DE ONDE ELES VÊM
JEFERSON TENÓRIO
COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2024
Joaquim é um jovem negro que
teve uma infância marcada pela pobreza. Criado pela avó após a morte da mãe,
ainda doente, ele precisa cuidar dela com a ajuda de uma tia. Apaixonado pela
literatura, realiza um de seus maiores desejos ao ingressar na universidade por
meio do sistema de cotas.
Acompanhamos
Joaquim durante esses anos de formação. O sistema de cotas aparece como o que
ele é: uma medida de justiça social. No entanto, a entrada na universidade não
o poupa dos preconceitos estruturais da sociedade brasileira. As diferenças
permanecem visíveis e, quando o racismo não se manifesta de forma explícita,
surge sob a forma da condescendência, da compaixão, do olhar que não reconhece
o outro como igual. Joaquim sente isso profundamente.
Além
disso, a universidade não está preparada para acolher esses estudantes — nem
institucionalmente, nem pedagogicamente. Professores despreparados, ausência de
políticas de permanência, falta de compreensão das realidades sociais dos
alunos. Cabe ao estudante “se virar”: buscar livros, tempo para estudar,
condições mínimas para permanecer.
Joaquim
mora longe, muitas vezes não tem dinheiro sequer para o ônibus ou para se
alimentar. Precisa cuidar da avó e não compartilha da mesma vida de seus
colegas, que vão a festas, têm carro próprio ou são buscados por motoristas.
Ele vive da pensão da avó, mas sabe que precisaria trabalhar — o que
significaria abandonar a universidade, já que o curso é diurno.
Nesse
contexto, Joaquim não consegue sustentar o sonho de ser escritor como força
organizadora de sua vida. Afoga suas frustrações no bar, nos encontros com
amigos, na relação com a namorada branca, de classe social mais alta, que não
consegue compreendê-lo — ao contrário da ex-namorada, negra e cotista, que
partilhava de seu universo.
Há
um momento emblemático: Joaquim precisa ler Ulisses,
de James Joyce. A pergunta se impõe quase naturalmente: se mesmo leitores com
formação sólida encontram dificuldades diante dessa obra, o que acontece com
jovens da periferia, vindos de escolas públicas, que trabalham, cuidam da
família e enfrentam o racismo cotidiano? A universidade propõe igualdade, mas
ignora a equidade.
O
romance evidencia o paradoxo do sistema de cotas: ele é justo e necessário ao
permitir que negros, indígenas e estudantes pobres ingressem na universidade,
mas falha ao não estruturar a permanência desses alunos. São os próprios
cotistas que se organizam, se mobilizam e, aos poucos, forçam transformações no
espaço universitário. Ainda assim, a sociedade insiste em atacar um sistema que
é, antes de tudo, um direito.
Ao
mesmo tempo, o livro provoca desconforto — e isso é importante dizer. Joaquim é
um personagem que incomoda. Ser negro e pobre não justifica todas as suas
escolhas. Usar o dinheiro da pensão da avó doente para beber ou frequentar
prostíbulos, ainda que como forma de aliviar a dor, revela irresponsabilidade.
Ficar sem dinheiro para o transporte porque gastou com bebida é uma escolha
problemática. Outros estudantes negros, cotistas, enfrentam situações
semelhantes e conseguem seguir, se formar, provar mais uma vez sua capacidade.
Mas
talvez seja justamente aí que reside a força do romance. Joaquim não é um
herói. É um ser humano, atravessado por falhas, fragilidades e contradições. O
livro recusa a idealização do jovem negro como símbolo de superação permanente.
Ele reage ao mundo que o violenta — muitas vezes da pior maneira possível. E
isso também é real.
De onde eles vêm nos obriga a pensar não
apenas nas estruturas injustas, mas também nos limites humanos diante delas.
Joaquim precisará crescer, e esse processo se dá ao longo da narrativa — um
desfecho que não cabe aqui relatar, para não antecipar o final do livro.
Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro em 1977. É doutor
em teoria literária pela PUC-RS e escritor.

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