CALIBÃ E A BRUXA – MULHERES, CORPO E ACUMULAÇÃO
SILVIA FEDERICI
ELEFANTE – 2ª ED. – 2023
480 páginas
Em Calibã e a Bruxa,
Silvia Federici propõe uma
releitura radical da origem do capitalismo. Em vez de partir apenas das
transformações econômicas ou do surgimento da indústria, a autora retorna ao
período feudal, às lutas camponesas contra os senhores e às formas coletivas de
vida que foram sistematicamente destruídas para que o capitalismo pudesse
nascer. Essa perspectiva já desmonta um mito persistente: o de um campesinato
servil, passivo e resignado. Ao contrário, havia resistência, e as mulheres
ocupavam um lugar central nela.
A análise atravessa a Peste Negra, que dizimou cerca de um terço
da população europeia, e chega ao início da acumulação capitalista. A escassez
de mão de obra, agravada pela peste, revela um ponto decisivo: as mulheres,
diante da miséria, controlavam o número de filhos. Esse controle do próprio
corpo entra em choque direto com as necessidades do capital nascente, que
precisava urgentemente de trabalhadores.
Na primeira fase da
industrialização, mulheres e crianças são exploradas brutalmente, submetidas a
jornadas de até 14 horas diárias nas fábricas. Quando essa exploração passa a
ser restringida, não se trata de um gesto humanitário, mas de uma reconfiguração
estratégica: surge então a ideologia da mulher
do lar, destinada a parir futuros trabalhadores e a cuidar
gratuitamente daqueles que já produzem. O trabalho feminino, antes múltiplo e
socialmente integrado — nas guildas, nos campos, nas práticas comunitárias — é
progressivamente deslegitimado.
É também o período dos cercamentos: a expropriação das terras
comuns, transformadas em propriedade privada. Ao perderem o acesso à terra, os
camponeses perdem sua subsistência. Nem todos aceitam o destino fabril, e
cresce o número de mendigos, errantes e marginalizados. As mulheres, sobretudo
viúvas, idosas e aquelas sem marido, são as mais vulneráveis. Sem meios de
sobrevivência, tornam-se alvos fáceis da repressão.
É nesse contexto que a figura da
bruxa ganha centralidade. Não
por acaso, sua caricatura é a da mulher velha. Para domesticar as mulheres e
quebrar sua autonomia, o terror torna-se política. Embora a Inquisição já
existisse na Idade Média, é na Idade Moderna que a caça às bruxas atinge seu auge,
e são as mulheres suas principais vítimas. Curandeiras e parteiras competiam
com médicos homens; mulheres detinham saberes sobre contracepção e cuidados com
o corpo; e, sobretudo, resistiam à expropriação de suas vidas e de seu
trabalho.
Queimar mulheres nas fogueiras
não foi um delírio religioso isolado, mas uma estratégia
de disciplinamento social. Era preciso instaurar o medo para
que elas abandonassem a luta, aceitassem o confinamento doméstico, o trabalho
não remunerado e a função reprodutiva como destino natural. A violência extrema
produziu obediência e lucros.
Federici demonstra que o
capitalismo não se construiu apenas sobre a exploração do trabalho assalariado,
mas também sobre a desvalorização
sistemática do trabalho doméstico feminino, apresentado até
hoje como expressão da “natureza” da mulher. Ao transformar cuidado,
maternidade e trabalho do lar em obrigações invisíveis e gratuitas, o sistema
garante sua própria reprodução.
Calibã e a Bruxa
é um livro fundamental porque revela aquilo que a história oficial tentou
apagar: o capitalismo nasceu da violência contra os corpos femininos, da
destruição das formas comunitárias de vida e da separação radical entre
produção e reprodução. Ler Federici é compreender que nada disso pertence
apenas ao passado, e que o que hoje se chama “natural” é, na verdade, o
resultado de uma longa história de terror, expropriação e silenciamento.
No entanto, faço uma crítica: o
estudo concentra-se na Europa no mesmo período da escravização, o que não é
abordado. Outro ponto é que a idealização da maternidade e do confinamento da mulher
ao lar é exclusivo de mulheres da burguesia; as pobres continuaram a trabalhar
nas fábricas.
Silvia Federici
nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e
feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos.

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