BOITEMPO – 1ª ED. – 2019
160 páginas
Mulheres e caça às bruxas, de Silvia
Federici, é uma leitura que provoca raiva e indignação, não em relação à
autora, mas ao processo histórico que ela expõe com clareza e contundência. O
livro desmonta a ideia, ainda muito difundida, de que a caça às bruxas pertence
à Idade Média, mostrando que ela se intensifica, na verdade, no início da Idade
Moderna, em estreita relação com a formação do capitalismo e com as
transformações impostas pela Revolução Industrial.
Federici inicia sua análise pelo cercamento
das terras comunais na Inglaterra. Durante séculos, populações pobres
cultivaram essas terras de forma coletiva, garantindo sua subsistência. Com os
cercamentos, esse direito foi abruptamente retirado. As fábricas precisavam de
mão de obra, e os homens foram forçados a migrar para o trabalho industrial. As
mulheres, porém, reagiram. Arrancavam cercas, continuavam a plantar e mantinham
práticas comunitárias baseadas no respeito à natureza e no apoio mútuo. Essa
resistência feminina tornou-se um obstáculo direto ao novo modelo econômico que
se pretendia impor.
O livro mostra como essa autonomia feminina
precisava ser destruída. Federici dedica um capítulo especialmente revelador ao
termo gossip, hoje traduzido como fofoca, mas que originalmente
designava a amizade entre mulheres, a sororidade, a rede de apoio feminino.
Esse sentido foi deliberadamente deturpado para deslegitimar os vínculos entre
mulheres e promover sua fragmentação. Mulheres que eram independentes, que se
reuniam, conversavam, bebiam juntas nas tavernas, representavam uma ameaça.
Temia-se também sua sexualidade e seu poder de sedução, vistos como forças
capazes de desestabilizar a ordem masculina. A solução encontrada foi brutal:
acusá-las de bruxaria, levá-las à fogueira, instaurar o terror como forma de
disciplinamento social. O objetivo era claro: empurrar as mulheres de volta
para o espaço doméstico, fazê-las procriar mão de obra e garantir a reprodução
cotidiana do trabalhador, fornecendo comida, cuidado e roupas.
O mais perturbador, contudo, é perceber que
esse processo não pertence apenas ao passado. Federici demonstra que a caça às
bruxas continua existindo em diversos lugares do mundo, especialmente na Índia
e em países da África. Na Índia, as acusações estão frequentemente ligadas à
questão do dote; na África, à disputa por terras. As principais vítimas são
mulheres idosas que ainda detêm pequenos pedaços de terra e mantêm práticas
agrícolas baseadas em conhecimentos ancestrais. São perseguidas e assassinadas,
muitas vezes por jovens interessados em se apropriar dessas terras. Em Gana,
existe inclusive um “campo de bruxas”, para onde mulheres fogem em busca de
alguma forma precária de proteção. O silêncio e a escassa reação diante dessas
violências tornam tudo ainda mais revoltante. É daí que nasce a raiva e a
indignação que o livro provoca — sentimentos que não paralisam, mas exigem
reflexão, denúncia e posicionamento.
Silvia Federici
nasceu em Parma, Itália, em 1942. É uma filósofa italiana contemporânea e
feminista autonomista. Está radicada nos Estados Unidos.


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