Construindo um sentido africano para os discursos ocidentais
de gênero
OYÈRÓNKẸ́ OYĚWÙMÍ
BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. –
2021
324 páginas
Neste livro fundamental,
Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí parte de uma constatação decisiva: ao iniciar uma pesquisa na
Nigéria com o povo iorubá, percebeu rapidamente que não poderia utilizar a
categoria “gênero” como ferramenta analítica. Aquilo que no pensamento ocidental
aparece como evidente — a organização social a partir da diferença sexual —
simplesmente não operava da mesma forma naquela sociedade antes da colonização
europeia.
Oyěwùmí demonstra, de maneira
consistente, que o gênero não organizava a sociedade iorubá pré-colonial. As
hierarquias sociais não se estruturavam a partir do sexo biológico, mas de
critérios como senioridade, linhagem, ancestralidade e posição relacional. A
categoria “mulher”, tal como formulada no Ocidente moderno, não existia como
eixo estruturante da vida social. Trata-se, segundo a autora, de uma imposição
colonial que traduz violentamente uma ordem social que não era generificada.
Ao projetar o gênero como
categoria universal, o olhar europeu não apenas interpreta mal a sociedade
iorubá, mas ele a recria segundo seus próprios esquemas epistemológicos e esse
gesto não é neutro. Ele reorganiza a experiência social, redefine papéis,
institui hierarquias e, sobretudo, produz subordinação onde antes ela não
existia da mesma forma.
O papel social das mulheres na
sociedade iorubá era central, mas fundamentado em outros princípios. A
maternidade, por exemplo, tinha grande relevância simbólica e social, mas não
era compreendida nos termos ocidentais modernos: idealizados, essencializados e
biologizados. Não se tratava de reduzir a mulher ao corpo ou à função
reprodutiva, mas de situá-la em uma rede de relações ancoradas na
ancestralidade e na continuidade da comunidade.
A crítica de Oyěwùmí ao
pensamento ocidental é direta e profunda. Ao desmontar a lógica biológica e
binária que sustenta a noção moderna de gênero, ela demonstra que existem
outras formas de sociabilidade, outras racionalidades e outras maneiras de
organizar o mundo que não se baseiam no corpo como destino social.
A leitura deste livro foi
decisiva para responder a uma pergunta que atravessa meus estudos sobre as
mulheres: a categoria gênero é universal? A resposta é clara — não, não é. O
gênero pode ser uma ferramenta analítica potente em sociedades ocidentais patriarcais,
onde ele é construído socialmente como mecanismo de subordinação feminina. Mas
não pode ser aplicado indiscriminadamente a todas as culturas sem produzir
distorções profundas.
Esse também não é o caso quando
se estudam, por exemplo, as mulheres do Império Cuxe. A
invenção das mulheres nos obriga, assim, a repensar não apenas a
história das mulheres, mas os próprios fundamentos teóricos a partir dos quais
essa história tem sido escrita. Trata-se de um livro que descoloniza o
pensamento e, ao fazê-lo, nos desestabiliza de maneira necessária.
Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí nasceu na Nigéria em 1957. É uma
pesquisadora oxunista nigeriana e professora.

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