sábado, 7 de fevereiro de 2026

UM ROMANCE SOBRE OS LIMITES DA CIVILIZAÇÃO

 


NADA MAIS SERÁ COMO ANTES

MIGUEL NICOLELIS

PLANETA MINOTAURO – 1ª – 2024

Miguel Nicolelis é conhecido sobretudo como cientista. Sua obra, até aqui, sempre esteve ligada à divulgação científica, às neurociências e à reflexão sobre os limites e as responsabilidades da ciência contemporânea. Em Nada mais será como antes, ele faz um deslocamento significativo: decide escrever um romance de ficção científica. A motivação, segundo o próprio autor relata em entrevistas, nasce de um dilema muito concreto — como alcançar um público mais amplo para falar dos perigos reais que ameaçam nossa civilização.

A aposta na ficção não significa fuga da realidade. Pelo contrário. O romance se constrói a partir de fatos históricos, personagens reais e outros ficcionais, mas o que está em jogo não é a imaginação livre, e sim a tradução narrativa de diagnósticos científicos bastante precisos. A ficção funciona aqui como estratégia de comunicação e como dispositivo de alerta.

A trama se organiza em torno de dois personagens centrais — um matemático e uma neurocientista — que conduzem o leitor por aquilo que a ciência efetivamente sabe sobre o presente e sobre os riscos que se acumulam no horizonte. Embora o cenário seja projetado no futuro, o reconhecimento é imediato: muitos dos elementos descritos já fazem parte do nosso cotidiano, enquanto outros estão em processo de gestação e podem ter consequências profundamente destrutivas para a humanidade.

O romance é bem construído e mantém o interesse do início ao fim. A narrativa se desloca por diferentes espaços — Suíça, Egito antigo e contemporâneo, São Paulo, Estados Unidos, Amazônia — compondo um mosaico global que reforça a ideia de interdependência planetária. Nada acontece de forma isolada: crises ambientais, decisões financeiras, avanços tecnológicos e colapsos éticos se entrelaçam.

Entre os temas abordados estão o meio ambiente, a inteligência artificial, o mercado financeiro e, de maneira mais profunda, questões filosóficas como ética, moral, vida e morte. Nicolelis não oferece respostas fáceis nem soluções messiânicas. O que ele propõe é um exercício de lucidez: reconhecer que o conhecimento científico já aponta limites claros e que a insistência em ignorá-los pode nos conduzir a um ponto de não retorno.

Nada mais será como antes é, acima de tudo, um livro de advertência. Ao recorrer à ficção, Nicolelis amplia o alcance de uma mensagem que há muito circula nos meios científicos, mas raramente atravessa o debate público com a urgência necessária. Trata-se de uma leitura envolvente, inquietante e necessária — daquelas que não se encerram na última página, mas continuam ecoando depois.



Miguel Nicolelis nasceu em São Paulo em 1961. É um médico, neurocientista e pesquisador brasileiro amplamente reconhecido como como  um dos pioneiros mundiais no campo das interface cérebro-computador e das neuropróteses. 

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