sábado, 7 de fevereiro de 2026

A PEDAGOGIA DO ÓDIO E A CRISE DA ÉTICA

 


JUVENTUDE SEM DEUS

ÖDÖN VON HORVÁTH

TODAVIA – 1ª ed. – 2024

Juventude sem Deus foi o último livro lido em 2024 — e não poderia ser mais contundente como fechamento de um ano marcado por retrocessos e radicalizações. Ödön von Horváth, escritor nascido na atual Croácia, morreu tragicamente em 1938, em Paris, ao ser atingido por um galho durante uma tempestade. Sua morte precoce interrompeu uma obra que já se mostrava profundamente crítica e lúcida diante da ascensão do fascismo europeu.

O livro é curto, mas de uma densidade inquietante. Trata-se de uma narrativa escrita como advertência, quase um diagnóstico moral, sobre a Alemanha que se deixava seduzir pelo nazismo. A história é conduzida pelo ponto de vista de um professor que, ao corrigir redações escolares, se depara com uma frase brutal: “negros não são humanos”. Ao tentar corrigir o aluno e afirmar o óbvio — a humanidade comum —, o professor se vê transformado em inimigo.

A reação não vem apenas dos estudantes, mas sobretudo dos pais, que se mobilizam contra ele. Um abaixo-assinado pede sua expulsão da escola. A cena, embora situada nos anos 1930, soa assustadoramente atual: professores perseguidos por abordar temas considerados “ideológicos”, seja o marxismo, a história dos movimentos sociais, a sexualidade, as identidades de gênero ou qualquer assunto que desestabilize a moral conservadora. Horváth antecipa, com precisão quase profética, a lógica da censura travestida de defesa da família e da ordem.

Não por acaso, o livro foi proibido na Alemanha nazista e publicado inicialmente na Holanda. O pano de fundo da narrativa é a juventude hitlerista: jovens moldados pelo discurso radiofônico do regime, fascinados por armas, disciplina e obediência. O professor acompanha um grupo de alunos a um acampamento onde aprendem a atirar — e é nesse ambiente que ocorre um assassinato. A partir desse crime, a trama se adensa e coloca o protagonista em uma situação moralmente insustentável.

A culpa emerge como tema central. Não apenas a culpa individual ligada ao crime, mas uma culpa difusa, coletiva, que atravessa uma sociedade inteira. O professor vive uma crise de consciência diante de uma juventude que normaliza a violência, o racismo e a exclusão, e diante de um sistema que pune quem ainda tenta pensar criticamente. Sua fragilidade não é covardia: é o retrato de alguém que percebe, tarde demais, o quanto o mal se torna banal quando sustentado por instituições, famílias e discursos oficiais.

Juventude sem Deus não é apenas um romance sobre o nazismo; é um livro sobre o colapso ético de uma sociedade. Seu impacto reside justamente nisso: ele não aponta monstros isolados, mas mostra como o autoritarismo se instala no cotidiano, na escola, na linguagem, na formação dos jovens. Ler Horváth hoje é reconhecer que a história não se repete de forma idêntica, mas rima — e, muitas vezes, rima de forma perigosa.


Ödön von Horváth nasceu na Croácia, em 1901 e faleceu em Paris em 1938. Estudou teatro e se estabeleceu como dramaturgo em Berlim, onde escrevia peças que satirizavam e criticavam tanto a história alemã quanto o momento sociopolítico em que vivia.


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