A EDUCAÇÃO DE UMA IDEALISTA: MEMÓRIAS
SAMANTHA POWER
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. - 2021
632 páginas
As memórias de Samantha Power inspiram,
não por ingenuidade, mas justamente porque revelam o idealismo colocado à
prova. Sim, ela se assume idealista. Mas é uma idealista que age, que entra em territórios devastados,
ocupa espaços institucionais e aceita o risco do fracasso. Erra, recua, perde
batalhas e, ainda assim, não desiste.
Nascida na Irlanda, Samantha
Power migra ainda jovem para os Estados Unidos com a mãe, o padrasto Eddie e o
irmão. Essa experiência inicial de deslocamento já marca sua percepção do
mundo: pertencimento nunca é algo garantido, é sempre construído. Mais tarde,
como jornalista, viaja para a Bósnia para cobrir a guerra. Ali, diante da
violência extrema, da limpeza étnica e da indiferença internacional, vive
experiências que irão moldar definitivamente sua visão política e ética. A
guerra deixa de ser abstração e passa a ter rostos, nomes, corpos.
De volta aos Estados Unidos,
decide estudar Direito. Não como abandono do jornalismo, mas como continuidade:
compreender os mecanismos formais que organizam, ou paralisam, a ação
internacional. Sua trajetória a leva à política institucional, participando da
campanha de Barack Obama,
e posteriormente ao governo norte-americano. Nomeada por Obama como embaixadora
dos EUA na Organização das Nações
Unidas, passa a ocupar um dos espaços mais complexos e
contraditórios da política global.
O livro não idealiza esse
percurso. Pelo contrário: mostra com clareza o embate permanente entre
princípios morais e interesses geopolíticos. Power narra suas tentativas de
intervir ou pressionar diante de conflitos no Iraque, Sudão e Síria, sempre
consciente dos limites impostos pela soberania, pelos vetos, pelos jogos de
poder. Ao mesmo tempo, destaca seu compromisso contínuo com a defesa das
populações civis, em especial das mulheres, quase sempre as primeiras vítimas
das guerras e as últimas a serem ouvidas.
A Educação de uma
Idealista não é apenas a história de uma carreira bem-sucedida. É o
relato de uma formação ética em permanente tensão: como agir sem trair valores?
Como aceitar compromissos sem naturalizar a violência? Como permanecer sensível
ao sofrimento do outro quando se está cercada por protocolos, discursos e
estratégias?
Ao final, fica claro que o
idealismo de Samantha Power não é um ponto de partida confortável, mas um processo doloroso de aprendizado. Um
idealismo que não se satisfaz com boas intenções, mas insiste em permanecer
ativo mesmo quando o mundo oferece poucas respostas. Um livro que convida a
pensar não apenas sobre política internacional, mas sobre o preço, e a
necessidade, de continuar acreditando na responsabilidade diante do outro.
Samantha Power nasceu em Londres, Reino Unido, em 1970. É
uma política, diplomata, escritora, jornalista e advogada.


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