O MORRO DOS VENTOS UIVANTES
EMILY BRONTË
PRINCIPIS – 2020
O morro dos ventos
uivantes costuma ser apresentado como uma história de amor. Mas
essa definição é insuficiente — e, de certo modo, enganosa. O romance de Emily
Brontë não narra um amor conciliador ou redentor, e sim uma paixão absoluta,
violenta, destrutiva, que se coloca frontalmente contra as normas sociais,
morais e afetivas da Inglaterra vitoriana.
Catherine Earnshaw e Heathcliff
crescem juntos após o pai de Catherine acolher o menino de rua em sua casa. Na
infância, formam um vínculo profundo, quase indissociável, marcado pela
liberdade, pela cumplicidade e pela identificação com a paisagem selvagem dos
páramos. Com a morte do pai, porém, a ordem social se impõe: o irmão de
Catherine rebaixa Heathcliff à condição de servo, lembrando-o constantemente de
seu lugar subalterno.
Catherine, por sua vez, é uma
personagem que escapa a qualquer ideal feminino dócil. Seu temperamento é
explosivo, indomável, tão áspero quanto o vento que varre o morro onde vive.
Ainda assim, pressionada pelas convenções sociais e pela promessa de segurança,
ela se casa com Edgar Linton, um homem respeitável, civilizado e socialmente
adequado — exatamente o oposto de Heathcliff. A escolha não é fruto de amor,
mas de adequação. E é essa cisão que torna a tragédia inevitável.
Heathcliff parte, mas retorna
anos depois transformado, enriquecido e tomado por um ressentimento absoluto.
Compra a casa onde cresceu e passa a habitar o lugar como uma presença quase
espectral, movido por um desejo de vingança que não distingue culpados de
inocentes. A morte de Catherine, após o parto, não encerra a história: ao
contrário, radicaliza o ódio, a obsessão e a recusa de aceitar a perda.
A narrativa é mediada pela
governanta Nelly Dean, que conta essa história a um forasteiro recém-chegado à
região, curioso sobre o comportamento estranho de seu locatário. Essa estrutura
de relato indireto cria distância e, ao mesmo tempo, reforça o caráter
perturbador dos acontecimentos — como se aquilo que é narrado fosse grande
demais para ser dito de forma direta.
Emily Brontë escreve um romance
que desafia frontalmente a moral vitoriana. Catherine e Heathcliff não são
exemplos, não são modelos, não são personagens edificantes. São figuras que
vivem os sentimentos até o limite — o amor, o ódio, o desejo de posse, a
crueldade. Catherine, sobretudo, encarna uma feminilidade impossível de
domesticar: ela ama para além das regras, pensa para além do permitido, e paga
por isso um preço altíssimo.
O morro dos ventos
uivantes é um livro sobre paixões que não se ajustam à sociedade.
Um romance selvagem, ermo, violento, onde a paisagem não é cenário, mas
extensão dos personagens. Ali, onde os ventos uivam, não há conciliação
possível — apenas a insistência brutal de sentimentos que recusam ser
civilizados.


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