O TEMPO DAS PAIXÕES TRISTES
As desigualdades agora se diversificam e se individualizam,
e explicam as cóleras, os ressentimentos e as indignações de nossos dias.
FRANÇOIS DUBET
VESTÍGIO – 1ª ED. – 2020
Tenho estudado a questão das
políticas identitárias e das transformações nos modos de organização social,
sobretudo quando comparadas às formas clássicas de luta baseadas nas classes
sociais. Durante muito tempo, os movimentos sociais se estruturaram como
coletivos amplos e múltiplos, movidos por um senso comum de luta e pela busca
de melhorias que, ao menos em princípio, visavam o conjunto da sociedade, como
nas disputas entre trabalhadores, patrões e capital.
Hoje,
assistimos a um processo distinto. Grandes grupos se fragmentam em múltiplas
identidades, muitas vezes organizadas em torno do ressentimento, da cólera e da
indignação. Não raramente, esses grupos acabam reproduzindo as mesmas formas de
violência simbólica — ou mesmo concreta — daqueles que dizem combater: atacam,
agridem, ameaçam e inviabilizam o diálogo. Evidentemente, continuam existindo
lutas estruturais fundamentais, como o movimento negro, mas, ao lado delas,
proliferam inúmeros grupos identitários cuja dinâmica nem sempre favorece o
debate público ou a construção do comum.
É
nesse contexto que O tempo das paixões
tristes se mostra um livro fundamental. Embora o estudo esteja centrado na
realidade francesa, onde vive o autor, Dubet oferece ferramentas analíticas que
podem ser plenamente mobilizadas no Brasil. Seu foco não é apenas
institucional, mas profundamente humano: ele analisa jovens, escolas,
trabalhadores, imigrantes, trajetórias individuais e experiências concretas de
desigualdade.
Entre
todos os livros que li até agora sobre o tema, este foi o que mais contribuiu
para minha compreensão do problema. Dubet se pergunta, e nos ajuda a pensar, o
que fragmentou as classes sociais, por que as identificações identitárias se
intensificaram, de onde surge tanto ressentimento e, em muitos casos, tanto
ódio. Em que momento a indignação, que historicamente impulsionou movimentos
coletivos voltados à transformação social, se converte em uma multiplicidade de
identidades fechadas em si mesmas, tornando o debate público quase impossível?
O
autor aponta para um deslocamento decisivo: da identidade múltipla para a
identidade fixa. Não sou apenas isto e sou atravessado por muitas dimensões, dá
lugar a uma definição rígida do eu, incapaz de se constituir na relação com o
outro. O reconhecimento deixa de ser relacional e passa a ser vivido como
disputa permanente. A política se empobrece quando o sujeito se fecha
exclusivamente em si mesmo.
Como
chegamos a esse ponto? Por que esse modelo de identificação se tornou tão
potente? São essas as perguntas que Dubet enfrenta — e são também as questões
que sigo tentando compreender.
François Dubet nasceu em Périgueux, França, em 1946. É sociólogo
e filósofo.


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