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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

LIVRO: NADA

 

NADA

CARMEN LAFORET

ALFAGUARA – 1ª ED. – 2008

Tradução: Rubia Prates Goldoni

264 páginas

 PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – ESPANHA 


Bastou começar a ler e fui fisgada pela escrita de Carmen Laforet. Uma jovem chega a Barcelona, vinda do interior da Espanha, para estudar. Vem com todos seus sonhos, imaginação, esperanças de encontrar em uma cidade grande, liberdade e possibilidades novas e se depara com um quadro que destrói, em segundos, muitas dessas imagens.

Laforet não precisa explicar nada, basta a descrição da casa da família e a recepção dos parentes que a acolhem. Um apartamento claustrofóbico, uma luz verde mortificante, que transforma o ambiente em algo fúnebre, lustres com apenas uma lâmpada, teias de aranha, e a sujeira no banheiro que não tem água quente.

A recepção dos parentes, as expressões faciais, as posturas engolfam a jovem e lhe tiram toda a alegria e as esperanças. Uma família de classe média baixa, que não dispõe dos confortos de uma burguesia, mas também não chega a ser miserável e, no entanto, se acha superior aos pobres e os desprezam.

É pós-guerra civil espanhola e Segunda Guerra Mundial, há muitos traumas e consequências que vieram dos conflitos. Ramón foi preso e torturado; Juan, o outro irmão, casou-se com uma jovem que não condiz com o que a família chama de moça direita. Angustias, nome, aliás, bem revelador, sofre de uma paixão reprimida e se transformou em uma pessoa amarga, autoritária e controladora.

Há muita mesquinhez, uns cuidando da vida dos outros, se intrometendo, provocando. Há um momento em que é Natal e Andrea olha pela janela. Tudo iluminado, lojas decoradas, famílias passeando, a sensação de uma época de felicidade e união familiar, festas, comidas, presentes, mas dentro do apartamento tudo é lúgubre, frio, estranho.

Angustias finalmente decide deixar a casa e ir para um convento. Para Andrea, é um alívio, uma vez que acredita que terá mais liberdade.

Após a partida de Angustias, é a segunda parte do livro. Andrea agora precisa ajudar financeiramente em casa, mas opta por apenas pagar pelo pão do café da manhã. O quarto, a avó a dispensa de pagar.

Andrea conhece Ena na Universidade e se tornam boas amigas, porém Ena é uma jovem de uma família mais próspera do que a de Andrea. Com o dinheiro que agora recebe em mãos, ao invés de guardar para se alimentar, ela gasta quase tudo nos três primeiros dias, comprando flores e presentes para a família de Ena. No fundo, sem ao menos perceber, repete a própria família, que sempre quer parecer mais do que é. Com isso ela começa a passar fome.

Um dia Ena vai atrás dela no apartamento. Ela não está, e Ena conhece o Tio Ramón. Quando Andrea chega, fica notório o desagrado que ela sente ao ver Ena ali e o ciúme perceptível que sente dela com Ramón. Com isso, Ena decide se afastar e lhe pede para não ir mais à casa dela nas tardes da semana e também acaba não emprestando mais livros para que ela possa fazer suas traduções, o que obriga Andrea a frequentar a biblioteca.

A partir desse momento, irão se desenrolar situações que levarão Andrea a uma solidão e a um estado depressivo diante de tudo que lhe acontece de real e de suas ilusões ao vir para Barcelona. Segredos virão à tona e, com isso, quem é Ramón e toda sua crueldade se mostrarão.

Há uma descrição de uma paixão obsessiva de uma adolescente que é muito bem escrita, nos levando a sentir a angústia e o desespero de uma mulher.

A vida medíocre e toda a violência que está presente na família, a relação abusiva de Juan e Glória. Uma avó que sempre defendeu seus filhos homens em detrimento das mulheres e que não é capaz de enxergar o quanto eles são violentos e também covardes. A pobreza e a fome, e a falta de uma união familiar, convivência e um mínimo de relação familiar estão presentes no livro todo. Do outro lado, as famílias ricas de Barcelona e toda sua hipocrisia e vida absolutamente distante do bairro onde vive a família de Andrea.

Um livro que causa impacto, muito bem escrito, que nos faz sentir na pele as situações e o desespero de uma adolescente que tinha sonhos e se viu diante de uma realidade cruel e fria, e que ao partir dali ela simplesmente percebe que não leva Nada dali. 

Carmen Laforet nasceu em Barcelona, Espanha, em 1921 e faleceu em Madrid, Espanha, em 2004. Foi uma escritora espanhola. 



sábado, 27 de junho de 2026

LIVRO: A MULHER NO CORPO DE XAMÃ

 

A MULHER NO CORPO DE XAMÃ: O feminino na religião e na medicina

BARBARA TEDLOCK

ROCCO – 1ª ED. – 2008

Tradução: Marisa Motta

350 páginas

Barbara Tedlock resgata o papel central das mulheres no xamanismo. Ela própria neta de uma parteira e herborista ojibwe e antropóloga, procurou responder algumas perguntas que fazia a si mesma, principalmente: “Existem mulheres xamãs?”.

Iniciada no xamanismo pelos maias K’iche’ do planalto da Guatemala, procura resgatar o papel das mulheres no xamanismo, frequentemente desconsiderado por muitos pesquisadores homens. Durante muito tempo, os estudos sobre o xamanismo foram conduzidos majoritariamente por homens, que associavam essa prática quase exclusivamente ao universo masculino.

Em 1924, em um sítio arqueológico localizado na atual República Tcheca, conhecido como Doní Vestonice, foi encontrado um túmulo que continha o corpo de uma mulher de aproximadamente 40 anos, deitada em posição fetal sobre o lado direito. O corpo fora pintado de vermelho (ocre) e coberto por duas escápulas de mamute. Havia a presença de uma lança de sílex junto à cabeça e o corpo de uma raposa em uma das mãos. Com esses elementos identificou-se indícios claros que se tratava de uma xamã.

Segundo Tedlock, “o registro escrito mais antigo de uma mulher xamã real na América é de Ix Balam K’ab’al Xook, ou lady do Jaguar Shark Lineage. Essa mulher da nobreza maia viveu na antiga cidade de Yaxchilán, onde hoje é Chiapas, no México.”

A autora também demonstra como homens pesquisadores desconsideraram as mulheres como xamãs. Eram vistas como curandeiras ou parteiras, mas jamais como xamãs, o que ela demonstra ser um erro. A maioria dos xamãs foram e são mulheres.

Por fim, a autora propõe uma reflexão sobre a necessidade de a humanidade melhorar sua relação consigo mesma e com o planeta. O Xamanismo não é apenas uma forma de cura, mas um saber que entrelaça história, medicina, espiritualidade e psicologia, convidando o leitor a repensar o papel das mulheres nessas tradições e a própria relação entre ser humano e natureza.


Barbara Tedlock nasceu em Battle Creek, Michigan, EUA, em 1942 e faleceu em Rio Rancho, Novo México, EUA, em 2003. Foi uma antropóloga cultural e onirologista (estudo dos sonhos) estadunidense. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

LIVRO: A DÁDIVA MAIOR


 A DÁDIVA MAIOR

A vida e a morte corajosa da Irmã Dorothy Stang

BINKA LE BRETON

GLOBO – 2008

248 páginas 

A Amazônia — esta floresta tropical de dimensão continental que abrange Amazonas, Pará, Acre, Rondônia, Roraima, Maranhão, Tocantins, Mato Grosso e Amapá, estendendo-se ainda pelo Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela e Guianas — aparece neste livro não como paisagem exótica, mas como território em disputa. Um espaço violentado por grileiros, madeireiros e garimpeiros ilegais, protegido por pistoleiros, enquanto, do outro lado, resistem posseiros, assentados, ribeirinhos e povos indígenas. Muitos acabam mortos, expulsos ou escravizados pela exploração do trabalho. É essa realidade brutal que atravessa a narrativa sobre a vida e o assassinato de Dorothy Stang.

Binka Le Breton reconstrói a trajetória dessa mulher extraordinária com precisão e sensibilidade. Dorothy surge como alguém profundamente indignada diante da crueldade e da devastação, mas também como uma figura prática, obstinada, que acreditava que educação é uma forma de libertação. Ensinar a ler, escrever, compreender direitos,  isso, mais do que discursos, ameaçava os poderosos. Não por acaso, escolas de taipa e telhado de palha erguidas pelas comunidades eram incendiadas, repetidas vezes, como aviso.

O livro também evidencia as sucessivas ondas de migração estimuladas pelo governo militar em nome do “desenvolvimento” da Amazônia. Famílias inteiras eram atraídas para a região com promessas vagas e, uma vez lá, ficavam abandonadas: sem terra regularizada, sem infraestrutura, sem proteção. Dorothy abraça a causa dessas pessoas e passa a lutar junto à justiça e ao Incra para que pudessem ao menos garantir um pequeno pedaço de terra para morar, plantar e sobreviver.

Essa luta, no entanto, confrontava diretamente os interesses dos grandes fazendeiros. Eles não queriam convivência, nem reforma agrária, nem justiça social, queriam a terra. Terras públicas apropriadas ilegalmente, transformadas em propriedade privada por meio de violência e de conchavos políticos. Desmata-se tudo, planta-se uma ou duas vezes até o solo virar areia, e depois transforma-se o território em pasto para bois, sob o discurso da “produtividade”.

Contra essa lógica predatória, Dorothy propunha um modelo de agrofloresta: plantar mantendo a floresta viva. Um projeto simples, sustentável e profundamente subversivo, porque colocava em xeque o modelo econômico dominante. Ela incomodava porque orientava, esclarecia, organizava. Porque caminhava ao lado dos mais pobres e não aceitava o silêncio como forma de sobrevivência.

Seu assassinato, brutal e anunciado, é apresentado no livro não como um fim, mas como um ponto de inflexão. Dorothy Stang foi morta porque ousou permanecer. O Brasil retratado aqui, e que infelizmente ainda persiste, é o país que mais mata ambientalistas no mundo. Os executores foram presos; os mandantes, embora identificados, jamais punidos.

O que eles não previram é que sua morte se tornaria semente. Em vez de silenciar a luta, fortaleceu-a. A Dádiva Maior é, assim, mais do que uma biografia: é um testemunho incômodo sobre o Brasil profundo, sobre a violência estrutural no campo e sobre o preço pago por aqueles — e sobretudo aquelas — que ousam defender a vida onde só se reconhece lucro.


Binka Le Breton nasceu em Wiltshire, Reino Unido. É uma escritora britânica. 


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

LIVRO: KAFKA À BEIRA-MAR

 


KAFKA À BEIRA-MAR

HARUKI MURAKAMI

ALFAGUARA – 1ª ED. 2008

Tradução: Leiko Gotoda 

576 páginas 

PAÍS - JAPÃO 

Kafka à Beira-Mar é um romance que resiste à resenha tradicional. Murakami constrói uma narrativa deliberadamente aberta, na qual explicações definitivas parecem sempre escapar. O livro não se oferece como enigma a ser resolvido, mas como experiência a ser atravessada. Cada leitura produz sua própria interpretação e talvez seja justamente aí que resida sua força.

Apesar dessa abertura radical, o romance está longe de ser decepcionante ou disperso. Ao contrário: prende o leitor do início ao fim de suas mais de quinhentas páginas, com uma fluidez quase hipnótica. É uma leitura que envolve, conduz e perturba, mesmo quando não se deixa compreender plenamente. Murakami parece apostar menos na clareza narrativa do que na intensidade da atmosfera.

A obra é atravessada por múltiplas referências literárias e filosóficas, com destaque para o mito grego de Édipo, que funciona como uma espécie de eixo subterrâneo da narrativa. Ao mesmo tempo, o romance articula elementos da modernidade ocidental com lendas e imaginários japoneses, criando um espaço híbrido, onde tradição e contemporaneidade coexistem sem hierarquia.

A história se desenrola a partir de dois personagens centrais. Kafka Tamura é um garoto de quinze anos que foge de casa em razão da relação conflituosa com o pai, que o amaldiçoa com uma profecia incestuosa: Kafka estaria destinado a dormir com a mãe e a irmã, ambas desaparecidas desde que ele tinha apenas quatro anos, deixando-o para trás. Essa maldição ecoa o mito de Édipo, mas é deslocada para um registro psicológico, simbólico e contemporâneo.

O segundo personagem é Nakata, um idoso que, ainda criança, passou por uma experiência inexplicável que o incapacitou de ler e escrever, mas lhe concedeu dons extraordinários: falar com gatos e antecipar acontecimentos fora da ordem comum das coisas. À primeira vista, Kafka e Nakata não compartilham nada — idade, história, linguagem, mundo. Ainda assim, suas trajetórias correm em paralelo e acabam se cruzando de maneira enigmática, como se obedecessem a uma lógica que ultrapassa a causalidade linear.

Murakami constrói, assim, um romance sobre solidão, amizade, amadurecimento, culpa e destino. Mas esses temas não aparecem como conceitos fechados; surgem como estados de espírito, como forças que atravessam os personagens sem jamais se estabilizar. O destino, em especial, não é apresentado como fatalidade clara, mas como algo nebuloso, que se cumpre justamente quando tenta ser evitado.

Kafka à Beira-Mar não pede compreensão total. Pede entrega. É um livro que se move no limiar entre o real e o onírico, entre o mito e a vida cotidiana, convidando o leitor a habitar esse espaço de incerteza. Ao final, talvez reste menos a sensação de ter entendido tudo e mais a de ter sido transformado pela travessia.

Haruki Murakami nasceu Fushimi, Quioto no Japão em 1949. É um escritor e tradutor japonês. 


segunda-feira, 23 de maio de 2016

LIVRO: DEPOIS DA RELIGIÃO - LUC FERRY E MARCEL GAUCHET


DEPOIS DA RELIGIÃO

O que será do homem depois que a religião deixar de ditar a lei?

LUC FERRY E MARCEL GAUCHET

DIFEL – 2008

Tradução: Nícia Adan Bonatti

108 páginas



Trata-se do debate ocorrido em Paris, no Collège de Philosophie, em 09 de Janeiro de 1999, entre Luc Ferry, humanista secular e não crente e Marcel Gauchet, historiador cultural e socialmarxista e ateu. 

Apesar de discordarem do que vai ocorrer depois que a religião deixar de ditar a lei, concordam num ponto, que a religião irá permanecer, assim como o sagrado. Gauchet dá ao sagrado um caráter milenar de sustentação do humano; Ferry nos fala do religioso que passa a ser algo privado, não atuando mais no social. 

Para Gauchet o mistério se mostra no desconhecido de nós mesmos, e somos confrontados com isto. O sagrado insiste em se manifestar por mais que tentemos relativizar. Ele chama esta insistente manifestação de "Absoluto Terrestre". Ferry fala sobre o fato de sermos capazes de decifrar enigmas fora da religião, até mesmo dando nomes como este, porém discorda destes vocabulários e prefere manter o vocabulário religioso pois acredita estar aí a verdade religiosa, mantendo assim uma continuidade na busca de sabedoria. Ele diz que os textos éticos da atualidade não passam de repetições e tradução dos textos antigos, como os que os cristãos nos legaram.

É um livro que nos traz uma visão do que a religião ainda representa, mesmo para os não crentes há algo de religioso ou sagrado que sempre permanece para o ser humano. 

Luc Ferry nasceu em 1951 em Colombes, França. É um filosofo, foi Ministro da Educação na França.


Marcel Gauchet nasceu em 1946 em Poilley, França. É historiador, filosofo e sociólogo. 

domingo, 31 de agosto de 2014

LIVRO: AMOR EM MINÚSCULA - FRANCESC MIRALLES


AMOR EM MINÚSCULA

FRANCESC MIRALLES

RECORD – 2008

Tradução: Luís Carlos Cabral

283 páginas

PAÍS – ESPANHA


Título original: Amor en minúscula

Um livro singelo sobre a solidão, o amor e a amizade.

Samuel é um professor de literatura alemã que vive sozinho. É ano novo e ele pensa que novamente irão se repetir os mesmos 365 dias sem mudanças em sua vida solitária. Porém terá uma surpresa quando um gatinho aparecer na sua porta. Inicialmente ele pensa em como se livrar do bichano, mas finalmente se renderá e o adotará dando-lhe o nome de Mishima.

A partir deste gesto sua vida irá mudar. Será através de Mishima que ele conhecerá Titus, seu vizinho de cima, com quem nunca trocou uma palavra sequer. Aos poucos irá notando o mundo a sua volta, e perceberá que o acaso não existe, mesmo quando parece um absurdo o que acontece. Cruzará na rua com Gabriela, seu primeiro amor de infância, conhecerá Valdemar num café.

Com Mishima, Titus e Valdemar, Samuel irá reaprender a viver, a acreditar na vida e que tudo é possível, desde que se sai de sua concha protetora e deixe a vida fluir. Ele que não conseguia suportar ir na casa da irmã e do cunhado por serem pessimistas demais aprenderá a agir exatamente ao contrário do que fazia, e terá um dia ótimo com eles. Verá o quanto ele tem medo do amor e o quanto é difícil se deixar amar, afinal é mais fácil se defender. O beijo de borboleta na infância que se transforma no traço que lhe desperta a paixão e que ficou no seu inconsciente despertando assim que viu Gabriela na rua reconhecendo-a de imediato.

Apesar dos clichês, este pequeno livro nos ensina a viver de uma maneira simples, sem levantar murros, e acreditando que cada dia pode ser diferente do outro, desde que estejamos abertos à vida. Nem tudo são flores, mas isto faz parte também do viver.

Francesc Miralles nasceu em 1968 em Barcelona, Espanha

terça-feira, 29 de julho de 2014

LIVRO: HISTÓRIAS DE DIVÃ - GABRIEL ROLÓN


HISTÓRIAS DE DIVÃ

Oito relatos de vida

GABRIEL ROLÓN

PLANETA DO BRASIL – 2008

Tradução: Sandra Martha Dolinsky

260 páginas 

Título Original: Historias de Divan

São oito relatos de pacientes de Gabriel Rolón. O uso da palavra que permite a cura dentro de uma análise, as dores, sofrimentos, dúvidas, os conflitos. Quando alguém procura uma análise está em busca de ajuda para desvendar aquilo que só ele sabe, mas que não consegue acessar e para isto o analista está ali, na sua escuta flutuante ouvindo as associações livres, não "o que" diz o paciente, mas sim, "como diz".

Na infância nos ocorrem muitas coisas e algumas delas acabam se tornando traumáticas e são recalcadas por que não podemos admitir isto. A análise leva a simbolizar isto, a finalmente colocar em palavras o que está oculto e se manifestando em sintomas. Quando o sintoma causa dor, sofrimento, dificuldades na vida, as pessoas buscam ajuda, e é neste momento que ele entra pela porta do analista e se deita no divã, ou cara a cara, conforme o caso.

Neste livro há um relato que dói em todos nós, é o relato de Majo, e em como algumas vezes o psicanalista também deve enfrentar a dor, a dor da perda, da impossibilidade de fazer algo por mais que o deseje.

Não é um livro apenas para profissionais, pois todos que estão neste livro são seres humanos como qualquer um de nós, e o relato de Rolón é simples, verdadeiro, poético, como um romance, que é como tecemos nossa vida, um ficção, um romance.

É o segundo livro que leio de Rolón. E este foi transformado em uma minissérie que podemos encontrar no youtube.
Gabriel Rolón 

quarta-feira, 9 de julho de 2014

LIVRO: MADAME FREUD - NICOLLE ROSEN



MADAME FREUD – Um retrato íntimo e revelador do pai da psicanálise pelo olhar de sua esposa.

NICOLLE ROSEN

VERUS EDITORA – 2008

Tradução: Marisa Rossetto

210 páginas

PAÍS – FRANÇA

Título original: Martha F.


Nicolle Rosen, uma psicanalista, interessa-se por Martha Freud. Afinal quem seria esta mulher que viveu ao lado de Sigmund Freud e que parece não existir, exceto pelo fato de elogios sobre a vida doméstica, assegurando à Freud o sossego necessário para criar sua grande obra.

Rosen então resolve dar a palavra à Martha, e para que ela fale precisa de um interlocutor e assim surge Mary que ela conhece no dia do sepultamento de Freud e com quem irá manter uma correspondência assídua falando sobre sua vida e o que pensava.

É um romance porém está baseado em relatos, cartas, biografias, fotos, vários livros sobre a história da psicanálise, mas obviamente que os vazios serão preenchidos por palavras que poderiam ter sido de Martha.

Penso que se trate de um livro que deveria ser lido para se compreender o que é viver à sombra de alguém com tanto reconhecimento e que estava sempre rodeado de admiradores, discípulos e ocupava o lugar do pai, mestre, e também o de homem através de todas as transferências amorosas que suscitou. E Martha? o que ela fez de sua vida? de seu desejo?

Há passagens no livro que nos faz refletir sobre esta questão de amar e se sacrificar ao objeto amado, abrindo mão daquilo que somos e desejamos. Martha era judia e seguia a tradição e rituais em sua família, mas teve que abrir mão de tudo isto porque Freud não queria isto. Nunca era consultada para as grandes decisões e sofreu com a rivalidade com sua irmã Minna e com sua filha Anna Freud. Além de ter que lidar com a mãe autoritária de Freud a quem este era totalmente dedicado.

Freud cresceu sendo o preferido, adorado, com tudo correndo conforme sua vontade e assim permaneceu tendo grande dificuldade de lidar com aqueles que não aceitavam se submeter, como foi o caso de Jung. Até mesmo suas irmãs tinham que abrir mão de seus desejos por ele,como Anna que teve que desistir de seu piano pois o incomodava.

Ele era excessivamente ciumento e possessivo, afastou de Martha todos aqueles que ele considerava como rivais, seu irmão Eli, sua mãe, seus amigos. Mas por que ela aceitou isto? O amor? para agradá-lo? para ser amada por ele?

Mas a questão é Martha, na verdade nunca saberemos o que realmente ia em seu íntimo, mas será que foi feliz? Uma mulher que aos 35 anos tem que enfrentar a decisão de abstinência sexual por parte de seu marido, uma mulher que não participava de nada de sua vida profissional onde tantas outras mulheres estavam, que não acompanhava Freud em suas viagens, que não podia emitir nenhuma opinião.

Mas por que ela aceitou tudo isto? por que não se impôs, não lutou por seu desejo? É este o questionamento no livro quando ela está sozinha após a morte de Freud aos 85 anos. Pode uma mulher ser feliz apenas por ser casada com um homem notável?

A questão é até que ponto Martha sentiu o que a maioria das mulheres sentiria hoje, ou isto não foi uma questão no tempo em que ela viveu. Mas é válido tentar dar voz a esta mulher, uma vez que ela nunca pode falar enquanto esteve viva, tentar pelo menos dar a ela um reconhecimento após ter permanecido na obscuridade por toda sua vida.

Há passagens no livro onde é perceptível a interpretação dos fatos por Nicolle Rosen, uma visão sua sobre determinado assunto ou fato, mas que também são válidos para que se processe uma reflexão.


Nicolle Rosen é psicanalista e vive em Paris. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

LIVRO: UMA VONTADE LOUCA DE DANÇAR - ÉLIE WIESEL



UMA VONTADE LOUCA DE DANÇAR

ÉLIE WIESEL

BERTRAND BRASIL – 2008

Tradução: Jorge Bastos

308 páginas

PAÍS – ROMÊNIA

Doriel procura uma psicanalista para ajudá-lo a vencer o que ele considera sua loucura. Órfão de pais, seus irmãos foram mortos na Segunda Guerra Mundial pelos nazistas, foi acolhido pelo seu tio que o levou para os Estados Unidos, mas carregou consigo todas as marcas e traumas do que lhe aconteceu.

Um vazio imenso ao lado de um excesso de memória, transborda mas para onde? a sensação de estar enlouquecendo como se isto pudesse salvá-lo de suas lembranças e marcas, protegê-lo. Nunca quis se casar e ter filhos, não queria colocar filhos no mundo para um outro matá-los. Aprofunda-se no estudo, busca respostas que não encontra.

Mas se ele tem um excesso de memória, tem também uma cripta traumática, algo que ele não consegue acessar, inefável, obscuro. Thérèse Goldschmidt uma renomada psicanalista fará de tudo para ajudá-lo a entrar neste lugar obscuro e apesar de achar que não o conseguiu o resultado como ocorre nas análises surge quando menos se espera e sem compreensão de como ocorreu.

Doriel tem medo de amar, tem medo da perda e levará anos para poder se entregar e finalmente sentir uma vontade louca de dançar.

Um livro que trata dos sobreviventes do nazismo, de seus traumas e marcas profundas, da culpa que sentem por terem sobrevivido diante da perda de seus entes queridos, das rupturas que sofreram, das marcas no corpo e na mente. Não é possível ultrapassar isto, é preciso aceitar e transformar.


Élie Wiesel nasceu em 1928 em Shiguetu Marmatiei na Romênia, localidade que fez parte da Hungria entre 1941 e 1945. Judeu, sobreviveu aos campos de concentração. Foi deportado junto com sua família para Auschwitz-Birkenau, onde sua mãe e irmã mais nova morreram. Foi enviado junto com o pai para Buchenwald onde perdeu o pai. Somente depois de libertado soube que duas irmãs mais velhas também sobreviveram. Inicialmente guardou silêncio, mas após uma entrevista com François Mauriac que insistiu que relatasse sua experiência escreveu Noite e sua obra foi então dedicada a resgatar a memória do Holocausto. Recebeu o prêmio nobel da paz em 1986 pelo conjunto de sua obra. Wiesel faleceu após essa publicação em Manhattan, Nova Iorque, EUA, em 2016.

domingo, 26 de janeiro de 2014

LIVRO: DOLCE AGONIA - NANCY HUSTON


DOLCE AGONIA

NANCY HUSTON

L&PM EDITORES – 2008

Tradução: Cássia Zanon

240 páginas

PAÍS – CANADÁ

 Quem relembra o jantar de Ação de Graças que Sean Farrell oferece aos seus onze amigos é Deus. Se na "Menina que roubava livros" era a Morte, aqui temos Deus, porém, qual a diferença? pois se é Deus que determina o fim de cada um deles e os chama para si?

Logo no início no Prólogo no céu Deus fica espantado com sua própria criação, mesmo conhecendo tudo a respeito de cada um deles, são capazes de surpreendê-Lo. "Cegos, cegos... eternamente esperando e tateando, esforçando-se por acreditar na minha bondade, descobrir o sentido de seus destinos, entender os meus planos. Simplesmente não conseguem evitar a busca por um significado."

E lá estão eles reunidos para o jantar de Ação de Graças e enquanto se desenrola o jantar entre conversas, risos, piadas, lembranças, também cada um deles irá pensar em episódios de suas vidas, a dor, a velhice, a doença, a morte, a perda. A cada final de um capítulo, Deus nos contará como um deles irá voltar  para ele, independentemente do que eles desejam, do que sonham, a vida termina um dia, e nem sempre na hora que eles considerariam a melhor, a esperada. Neste ponto, Deus nos mostra uma faceta nada bondosa, uma vez que devido sua lógica do que traçou para cada um, dentro do universo que criou, ele os arrebata em momentos que impedem a alegria de uma criança, um reencontro, um momento de amor, mas em outros momentos Ele chega a tempo para fazer parar um sofrimento, uma dor que está se tornando intolerável.

Todos ali tiveram bons momentos, mas humanamente conseguem se apegar mais aos maus momentos, mesmo que ele tenha sido só um instante, mas outros, carregam traumas que são difíceis de esquecer. Como é fácil e perigoso julgar ao outro sem saber nada dele. Como um episódio, uma história é cômico para uns e desperta algo horrível para o outro. Como uma simples palavra - avião - pode trazer boas e más lembranças.

Um grande painel do que é o ser humano e do mundo ali, entre quatros paredes, como uma pintura, como uma Santa Ceia, muito bem construído por Huston.

Nancy Huston nasceu em 1953 na cidade de Calgary, Canadá. O abandono por parte de sua mãe quando tinha seis anos a levou para a literatura. Ela escreve principalmente em francês e é sua própria tradutora para o inglês. Obteve o Mestrado em Paris na École de Hautes Études en Sciences Sociales tendo como orientador Roland Barthes. Ela vive em Paris com seu marido Tzvetan Todorov e seus filhos.

sábado, 25 de janeiro de 2014

LIVRO: A MÃO DO AMO - TOMÁS ELOY MARTÍNEZ


                                     

A MÃO DO AMO

TOMÁS ELOY MARTÍNEZ

COMPANHIA DAS LETRAS – 2008

Tradução: Sérgio Molina e Lucas Itarambi

160 páginas 

Título original: La mano del amo

PAÍS - ARGENTINA 

Arrepiante, a história de Carmona incomoda, tira do lugar. Uma mãe - Mãe, voraz, castradora, que devora tudo e a todos, que visa exclusivamente ao seu desejo. Sua força é tão grande que mesmo depois de morta ela é introjetada pelo filho e é vista nos gatos que deixou de herança. Ela é uma coleira no pescoço do filho.

O livro descreve como somos surrupiados da vida pela força do outro, seja pelo desejo de ser amado, seja pelo medo, seja por desejar ser como este outro. Um redemoinho que nos engole, raízes de uma planta que nos suga para o fundo presos nas suas teias. Não conseguimos romper por medo de morrer, de perder o que nunca tivemos. No fundo o que queremos é atender ao desejo deste outro, desta Mãe. Carmona queria fazê-la feliz.

A história começa com a morte de "Mãe", é assim mesmo, Carmona nunca nomeia ou a chama de a mãe, mamãe, é Mãe, Pai e gêmeas, suas irmãs. Ele inicia um mergulho em si mesmo, contando e recuperando o pouco que pode na primeira pessoa ou na terceira pessoa, como se fosse um outro que fala dentro dele, talvez aquele que ele gostaria de ter sido e não pode.

Mãe, que poderia equivaler a um ditador, e como na política e no social, são poucos os que fazem parte da resistência correndo todos os riscos que isto impõe, inclusive morrer. Outros partem para o exílio, talvez voltem, ou não. Poucos são os que se libertam de Mãe.

Mães que precisam ser derrotadas, castradas, mas raramente o são porque não permitem que quem possa fazê-lo se aproxime. Geralmente Pai é fraco e não tem coragem de enfrentá-la, assim como os filhos. A história de Carmona é a psicose, ele tem delírios, ouve vozes, conversa com os gatos como se fossem humanos e os escuta.

 Ele tem um dom excepcional, uma voz magnífica, que segundo Mãe deve à ela, que chega inclusive a querer se apoderar dela - ele poderia gravar e colocariam no nome dela como a cantora. A única tentativa de se afastar é interrompida porque Mãe apesar de dizer que ele pode fazer o que quer, sofre um ataque do coração e seu primo cancela o recital e lhe diz que tem que voltar, o que ele faz, para encontrar Mãe já recuperada.

O espaço onde se conta a história é pequeno, como é a vida de Carmona, restrita, fechada. Nem mesmo a vala que vai até o mar poderia ser usada, ela está oculta agora, não há mais trilhas que levam até lá. Uma vez no deserto ele pensa em ficar ali, mas morreria. A presença dos gatos, as alucinações, o delírio, o desejo de matá-los, ele bem que tenta, mas não consegue, não consegue matar Mãe, e se verá frente aos seus recalques, a tudo que reprimiu dentro de si. Tenta domá-los e ensaiá-los para uma apresentação, como se estivesse domando Mãe, mas também não consegue. Como poderia? como pode se afastar? ter sua própria vida de acordo com seu desejo, ele não pode desobedecer aos pais, está preso na coleira amarrado à uma árvore, e terá que lamber a mão do amo para sempre.

 Tomás Eloy Martínez nasceu em 1934 em Tucumán, Argentina e faleceu em 2010 em Buenos Aires. Formado em Literatura Espanhola e Latino-americana, foi jornalista e escritor.

domingo, 5 de janeiro de 2014

LIVRO: A ELEGÂNCIA DO OURIÇO - MURIEL BARBERY



A ELEGÂNCIA DO OURIÇO

MURIEL BARBERY

COMPANHIA DAS LETRAS – 2008

Tradução: Rosa Freire D’Aguiar

352 páginas

PAÍS – FRANÇA 

Título original: L'élégance du hérisson 

Descobri o livro numa livraria no aeroporto enquanto aguardava meu voo, obviamente não resisti e o comprei de imediato e não me arrependi, o livro é maravilhoso.
Um prédio em Paris, número 7 da Rue de Grenelle, apartamentos de luxo onde vivem além dos proprietários a zeladora Renée, uma mulher séria, que nos parece de mal com a vida, cumpre com seus deveres e sabe seu lugar em relação aos moradores do prédio. Mas atenção, as aparências podem enganar, enquanto os moradores que são considerados distintos e cultos mas vivem na mediocridade do esnobismo, de serem algo devido sua classe social, Renée, que nos parece uma pessoa simples e ignorante pode revelar que é muito mais que isto. 
Ela vive no térreo, com seu gato, Leon, e isto já poderia ser uma pista, seria Leon Tolstoi? O que ela esconde que não conseguimos perceber? Ela é uma amante dos livros, tem uma biblioteca oculta em seu apartamento. Encontra nos livros o que a vida não lhe oferece, puro deleite e amor às artes. 
Mas neste prédio temos também Paloma, uma adolescente que vive com sua família, um pai ausente, um figurão, a mãe uma dondoca formada em Letras e a irmã que se considera uma filosofa. Ela decide que a vida não vale a pena ser vivida e que irá se suicidar no dia do seu aniversário de treze anos, a menos que descubra um sentido para a vida. Pelo menos ela tenta, escreve dois diários que denomina: Pensamentos profundos e o Diário do movimento do mundo. Encantei-me tanto com estes diários que acabei criando os meus. 
Tanto Renée como Paloma vivem camufladas, não mostram o que são e desejam, enquanto os outros vivem com suas máscaras. Mas ambas acabam se aproximando e se descobrindo, passam a trocar reflexões, pensamentos, conversam, aqui sim, duas filosofas que duvidam e se encantam. 
Eis então que surge um novo morador, o Sr Kakuro Ozu, que é o oposto de todos ali, um oriental bem humorado, que parece ter a sabedoria da vida. Ele logo percebe que Renée e Paloma se escondem por baixo de uma capa de proteção e se aproxima, principalmente de Renée. Ele lentamente saberá como trazê-las à vida e mostrar que ela realmente vale a pena ser vivida, mesmo que nisto tenha a dor, sofrimento e muitos espinhos. Ele saberá como se aproximar dos ouriços o suficiente para lhes transmitir calor, me lembrando dos porcos espinhos de Schopenhauer. 

Recomendo. 

Muriel Barbery nasceu em 1969 em Casablanca, Marrocos é formada em Filosofia. Ex aluna da École Normale Supérieure, atualmente vive no Japão. 

domingo, 29 de dezembro de 2013

LIVRO: UMA MULHER EM BERLIM - ANÔNIMA



UMA MULHER EM BERLIM

Diário dos últimos dias de guerra: 20/04/1945 a 22/06/1945      

ANÔNIMA

RECORD – 2008

Tradução: Renato Zwick

288 páginas

Título original: Eine Frau in Berlin

Condição da mulher na Alemanha pós-guerra.- 20 de abril a 22 de junho de 1945

Final da segunda guerra, os russos estão na Alemanha. O livro é escrito por uma jornalista que prefere ficar anônima, sobre os traumas da guerra, estupros coletivos e a prostituição como forma de sobrevivência. É um relato marcante, triste, trágico da situação das mulheres e de como elas tiveram que agir no final da guerra, entregando as mais jovens para os homens para se protegerem e terem alimentos. Da mesma forma, muitas para poderem comer, dar de comer aos filhos, parentes e amigos também se prostituíram. É um lado da guerra que é pouco comentado, ou até mesmo sabido por quem não estava lá. Apesar do trágico, é um belíssimo livro sobre a realidade cruel da situação da mulher no fim da segunda guerra e tantas outras guerras.

O livro foi adaptado para o Cinema em 2008 com direção de Max Faberbock.

Segundo pesquisas os russos teriam violentado em torno de 100 mil mulheres no final da Segunda Guerra e 10 mil delas se suicidaram pelo temor e humilhação do estupro. É um assunto tabu que começa a vir à tona.

Quando este livro foi publicado na Alemanha em 1954 a reação foi considerar isto um ultraje à mulher alemã. Que isto não ocorreu e que ou ela havia exagerado ou ela sim, provocou os soldados russos. As mulheres queriam esquecer e o silêncio permitia viver mais facilmente. Os homens também não queriam saber disto, pois ao voltarem da guerra tinham muita dificuldade em aceitar o que aconteceu com suas mulheres, mães e irmãs.

A questão sobre a vingança dos russos sobre os alemães pelas atrocidades cometidas com seu povo e suas famílias existe, mas não é apenas isto, há outros fatores que levaram ao estupro, além de ser um butim de guerra. O problema é o silêncio que se fez e os traumas que permaneceram e que passam por herança psíquica aos filhos.

Atualmente atribui-se a Marta Hiller, uma jornalista, a autoria do livro.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: A VONTADE E A FORTUNA - CARLOS FUENTES



A VONTADE E A FORTUNA

CARLOS FUENTES

ROCCO -2008

Tradução: Carlos Nougué

448 páginas

PAÍS – MÉXICO 


Começa pelo narrador estar morto, é sua cabeça cortada e lançada numa praia que conta sua história. Estamos diante do realismo mágico, fantástico latino americano. Um imaginário que existe devido as crenças, histórias, lendas, mitos, pois a ciência e a razão  ainda não se apoderaram  de nós totalmente.
O destino ou a roda da fortuna de um lado e a vontade e o necessário do outro.

Por ignorar o destino capitulam à ele. O poder do dinheiro e o poder político. Quem escolhe, é herege, como o Pe. Filápater ou Espinosa. Alguns conseguem transitar no meio como o advogado que serve aos dois lados. Uma alegoria do México moderno.

Carlos Fuentes nasceu em 1928 na Cidade do Panamá e faleceu em 2012 na Cidade do México. Foi um escritor e diplomata mexicano.

LIVRO: A SOMA DOS DIAS - Memórias - ISABEL ALLENDE





A SOMA DOS DIAS

ISABEL ALLENDE

BERTRAND BRASIL – 2008

Tradução: Ernani Ssó

378 páginas

PAÍS – CHILE

 


Allende fala de sua vida neste livro, uma continuação de "Paula". Fala de suas dúvidas, tristezas, se mostra sem constrangimentos, seu lado super mãe protetora em excesso, fala com humor de suas mazelas e dificuldades, de seu amor por Willie e por toda sua tribo. Um livro gostoso de ler, que nos coloca frente a uma vida rica e generosa.


Isabel Allende nasceu em 1942 em Lima, Peru, mas logo em seguida sua família retornou ao Chile. Atualmente vive nos Estados Unidos. É sobrinha de Salvador Allende. 

LIVRO: RELATO DE UM CERTO ORIENTE - MILTON HATOUM



RELATO DE UM CERTO ORIENTE 

MILTON HATOUM 

COMPANHIA DAS LETRAS - 2008 

152 páginas

PAÍS - BRASIL  

ESTADO - AMAZONAS 



REENCONTRO COM SUAS RAÍZES

Uma mulher que não é nomeada retorna ao local de sua infância - Manaus - quando sua mãe adotiva, Emilie, falece e começa a se recordar de sua infância, que será narrada por ela mas, também por outros personagens que ali se encontram devido ao mesmo motivo e que irão se recordar de Emilie e de suas vidas naquela época.
O livro também trabalha com antíteses, como a cidade e a floresta, a vida e a morte, mas o mais impressionante é a aproximação que se faz entre duas religiões, a católica e a muçulmana, através do casamento de Emilie e seu marido também não nomeado. O Oriente vive no meio da floresta Amazônica, na cidade de Manaus, um certo Oriente com cara de Brasil, onde as diferenças conseguem conviver, mesmo com seus atritos.


Milton Hatoum nasceu em 1952 na cidade de Manaus - Amazonas.