JUVENTUDE SEM DEUS
ÖDÖN VON HORVÁTH
TODAVIA – 1ª ed. – 2024
Juventude sem Deus foi
o último livro lido em 2024 — e não poderia ser mais contundente como
fechamento de um ano marcado por retrocessos e radicalizações. Ödön von
Horváth, escritor nascido na atual Croácia, morreu tragicamente em 1938, em
Paris, ao ser atingido por um galho durante uma tempestade. Sua morte precoce
interrompeu uma obra que já se mostrava profundamente crítica e lúcida diante
da ascensão do fascismo europeu.
O
livro é curto, mas de uma densidade inquietante. Trata-se de uma narrativa
escrita como advertência, quase um diagnóstico moral, sobre a Alemanha que se
deixava seduzir pelo nazismo. A história é conduzida pelo ponto de vista de um
professor que, ao corrigir redações escolares, se depara com uma frase brutal:
“negros não são humanos”. Ao tentar corrigir o aluno e afirmar o óbvio — a
humanidade comum —, o professor se vê transformado em inimigo.
A
reação não vem apenas dos estudantes, mas sobretudo dos pais, que se mobilizam
contra ele. Um abaixo-assinado pede sua expulsão da escola. A cena, embora
situada nos anos 1930, soa assustadoramente atual: professores perseguidos por
abordar temas considerados “ideológicos”, seja o marxismo, a história dos
movimentos sociais, a sexualidade, as identidades de gênero ou qualquer assunto
que desestabilize a moral conservadora. Horváth antecipa, com precisão quase
profética, a lógica da censura travestida de defesa da família e da ordem.
Não
por acaso, o livro foi proibido na Alemanha nazista e publicado inicialmente na
Holanda. O pano de fundo da narrativa é a juventude hitlerista: jovens moldados
pelo discurso radiofônico do regime, fascinados por armas, disciplina e
obediência. O professor acompanha um grupo de alunos a um acampamento onde
aprendem a atirar — e é nesse ambiente que ocorre um assassinato. A partir
desse crime, a trama se adensa e coloca o protagonista em uma situação
moralmente insustentável.
A
culpa emerge como tema central. Não apenas a culpa individual ligada ao crime,
mas uma culpa difusa, coletiva, que atravessa uma sociedade inteira. O
professor vive uma crise de consciência diante de uma juventude que normaliza a
violência, o racismo e a exclusão, e diante de um sistema que pune quem ainda
tenta pensar criticamente. Sua fragilidade não é covardia: é o retrato de
alguém que percebe, tarde demais, o quanto o mal se torna banal quando
sustentado por instituições, famílias e discursos oficiais.
Juventude sem Deus não é apenas um romance
sobre o nazismo; é um livro sobre o colapso ético de uma sociedade. Seu impacto
reside justamente nisso: ele não aponta monstros isolados, mas mostra como o
autoritarismo se instala no cotidiano, na escola, na linguagem, na formação dos
jovens. Ler Horváth hoje é reconhecer que a história não se repete de forma
idêntica, mas rima — e, muitas vezes, rima de forma perigosa.
Ödön von Horváth nasceu na
Croácia, em 1901 e faleceu em Paris em 1938. Estudou teatro e se estabeleceu como dramaturgo em Berlim,
onde escrevia peças que satirizavam e criticavam tanto a história alemã quanto
o momento sociopolítico em que vivia.


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