sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

PAIXÃO, VIOLÊNCIA E RECUSA DA ORDEM SOCIAL

 


O MORRO DOS VENTOS UIVANTES

EMILY BRONTË

PRINCIPIS – 2020

O morro dos ventos uivantes costuma ser apresentado como uma história de amor. Mas essa definição é insuficiente — e, de certo modo, enganosa. O romance de Emily Brontë não narra um amor conciliador ou redentor, e sim uma paixão absoluta, violenta, destrutiva, que se coloca frontalmente contra as normas sociais, morais e afetivas da Inglaterra vitoriana.

Catherine Earnshaw e Heathcliff crescem juntos após o pai de Catherine acolher o menino de rua em sua casa. Na infância, formam um vínculo profundo, quase indissociável, marcado pela liberdade, pela cumplicidade e pela identificação com a paisagem selvagem dos páramos. Com a morte do pai, porém, a ordem social se impõe: o irmão de Catherine rebaixa Heathcliff à condição de servo, lembrando-o constantemente de seu lugar subalterno.

Catherine, por sua vez, é uma personagem que escapa a qualquer ideal feminino dócil. Seu temperamento é explosivo, indomável, tão áspero quanto o vento que varre o morro onde vive. Ainda assim, pressionada pelas convenções sociais e pela promessa de segurança, ela se casa com Edgar Linton, um homem respeitável, civilizado e socialmente adequado — exatamente o oposto de Heathcliff. A escolha não é fruto de amor, mas de adequação. E é essa cisão que torna a tragédia inevitável.

Heathcliff parte, mas retorna anos depois transformado, enriquecido e tomado por um ressentimento absoluto. Compra a casa onde cresceu e passa a habitar o lugar como uma presença quase espectral, movido por um desejo de vingança que não distingue culpados de inocentes. A morte de Catherine, após o parto, não encerra a história: ao contrário, radicaliza o ódio, a obsessão e a recusa de aceitar a perda.

A narrativa é mediada pela governanta Nelly Dean, que conta essa história a um forasteiro recém-chegado à região, curioso sobre o comportamento estranho de seu locatário. Essa estrutura de relato indireto cria distância e, ao mesmo tempo, reforça o caráter perturbador dos acontecimentos — como se aquilo que é narrado fosse grande demais para ser dito de forma direta.

Emily Brontë escreve um romance que desafia frontalmente a moral vitoriana. Catherine e Heathcliff não são exemplos, não são modelos, não são personagens edificantes. São figuras que vivem os sentimentos até o limite — o amor, o ódio, o desejo de posse, a crueldade. Catherine, sobretudo, encarna uma feminilidade impossível de domesticar: ela ama para além das regras, pensa para além do permitido, e paga por isso um preço altíssimo.

O morro dos ventos uivantes é um livro sobre paixões que não se ajustam à sociedade. Um romance selvagem, ermo, violento, onde a paisagem não é cenário, mas extensão dos personagens. Ali, onde os ventos uivam, não há conciliação possível — apenas a insistência brutal de sentimentos que recusam ser civilizados.



Emily Brontë nasceu em Thornton, Condado de York, em 1848 e faleceu em Haworth, Reino Unido, em 1848. Escritora e poetisa britânica. Este é o único retrato da autora que foi pintado por seu irmão. 

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