quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

DESCOLONIZAR O FEMINISMO E A PRÓPRIA IDEIA DE MULHER

 


A INVENÇÃO DAS MULHERES

Construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero

OYÈRÓNKẸ́ OYĚWÙMÍ

BAZAR DO TEMPO – 1ª ED. – 2021

324 páginas

Neste livro fundamental, Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí parte de uma constatação decisiva: ao iniciar uma pesquisa na Nigéria com o povo iorubá, percebeu rapidamente que não poderia utilizar a categoria “gênero” como ferramenta analítica. Aquilo que no pensamento ocidental aparece como evidente — a organização social a partir da diferença sexual — simplesmente não operava da mesma forma naquela sociedade antes da colonização europeia.

Oyěwùmí demonstra, de maneira consistente, que o gênero não organizava a sociedade iorubá pré-colonial. As hierarquias sociais não se estruturavam a partir do sexo biológico, mas de critérios como senioridade, linhagem, ancestralidade e posição relacional. A categoria “mulher”, tal como formulada no Ocidente moderno, não existia como eixo estruturante da vida social. Trata-se, segundo a autora, de uma imposição colonial que traduz violentamente uma ordem social que não era generificada.

Ao projetar o gênero como categoria universal, o olhar europeu não apenas interpreta mal a sociedade iorubá, mas ele a recria segundo seus próprios esquemas epistemológicos e esse gesto não é neutro. Ele reorganiza a experiência social, redefine papéis, institui hierarquias e, sobretudo, produz subordinação onde antes ela não existia da mesma forma.

O papel social das mulheres na sociedade iorubá era central, mas fundamentado em outros princípios. A maternidade, por exemplo, tinha grande relevância simbólica e social, mas não era compreendida nos termos ocidentais modernos: idealizados, essencializados e biologizados. Não se tratava de reduzir a mulher ao corpo ou à função reprodutiva, mas de situá-la em uma rede de relações ancoradas na ancestralidade e na continuidade da comunidade.

A crítica de Oyěwùmí ao pensamento ocidental é direta e profunda. Ao desmontar a lógica biológica e binária que sustenta a noção moderna de gênero, ela demonstra que existem outras formas de sociabilidade, outras racionalidades e outras maneiras de organizar o mundo que não se baseiam no corpo como destino social.

A leitura deste livro foi decisiva para responder a uma pergunta que atravessa meus estudos sobre as mulheres: a categoria gênero é universal? A resposta é clara — não, não é. O gênero pode ser uma ferramenta analítica potente em sociedades ocidentais patriarcais, onde ele é construído socialmente como mecanismo de subordinação feminina. Mas não pode ser aplicado indiscriminadamente a todas as culturas sem produzir distorções profundas.

Esse também não é o caso quando se estudam, por exemplo, as mulheres do Império Cuxe. A invenção das mulheres nos obriga, assim, a repensar não apenas a história das mulheres, mas os próprios fundamentos teóricos a partir dos quais essa história tem sido escrita. Trata-se de um livro que descoloniza o pensamento e, ao fazê-lo, nos desestabiliza de maneira necessária.


Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí nasceu na Nigéria em 1957. É uma pesquisadora oxunista nigeriana e professora. 


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