa. A tragédia não está na
traição, que jamais se comprova, mas na incapacidade de Bentinho de amar sem
vigiar, sem suspeitar, sem reduzir o outro a uma extensão de si.
Reler Machado hoje é perceber o quanto ele
antecipa discussões profundamente contemporâneas: gaslighting, narrativas de
poder, silenciamento feminino. Capitu não precisa ser inocentada — porque
talvez nunca tenha sido culpada. O verdadeiro réu sempre foi Bentinho, e o
tribunal é a própria linguagem.
Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 1839 e faleceu
na mesma cidade em 1908. Foi um escritor brasileiro.


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