PRETA E MULHER
KAPULANA – 1ª ED. 2023
É um livro pequeno — apenas 112
páginas —, mas de uma densidade impressionante. Em Preta e mulher, Tsitsi Dangarembga reúne três textos nos
quais escreve sobre sua infância, sobre ser feminista no Zimbábue contemporâneo
e sobre os processos de independência e descolonização do país.
O
relato da infância é dilacerante — e essa palavra não é gratuita, é a forma
como a própria autora se nomeia: dilacerada. Seus pais são enviados pelos
colonizadores para estudar em Londres, e ela e o irmão mais velho são separados
deles e encaminhados para lares adotivos da classe operária inglesa. No momento
da entrega, as crianças são deixadas em uma “sala dos sonhos”, repleta de
brinquedos que nunca haviam visto ou possuído. Quando retornam para buscá-las,
Tsitsi está ansiosa para contar à mãe sobre os brinquedos, mas eles já não
estão ali. Foram embora. A ausência se impõe com violência. A angústia se
instala como experiência fundadora.
No
texto sobre o feminismo no Zimbábue, Dangarembga expõe um cenário de profunda
opressão. Lutar pelos direitos das mulheres é difícil em uma sociedade em que a
misoginia é naturalizada e atravessa todas as classes sociais — nem mesmo as
mulheres da elite escapam. Como escreve a autora:
“Ser
feminista enquanto preta e mulher no Zimbábue é viver no epicentro do racismo
estrutural e de um patriarcado estrutural militarizado brutal que cooptou
partes significativas das instituições estatais”.
E ainda: “As mulheres passam por
traumas baseados em gênero e sexo todos os dias.”
Há
também uma reflexão importante sobre o patriarcado tradicional anterior à
colonização, no qual as mulheres detinham formas reais de poder e
reconhecimento — uma organização que foi profundamente desestruturada com a
imposição colonial. Ao tratar da independência e da descolonização, Dangarembga
oferece um panorama crítico de como esse processo se deu no Zimbábue e quais
foram seus resultados concretos, longe das narrativas idealizadas.
Preta e mulher é um livro de escrita direta,
dura e necessária. Um testemunho que articula corpo, memória, colonialismo e
feminismo, e que nos obriga a encarar as continuidades da violência colonial no
presente.
Tsitsi Dangarembga nasceu em Mutoko, Rodésia do Sul. É uma
romancista, dramaturga e cineasta zimbabauana.


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