AS BRUXAS: INTRIGA, TRAIÇÃO E HISTERIA EM SALEM
ZAHAR – 1ª ED. –
2019
323 páginas
Em As Bruxas: Intriga,
Traição e Histeria em Salem, Stacy Schiff revisita um dos episódios
mais conhecidos, e ao mesmo tempo mais mal compreendidos, da história colonial
norte-americana: os julgamentos das chamadas “bruxas” de Salem, ocorridos em
1692. Longe de uma narrativa folclórica ou sensacionalista, a autora constrói
um relato minucioso, quase clínico, sobre como uma comunidade inteira foi capturada
por um sistema de acusações, delações e punições legitimadas pelo discurso
religioso, jurídico e moral.
O grande mérito do livro está em
mostrar que Salem não foi um surto isolado de irracionalidade, mas o resultado
de uma confluência de
interesses políticos, rivalidades familiares, tensões econômicas, disputas
territoriais e uma teologia profundamente misógina. A histeria
coletiva não nasce do nada: ela é produzida, alimentada e organizada por
instituições que se apresentam como guardiãs da ordem.
Schiff reconstrói o cotidiano da
vila, os laços entre seus habitantes e o funcionamento do tribunal com uma
precisão impressionante. O leitor percebe como boatos
se transformam em provas, como o medo ganha estatuto jurídico e
como a palavra de meninas adolescentes passa a valer mais do que qualquer
evidência material, desde que confirme o que o poder já deseja ouvir. A
acusação de bruxaria funciona, assim, como um dispositivo eficaz de eliminação
social.
Embora o livro não seja
explicitamente feminista, a leitura revela, de forma contundente, que a maioria das vítimas era composta por mulheres:
mulheres que falavam demais, que herdavam terras, que não se encaixavam nos
papéis esperados, que viviam à margem ou que simplesmente incomodavam. Salem
expõe um mecanismo recorrente da história: quando a ordem patriarcal se sente
ameaçada, ela transforma mulheres em perigo moral.
O termo “histeria”, presente no
subtítulo, não é usado de forma leviana. Ele aponta para um processo de patologização do dissenso, no
qual o sofrimento psíquico, a pobreza, o trauma e até a imaginação são
convertidos em crime. A bruxa não é apenas a mulher que supostamente pactua com
o demônio, mas aquela cuja existência foge ao controle.
A escrita de Stacy Schiff é
elegante, rigorosa e acessível, sem abrir mão da complexidade histórica. Seu
texto evita julgamentos anacrônicos, mas não abdica de uma posição ética clara
diante da violência cometida. Ao final, Salem aparece menos como uma exceção e
mais como um espelho perturbador de sociedades que preferem perseguir
indivíduos a enfrentar suas próprias contradições.
As Bruxas
é, portanto, uma leitura fundamental não apenas para compreender o passado, mas
para reconhecer os ecos de Salem no
presente: nos pânicos morais, nas campanhas de difamação, na
criminalização do feminino, do diferente e do indomável. Um livro que nos
lembra que a fogueira pode mudar de forma, mas raramente desaparece.
Stacy Schiff nasceu em Adams,
Massachusetts, EUA, em 1961. É uma escritora estadunidense.


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