sábado, 7 de fevereiro de 2026

RACISMO ESTRUTURAL, SISTEMA DE COTAS E PERMANÊNCIA UNIVERSITÁRIA

 


DE ONDE ELES VÊM

JEFERSON TENÓRIO

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. 2024


Joaquim é um jovem negro que teve uma infância marcada pela pobreza. Criado pela avó após a morte da mãe, ainda doente, ele precisa cuidar dela com a ajuda de uma tia. Apaixonado pela literatura, realiza um de seus maiores desejos ao ingressar na universidade por meio do sistema de cotas.

Acompanhamos Joaquim durante esses anos de formação. O sistema de cotas aparece como o que ele é: uma medida de justiça social. No entanto, a entrada na universidade não o poupa dos preconceitos estruturais da sociedade brasileira. As diferenças permanecem visíveis e, quando o racismo não se manifesta de forma explícita, surge sob a forma da condescendência, da compaixão, do olhar que não reconhece o outro como igual. Joaquim sente isso profundamente.

Além disso, a universidade não está preparada para acolher esses estudantes — nem institucionalmente, nem pedagogicamente. Professores despreparados, ausência de políticas de permanência, falta de compreensão das realidades sociais dos alunos. Cabe ao estudante “se virar”: buscar livros, tempo para estudar, condições mínimas para permanecer.

Joaquim mora longe, muitas vezes não tem dinheiro sequer para o ônibus ou para se alimentar. Precisa cuidar da avó e não compartilha da mesma vida de seus colegas, que vão a festas, têm carro próprio ou são buscados por motoristas. Ele vive da pensão da avó, mas sabe que precisaria trabalhar — o que significaria abandonar a universidade, já que o curso é diurno.

Nesse contexto, Joaquim não consegue sustentar o sonho de ser escritor como força organizadora de sua vida. Afoga suas frustrações no bar, nos encontros com amigos, na relação com a namorada branca, de classe social mais alta, que não consegue compreendê-lo — ao contrário da ex-namorada, negra e cotista, que partilhava de seu universo.

Há um momento emblemático: Joaquim precisa ler Ulisses, de James Joyce. A pergunta se impõe quase naturalmente: se mesmo leitores com formação sólida encontram dificuldades diante dessa obra, o que acontece com jovens da periferia, vindos de escolas públicas, que trabalham, cuidam da família e enfrentam o racismo cotidiano? A universidade propõe igualdade, mas ignora a equidade.

O romance evidencia o paradoxo do sistema de cotas: ele é justo e necessário ao permitir que negros, indígenas e estudantes pobres ingressem na universidade, mas falha ao não estruturar a permanência desses alunos. São os próprios cotistas que se organizam, se mobilizam e, aos poucos, forçam transformações no espaço universitário. Ainda assim, a sociedade insiste em atacar um sistema que é, antes de tudo, um direito.

Ao mesmo tempo, o livro provoca desconforto — e isso é importante dizer. Joaquim é um personagem que incomoda. Ser negro e pobre não justifica todas as suas escolhas. Usar o dinheiro da pensão da avó doente para beber ou frequentar prostíbulos, ainda que como forma de aliviar a dor, revela irresponsabilidade. Ficar sem dinheiro para o transporte porque gastou com bebida é uma escolha problemática. Outros estudantes negros, cotistas, enfrentam situações semelhantes e conseguem seguir, se formar, provar mais uma vez sua capacidade.

Mas talvez seja justamente aí que reside a força do romance. Joaquim não é um herói. É um ser humano, atravessado por falhas, fragilidades e contradições. O livro recusa a idealização do jovem negro como símbolo de superação permanente. Ele reage ao mundo que o violenta — muitas vezes da pior maneira possível. E isso também é real.

De onde eles vêm nos obriga a pensar não apenas nas estruturas injustas, mas também nos limites humanos diante delas. Joaquim precisará crescer, e esse processo se dá ao longo da narrativa — um desfecho que não cabe aqui relatar, para não antecipar o final do livro.



Jeferson Tenório nasceu no Rio de Janeiro em 1977. É doutor em teoria literária pela PUC-RS e escritor.


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