O GRITO DE EVA
A violência doméstica em lares cristãos
MARÍLIA DE CAMARGO CÉSAR
THOMAS NELSON BRASIL – 1ª ED. - 2021
178 páginas
O grito de Eva, de
Marília de Camargo César, parte de uma constatação incômoda: o machismo
atravessa todas as esferas do patriarcado — sociedade, política, família e
também a religião. Existe a ilusão de que pessoas religiosas seriam, por
definição, amorosas e incapazes de praticar violência, mas o livro demonstra
que essa expectativa não corresponde à realidade. A autora reúne relatos de
mulheres cristãs que, ao buscarem ajuda dentro de suas igrejas, acabam sendo
aconselhadas a rezar mais, a compreender, a relevar, a suportar. Esse tipo de
orientação, longe de proteger, contribui para a perpetuação da violência
doméstica.
Ao mesmo tempo, o livro não constrói uma
crítica simplista ou homogênea às lideranças religiosas. Há também depoimentos
e reflexões de pastores que discordam dessas práticas e reconhecem a violência
como algo incompatível com o cristianismo. Fica evidente que tudo depende da
interpretação dos textos sagrados e, sobretudo, do que se deseja extrair deles.
A Bíblia oferece ensinamentos, mas a leitura desses textos exige
responsabilidade histórica e ética: é fundamental distinguir aquilo que
pertence a um contexto social específico daquilo que pode ser compreendido como
princípio válido para outros tempos.
A autora lembra que, no período em que muitos
textos bíblicos foram escritos, a mulher não tinha voz, era socialmente
submissa e confinada ao espaço doméstico. Nesse sentido, a atuação de Jesus
aparece como profundamente disruptiva: ele escuta as mulheres, conversa com
elas, as acolhe, rompendo com o status quo de uma sociedade patriarcal. Marília
também chama atenção para o fato de que o Gênesis apresenta dois relatos da
criação — o primeiro e o segundo — e que é apenas no segundo que surge Eva a
partir da costela de Adão, distinção frequentemente ignorada em leituras
literalistas.
Um ponto especialmente instigante é a reflexão
sobre o silêncio de Adão diante da cena da maçã e da serpente. Por que, tendo
ouvido Deus, ele não interveio, não recusou, não aconselhou Eva? Esse
silenciamento masculino, raramente problematizado, desloca a responsabilidade
exclusiva atribuída à mulher e revela como certas leituras bíblicas operam
seletivamente para reforçar a culpa feminina.
Em relação à submissão, o livro oferece uma
explicação mais ampla do conceito, mostrando que ele não se refere apenas às
mulheres. O problema surge quando essa ideia é aplicada de forma unilateral,
enfatizando a submissão feminina e silenciando as exigências éticas dirigidas
aos homens. Essa leitura parcial sustenta relações abusivas e legitima
violências que nada têm de sagradas.
O grito de Eva é, acima
de tudo, um livro de orientação e encorajamento. Ele afirma, com clareza, que
mulheres cristãs não precisam se submeter à violência física ou ao abuso
psicológico para serem fiéis à sua fé. Elas merecem amor, dignidade e vida
plena, e tomar uma atitude diante da
violência não significa ir contra os ensinamentos sagrados, mas, ao contrário,
reafirmar o valor da própria vida.
Marília de Camargo César nasceu em São Paulo em 1964. É
jornalista e escritora.


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