NADA MAIS SERÁ COMO ANTES
MIGUEL NICOLELIS
PLANETA MINOTAURO – 1ª – 2024
Miguel Nicolelis é conhecido
sobretudo como cientista. Sua obra, até aqui, sempre esteve ligada à divulgação
científica, às neurociências e à reflexão sobre os limites e as
responsabilidades da ciência contemporânea. Em Nada
mais será como antes, ele faz um deslocamento significativo: decide
escrever um romance de ficção científica. A motivação, segundo o próprio autor
relata em entrevistas, nasce de um dilema muito concreto — como alcançar um
público mais amplo para falar dos perigos reais que ameaçam nossa civilização.
A
aposta na ficção não significa fuga da realidade. Pelo contrário. O romance se
constrói a partir de fatos históricos, personagens reais e outros ficcionais,
mas o que está em jogo não é a imaginação livre, e sim a tradução narrativa de
diagnósticos científicos bastante precisos. A ficção funciona aqui como
estratégia de comunicação e como dispositivo de alerta.
A
trama se organiza em torno de dois personagens centrais — um matemático e uma
neurocientista — que conduzem o leitor por aquilo que a ciência efetivamente
sabe sobre o presente e sobre os riscos que se acumulam no horizonte. Embora o
cenário seja projetado no futuro, o reconhecimento é imediato: muitos dos
elementos descritos já fazem parte do nosso cotidiano, enquanto outros estão em
processo de gestação e podem ter consequências profundamente destrutivas para a
humanidade.
O
romance é bem construído e mantém o interesse do início ao fim. A narrativa se
desloca por diferentes espaços — Suíça, Egito antigo e contemporâneo, São
Paulo, Estados Unidos, Amazônia — compondo um mosaico global que reforça a
ideia de interdependência planetária. Nada acontece de forma isolada: crises
ambientais, decisões financeiras, avanços tecnológicos e colapsos éticos se
entrelaçam.
Entre
os temas abordados estão o meio ambiente, a inteligência artificial, o mercado
financeiro e, de maneira mais profunda, questões filosóficas como ética, moral,
vida e morte. Nicolelis não oferece respostas fáceis nem soluções messiânicas.
O que ele propõe é um exercício de lucidez: reconhecer que o conhecimento
científico já aponta limites claros e que a insistência em ignorá-los pode nos
conduzir a um ponto de não retorno.
Nada
mais será como antes é, acima de tudo, um livro de advertência. Ao
recorrer à ficção, Nicolelis amplia o alcance de uma mensagem que há muito
circula nos meios científicos, mas raramente atravessa o debate público com a
urgência necessária. Trata-se de uma leitura envolvente, inquietante e
necessária — daquelas que não se encerram na última página, mas continuam
ecoando depois.

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