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quarta-feira, 1 de abril de 2026

LIVRO: FUGA DA TERRA DAS NEVES

 


FUGA DA TERRAS DAS NEVES

A fuga do jovem Dalai Lama para a liberdade

STEPHAN TALTY

EDITORA GAIA – 1ª ED. – 2012

254 páginas

 

Em Fuga da Terra das Neves, Stephan Talty constrói um relato que vai muito além da travessia dramática do líder tibetano após a invasão chinesa. O livro articula história, espiritualidade e política ao apresentar não apenas os acontecimentos que levaram ao exílio, mas também o universo simbólico e religioso do Tibete, o processo de reconhecimento da reencarnação do Dalai Lama, sua infância e formação no Palácio de Potala, em Lhasa, com seus rituais, regras rigorosas e códigos milenares.

Ao contextualizar a vida tibetana e sua religiosidade, o autor mostra o lugar singular que o Dalai Lama ocupa na sociedade: não apenas como líder espiritual, mas como eixo simbólico de identidade, coesão e continuidade cultural. Essa centralidade ajuda a compreender por que, com a chegada das tropas chinesas, sua permanência em território tibetano se torna um ponto estratégico. Para a China, mantê-los sob controle significaria uma vitória política decisiva: dobrar o Dalai Lama seria, em grande medida, dobrar o próprio Tibete.

O cerco se intensifica quando o Dalai Lama se refugia no palácio de verão. Temendo por sua vida, os tibetanos organizam resistência e cercam o local como forma de proteção. É nesse momento de tensão extrema que se decide a fuga. Com apoio de rebeldes tibetanos e também da CIA, a saída é planejada de forma discreta, atravessando montanhas e territórios hostis em uma jornada de aproximadamente duas semanas até a Índia. O livro acompanha esse percurso passo a passo, revelando o risco constante, o medo, a exaustão e a dimensão humana de um jovem líder lançado precocemente à condição de exilado.

A chegada à Índia tampouco é simples. Inicialmente relutante em conceder asilo, o governo indiano acaba cedendo diante da pressão e do pedido dos Estados Unidos, acolhendo o Dalai Lama em um gesto que teria consequências geopolíticas duradouras. A partir daí, o Tibete passa por uma transformação radical: de um território historicamente fechado a estrangeiros, converte-se em uma região controlada pela China, que reivindica seu direito histórico sobre a área. O processo de modernização imposto vem acompanhado de vigilância, medo e repressão, ainda que muitos tibetanos sigam preservando sua religiosidade e o vínculo simbólico com o Dalai Lama.  

A leitura suscita uma reflexão inevitável. Se não fosse o exílio forçado, talvez o mundo não tivesse tido acesso à voz do Dalai Lama, às suas reflexões sobre compaixão, ética, política e espiritualidade. É possível imagina que, permanecendo no Tibete, ele estivesse ainda preso a protocolos rígidos e a uma estrutura que limitava sua atuação pública. O exílio, embora profundamente doloroso e injusto, também parece ter sido um processo de amadurecimento e libertação pessoal. Ainda assim, permanece o lamento: nenhuma abertura ao mundo compensa a perda de uma terra, de um povo e de uma história interrompida pela ocupação.

 

A china invadiu o Tibete em 1950, logo após a Revolução Chinesa, com o Exército de Libertação Popular entrando em Chamdo. A alegação de que o território do Tibete pertencia à China historicamente gera controvérsias, portanto não vou abordar a questão aqui.

 


Stephan Talty nasceu em Buffalo, Nova Iorque, EUA, em 1964. É um escritor estadunidense. 


domingo, 15 de fevereiro de 2026

LIVRO: À VENDA: MINHA LUTA CONTRA O TRÁFICO SEXUAL NA EUROPA

 


À VENDA: Minha luta contra o tráfico sexual na Europa

IANA MATEI

BESTSELLER – 1ª ED. – 2012

Tradução: Clóvis Marques 

240 páginas

À Venda, de Iana Matei, é um relato comovente e corajoso sobre a luta contra o tráfico sexual na Europa. Psicóloga e fundadora de um abrigo na Romênia para vítimas de exploração sexual, Matei narra sua trajetória pessoal, desde a fuga da Romênia e exílio na Austrália, onde começou a trabalhar voluntariamente com pessoas em situação de rua, transformando essa experiência em uma organização de apoio, até o retorno à Romênia, quando se depara com a realidade brutal da prostituição forçada. Ela percebe que não se trata apenas de prostituição voluntária, mas da venda de meninas menores de idade, traficadas por toda a Europa. Com isso, decide abrir um abrigo para acolher essas meninas e iniciar um trabalho doloroso, complexo e essencial, diante da negligência das autoridades.

O livro apresenta histórias das meninas acolhidas, narrando os abusos sofridos sem recorrer a exageros ou voyeurismo — prática que Matei condena, inclusive por parte de jornalistas ávidos por detalhes sórdidos. O foco é reconstruir a vida física e psíquica dessas jovens para que possam alcançar alguma normalidade, embora, infelizmente, em alguns casos, a reintegração não seja permanente.

Matei descreve a falta de compreensão de diversos setores — judiciário, polícia, autoridades, jornalistas, pais e sociedade em geral — que muitas vezes não distinguem as vítimas, enganadas e forçadas a prostituir-se, de mulheres que exercem a prostituição voluntariamente. As meninas acolhidas geralmente vêm de lares violentos ou disfuncionais, são frágeis, carentes e pobres, e muitas foram seduzidas ou aliciadas por conhecidos, mulheres ou amigos que prometiam empregos ou amor.

A autora também expõe a corrupção e a impunidade que favorecem os traficantes, que podem subornar autoridades ou contratar bons advogados, recebendo, na maioria das vezes, penas leves. O maior medo das meninas é reencontrar os traficantes, o que muitas vezes as impede de sair do abrigo para estudar ou trabalhar.

A luta de Matei e das educadoras é intensa, exigindo paciência, firmeza e, por vezes, medidas duras no trato verbal e comportamental, para que as meninas reaprendam a confiar. Matei defende, acima de tudo, a educação como ferramenta para combater o problema, diante da ineficácia das autoridades em conter a rede de tráfico, que opera por toda a Europa, transferindo vítimas para dificultar sua localização.

O tema é árido e doloroso, mas Matei apresenta-o com força, clareza e humanidade. Ela não omite a realidade, mas insiste na dignidade das meninas e na urgência de ações concretas. Sua coragem, enfrentando traficantes de frente e trabalhando para reconstruir vidas destruídas, torna este livro leitura essencial.

Iana Matei é uma ativista romena e fundadora da Reaching Out Romania, uma organização que visa encontrar e reabilitar vítimas de prostituição forçada e tráfico sexual. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

LIVRO: O RETRATO DE DORIAN GRAY

 


O RETRATO DE DORIAN GRAY

OSCAR WILDE

PENGUIN-COMPANHIA – 1ª ED. - 2012

Tradução: Paulo Schiller

264 páginas 

PAÍS - IRLANDA 

O Retrato de Dorian Gray é um mergulho fascinante na estética, na moralidade e na condição humana. Oscar Wilde constrói uma narrativa em que beleza, arte e ética se entrelaçam, desafiando o leitor a refletir sobre os limites entre aparência e essência, prazer e consciência.

A história gira em torno de Dorian Gray, jovem de beleza singular, cujo retrato passa a carregar os sinais do tempo e da corrupção de sua alma, enquanto ele permanece exteriormente inalterado. Wilde utiliza esse enredo para explorar questões filosóficas profundas: a sedução do hedonismo, o culto à beleza, a relação entre o indivíduo e a sociedade, e a tensão entre moralidade e desejo.

O livro é também um ensaio sobre artificialidade e natureza, sobre como as convenções sociais e os julgamentos estéticos moldam comportamentos, muitas vezes à custa da verdade interior. A escrita de Wilde é refinada, irônica e poética, repleta de aforismos que soam como sentenças universais, capazes de permanecer na mente do leitor muito depois da leitura.

Além disso, a obra problematiza a ideia de duplicidade: o que mostramos ao mundo e o que somos intimamente. Esse diálogo entre o visível e o invisível, o público e o privado, transforma o romance em um espelho literário da própria condição humana, com suas contradições e ambiguidades.

Mesmo sendo uma narrativa ambientada na sociedade vitoriana, os temas de Wilde permanecem surpreendentemente atuais: a obsessão com a aparência, o culto à juventude, a hipocrisia social e a constante tensão entre ética e prazer são questões que atravessam séculos.

O Retrato de Dorian Gray é, portanto, muito mais do que uma história sobre vaidade e decadência; é uma obra que desafia o leitor a encarar a profundidade da alma, a estética da vida e o preço das escolhas individuais.


Oscar Wilde nasceu em Westland Row, Dublin, Irlanda, em 1854 e faleceu em Paris, França, em 1900. Foi um escritor, poeta e dramaturgo irlandês. Foi preso acusado de homossexualismo em um dos primeiros julgamentos de celebridades da história moderna. 


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

LIVRO: O REFÚGIO

 


O REFÚGIO

VALERIO MASSIMO MANFREDI

ROCCO – 1ª ED. 2012

Tradução: Marta Fondelli

352 páginas 

PAÍS - ITÁLIA 

O Refúgio narra a saga da família Bruni — Callisto, Clerice e seus nove filhos, sete homens e duas mulheres. Camponeses simples e trabalhadores, vivem como meeiros em uma propriedade rural, explorados pelos donos da terra, como tantos outros na Itália do início do século XX. Ainda assim, levam uma vida marcada pela solidariedade, pela hospitalidade e por uma certa alegria possível: recebem quem os procura, especialmente no inverno, oferecendo um prato de sopa quente e um lugar para dormir.

Após um dia exaustivo de trabalho no campo, a família se reúne no estábulo para contar histórias. Esses momentos de partilha e oralidade funcionam como um refúgio simbólico: um espaço de memória, afeto e pertencimento que sustenta a família diante das adversidades.

A vida segue seu curso até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, quando os filhos homens são enviados ao front. A guerra irrompe na rotina, altera destinos e impõe ausências definitivas. Após seu término, é preciso recomeçar, mas a paz é frágil. Surgem movimentos que questionam a exploração dos camponeses, e aqueles que ousam sonhar com mudança passam a ser perseguidos pelos camisas pretas, apoiadores do fascismo de Mussolini.

Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, a história se repete sob novas formas. A Itália, inicialmente aliada ao Eixo, muda de posição após a rendição e passa a ser atacada pelos alemães — os mesmos inimigos contra os quais seus soldados haviam lutado na Primeira Guerra. O território se transforma em campo de batalha, e a população civil, mais uma vez, paga o preço das decisões políticas.

Ao acompanhar a trajetória da família Bruni, Manfredi reconstrói a história da Itália a partir de baixo: pela vida dos camponeses, seus costumes, rituais, formas de resistência e sobrevivência. O Refúgio é um romance sensível e potente, que mostra como a grande História atravessa vidas comuns — e como, apesar de tudo, elas seguem buscando abrigo, sentido e continuidade.


Valerio Massimo Manfredi nasceu em Castelfranco Emilia, Itália, em 1943. É historiador, antropólogo, ensaísta, escritor e jornalista italiano. 


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

LIVRO: O MAPA E O TERRITÓRIO - MICHEL HOUELLEBECQ



O MAPA E O TERRITÓRIO

MICHEL HOUELLEBECQ

RECORD – 2012

Tradução: André Telles

399 páginas

PAÍS – FRANÇA

Título Original: La carte et le territoire


Este é o segundo livro que leio de Houellebecq e noto que há pontos que se repetem em relação ao outro - Submissão - já postado aqui no Blog.

Primeiramente o protagonista, um homem solteiro, que mora sozinho e que tem  dificuldades de se relacionar com o outro. O distanciamento dos pais, ser inapto para o amor, a sexualidade, e um mundo moderno com suas supostas vantagens que acabam sempre não o sendo, o solitário, o isolamento. Outra característica é que o autor costuma colocar como personagens pessoas públicas e que ainda vivem, mas em forma de ficção, nem sempre correspondendo à realidade, e neste livro ele coloca a si próprio, o escritor Michel Houellebecq é um dos personagens. 

Neste livro ao invés de François, um professor, temos Jean Martin, um artista plástico, que mora sozinho em Paris e tem seu pai já com certa idade que ainda mora na antiga casa da família. Após se aposentar, era um grande arquiteto, resolveu ir morar numa casa de idosos e finalmente optou pelo suicídio assistido que é permitido na Suíça. 

Jean tem vários momentos em sua arte, a fotografia, a pintura à óleo, mas o que nunca imaginou é que um dia seria famoso e que suas telas valeriam fortunas. Tem uma relação amorosa com Olga, uma russa que está na França e que depois retorna ao seu país, ela o ama, porém ele em momento algum tem um gesto para retê-la ou pensar em ir com ela. Simplesmente deixa acabar. 

É um retrato da modernidade, do vazio, da melancolia, onde as relações perdem seu verdadeiro sentido e são apenas vividas no momento sem criar laços. O mundo da arte, as frivolidades, o dinheiro. Um dos principais pontos de Houellebecq em seus livros é o mercado de consumo e neste livro vamos encontrar várias passagens onde diante de algo vital para a existência se dilui em pensamentos fúteis, em análises sem profundidade. 

O que marca no livro é perceber que Jean se torna um artista famoso e vale muito dinheiro, porém, será arte mesmo o que ele faz? ou será o merchandising que o tornou famoso? E ele ao invés de se pavonear com isto e viver a fama se isola cada vez mais. Não posso deixar de pensar que quando um artista dá seu suor e cria uma obra ele não pode ficar indiferente, há algo de produzido neste boom pelas obras de Jean e que não foi ele quem fez isto. 

Apesar de ser este o livro que ganhou o Prêmio Goncourt, eu prefiro Submissão, que veio depois, onde a realidade do mundo moderno se apresenta com questões muito atuais, sendo que este O Mapa e o território, conta uma história que nos mostra o retrospectivo, a diferença que podemos imaginar entre o que foi e o que é. Entre o antes do mundo do consumo e o de hoje. 

Michel Houellebecq nasceu em 1956 na Ilha de Reunião,  França

segunda-feira, 9 de junho de 2014

LIVRO: O SEGREDO DO ORATÓRIO - LUIZE VALENTE


O SEGREDO DO ORATÓRIO

LUIZE VALENTE

RECORD – 2012

317 páginas

 PAÍS - BRASIL 

ESTADO: RIO DE JANEIRO 


Depois de assistir ao documentário A Estrela Oculta do Sertão de Luize Valente e Elaine Eiger fui atrás do livro para ler.

Luize transpôs para o livro o documentário, mas em forma de romance. É a história de Ioná, uma médica paraibana que vai em busca de suas origens no sertão nordestino depois que descobre que é descendente de cristãos novos.
Ioná é apaixonada por Daniel, um judeu ortodoxo e conhece Ana, uma jornalista que está no Recife acompanhando a professora Ethel que é uma especialista em Inquisição Portuguesa. Aí começa a aventura do livro pelo sertão, São Paulo e indo até Nova Iorque.

Encontramos no livro tudo que foi mostrado no documentário e um pouco mais. É muito interessante vermos que não apenas os judeus conversos, mas os brasileiros cristãos acabam adquirindo muito desta herança, seja como superstições que tenham, sejam nos ditos populares. Eu sempre gostei de descobri de onde vem os ditos, onde surgiram e porque. Neste livro descobri de onde vem o "pensando na morte da bezerra".

O livro traça o panorama desde a fuga dos conversos, sua vinda para o Brasil e depois sua nova dispersão, sendo que vários partiram com os holandeses, e destes uma nau acabou em Nova Iorque. Trata dos costumes e tradições mantidas, mas diferente do documentário, aqui a Tia Ioná sabe o que está fazendo e porque, e é esta herança que ela precisa passar para sua sobrinha-neta.

Apesar do romance ser uma ficção ele trata de um fato histórico e real e que ocorreu com muitos que são descendentes de cristãos novos.


Luize Valente nasceu no Rio de Janeiro em 1966. É uma escritora, jornalista e documentarista brasileira.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

LIVRO: CIDADE ABERTA - TEJU COLE



CIDADE ABERTA

TEJU COLE

COMPANHIA DAS LETRAS – 2012

Tradução: Rubens Figueiredo

315 páginas

PAÍS – NIGÉRIA


Julius é um nigeriano que vive nos Estados Unidos em Nova York no pós-Onze de Setembro e faz residência em psiquiatria. 
Um livro sobre o híbrido, traumas e uma imensa solidão. Ele passa seus dias no Hospital e depois sai para caminhar pela cidade. A sensação da solidão que ele nos passa caminhando e relatando o que vê somado a informações históricas e também suas lembranças do passado. Aquele momento onde percebemos em alguma coisa ou algo uma pequena lembrança de algo que nos ocorreu que nos vem da memória. Mas ele também empreende uma fuga de tudo, deixa muitas reticências, não consegue se confrontar com seus fantasmas e prefere esquecê-los. 
Faz uma tentativa indo procurar sua avó que mora na Bélgica, mas passa seus dias naquela cidade fazendo a mesma coisa, flanando pela cidade, com uma diferença que ele conhece Farouq e mantém conversas com ele, porém em todos os momentos de seus encontros ele mais escuta e pensa do que fala. E não me parece que faz algum esforço para encontrar sua avó de fato, e que talvez nem ele mesmo saiba o que foi fazer ali, pois provavelmente tinha consciência da dificuldade que seria encontrá-la, supondo que ainda estivesse viva.
É no relato de suas errâncias que notamos mais profundamente o hibridismo atual, nas diferenças e nos iguais, que ele relata. Seja nos restaurantes que cita e que são vários podendo ser locais ou indianos, chineses, seja nas lojas que visita e que igualmente podem ser representativas de vários locais, e nas pessoas que encontra nas ruas. Farouq defende a diferença, outros acham que as pessoas precisam ser vistas como iguais. 
Os traumas de guerra e da vida que surgem seja nas lembranças de Julius, no que ele vê ou nos relatos de pacientes. As pessoas que deixam seus locais de origem devido ditaduras cruéis, genocídios, guerras e lutas tribais e sonham com um país que haja liberdade, mas será que esta liberdade tão desejada existe? Ou será que há algo oculto na representação da Estátua da Liberdade que a tantos fez chorar de alegria ao vê-la pela primeira vez? 
Porém há um outro lado neste livro que só me surgiu quando eu já estava quase terminando a leitura, e confesso que há momentos que se torna até cansativo aquele desenrolar de suas percepções, e foi quando ocorre uma revelação de um fato ocorrido há muitos anos atrás no qual ele seria o vilão. O que realmente me chocou foi que Julius apenas assume que todos nós temos um lado bom e outro mau

" Temos a capacidade de fazer o bem e o mal, e na maioria das vezes optamos pelo bem. Quando não o fazemos , não nos perturbamos com isso..." 

Ele deixou uma vida marcada para sempre, e com consequências trágicas, porém não é isto o que me revelou este livro, o que ele mostra claramente, depois que acompanhamos Julius por 300 páginas é sentir e perceber como se sente ou não se sente uma pessoa que cometeu uma violência, relegando isto totalmente ao esquecimento, ou talvez recalcando, mas não acredito que aqui seja isto, ele simplesmente esqueceu, por que para ele isto não o afetou. E quando Moji lhe relata ele chega mesmo a pensar que talvez seja mais uma história onde o outro se vitimiza sem perceber que também está no centro da questão, apesar de ela lhe parecer convincente. Ele não lhe diz nada, apenas dá graças por ela não ter chorado. 

Enquanto Moji passou sua vida toda pensando a cada dia nisto, sentindo a marca em si, ele continuou andando e vivendo sua vida, e nem a reconheceu quando a viu no mercado.

Cole nos dá um relato excepcional aqui, pois como esta revelação vem ao final do livro, surpreende e nos pega já mergulhados na vida de Julius, e diante do fato é que percebemos como é com outros que também cometeram atos assim. Crimes que se perpetuam, não só este, mas a violência que vemos no mundo. 

Um relato trágico do que ocorre nestes crimes, e que também fazem parte de todas as guerras.  

Teju Cole nasceu em 1975 na Nigéria. É fotógrafo, escritor e historiador de arte. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

LIVRO: DEZ MULHERES - MARCELA SERRANO



DEZ MULHERES

MARCELA SERRANO

ALFAGUARA – 1ª ED. - 2012

Tradução: Paulina Wacht e Ari Roitman

272 páginas

PAÍS – CHILE 


Título Original: Diez Mujeres

Primeiro livro da escritora chilena Marcela Serrano que leio, e gostei muito. Natasha, uma terapeuta reúne por um dia nove de suas pacientes para que falem, contem suas histórias. Idades diferentes, classes sociais diferentes, origens diferentes e cada uma com seu drama pessoal, mas que ao ler a sensação que temos é que poderia ser uma história só.
Vamos nos identificando com um aspecto de uma, depois de outra, e ao final não fui capaz de dizer com qual eu me identifico mais, pois em cada uma das histórias encontrei algo que se parece com a minha.
Francisca que fala de sua mãe, Mané sobre a velhice, Juana sobre a dor e o viver para o outro, Simona sobre o prazer da solitude, do viver para si, Layla sobre a violência, o estupro que sofreu e que irá afetar sua vida sem que ela se dê conta, Luisa que nos fala sobre os desaparecidos, Guadalupe nos conta o como é descobrir sua homossexualidade e enfrentar os preconceitos, Andrea que tenta se encontrar no deserto, dar um sentido a sua vida, Ana Rosa que nos fala da morte e da culpa, e do incesto e suas consequências e a história de Natascha contada por uma amiga e colaboradora. Por mais que cada uma foque em algo, na soma de sua história ela nos falou muito mais.

Fiquei imaginando a cena inicial, estas nove mulheres se olhando sem saber o que aconteceu à outra, sem saber as dores, as dificuldades, as alegrias, qual desejo tem cada uma para quando chegam ao final do dia terem descoberto que todas, inclusive aquelas que umas invejam por terem tudo e imaginam que com isto não podem se deprimir, e nem passam por dificuldades, também tem dores e sofrimentos.

Mas, Serrano consegue nos falar de tudo isto de uma forma que me lembram as histórias contadas pelos antigos para ensinar sobre a vida, os contos que ainda não haviam sofrido a manipulação para se tornarem os "felizes para sempre" que tanto nos iludem, por que a vida não é assim, ela é feita de momentos, e entre estes momentos temos o trágico, mas também temos a alegria e o prazer. A cada relato nos refletimos, pensamos, aprendemos e descobrimos que não somos a única a passar por coisas difíceis, e que cada uma tenta a seu modo viver a vida que tem com tudo que isto significa.

No final do livro temos uma frase: " É que a literatura, como a psicanálise, luta com a complexa relação entre o saber e o não saber."

Quando contamos uma história, e principalmente se é a nossa história, nos ouvimos contar, mas também somos escutados por outros, e é nesta interação que surge o que não sabemos e não falamos, mas que o outro ouviu dentro de si. Sempre haverá mais palavras a serem ditas e ouvidas.

O livro é uma colcha de retalhos, retalhos que se costuram para nos aquecer.

Marcela Serrano nasceu em Santiago, no Chile, em 1951. Após o golpe militar de 11 de Setembro de 1973 exilou-se na Itália até 1977. Formou-se em Belas Artes.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: SABINA SPIELREIN DE JUNG A FREUD - SABINE RICHEBÄCHER


SABINA SPIELREIN DE JUNG A FREUD

SABINE RICHEBÄCHER

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA – 1ª ED. – 2012

Tradução: Daniel Martinenschen

434 páginas


Uma biografia de Sabina Spielrein. Uma vida dedicada à psicanálise após ser curada de sua histeria por Jung e ser analisada por Freud.
A Primeira Guerra e a Segunda Guerra, a Revolução Russa, uma vida envolta nestas contingências que a afetaram como a todos que viveram nestes períodos. Passou dificuldades, lutou, se empenhou, mas nunca abriu mão do desejo de viver, de estudar, de continuar em frente. Acabou assassinada junto com suas filhas Renata e Eva pelos nazistas em Rostov na Rússia.

Sabina foi esquecida e Melanie Klein ficou com os méritos de muitas de suas descobertas na psicanálise infantil. Com a descoberta de seus diários e escritos em Genebra, onde os deixou quanto retornou à Russia, surge este livro, filmes e textos editados, porém não há nenhum em português ainda.

Sabina ficou mais conhecida pelo "escândalo" de sua relação amorosa com Jung, cuja transferência nunca se desfez ou resolveu, do que pela sua contribuição à psicanálise. Ela trabalha a linguagem, os sonhos, a infância, é freudiana, apesar de Jung. É uma mulher a frente de seu tempo.

O livro dá um panorama da vida na Europa no período e sobre a Rússia Czarista à Comunista.

Recomendo também assistir ao filme: Um método perigoso.

Sabine Richebächer é uma psicanalista e escritora alemã. Doutora em Filosofia pela Universidade de Zurique com formação na Sociedade Sigmund Freud e no Seminário de Psicanálise, ambos em Zurique.


LIVRO: TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO - JOSÉ EDUARDO AGUALUSA


TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA

EDITORA FOZ – 2012

176 páginas

PAÍS – ANGOLA

 


Guerra Civil em Angola, independência de Portugal. Ludo, após o desaparecimento da irmã e do cunhado, ergue uma parede e se enclausura no apartamento com seu cachorro Fantasma, de onde sairá 30 anos depois. Ela tem medo, não confia na humanidade devido uma tragédia em sua infância.
Somente quando ela se perdoa pode novamente sair ao mundo e ser reconhecida e também reconhecer, e pede perdão a si mesma, à criança que ficou parada  em uma curva na infância.
Mas, apesar do seu isolamento, ao seu redor coisas acontecem, e sem que ela saiba ou queira isto, acaba fazendo parte de todas elas.

Há uma cena simbólica belíssima com o espelho, onde atrás dela há sempre o estranho e seu duplo introjetado, e a troca dos espelhos na casa irá permitir que ela abra a porta para a vida, livrando-se deste invasor. Ela diz então: Teria sido tão fácil abrir a porta! Mas ela só o faz quando já está velha, quase cega, e pessoalmente me pergunto se ela o teria feito antes, teria sido capaz? Ludo tenta se isolar do outro, tem muito medo do outro, porém quando abre a porta, as histórias, coisas que aconteceram no mundo convergem para sua porta, e então no que é possível, se esclarecem.

LIVRO : OS ENAMORAMENTOS - JAVIER MARÍAS




OS ENAMORAMENTOS

JAVIER MARÍAS

COMPANHIA DAS LETRAS – 2012

Tradução: Eduardo Brandão

344 páginas

PAÍS – ESPANHA 



Interessante que os personagens são Javier e Marías, como se fossem o lado masculino e feminino do autor.

O autor nos conduz através de uma única voz, a de María, nos labirintos de uma pessoa enamorada por outro. O que podemos imaginar, deduzir, conjecturar sobre o outro, sem nunca saber a verdade sobre o outro ou como este outro nos vê. São os desejos, as ilusões, a racionalidade, o que se espera apesar de não poder esperar. Pouco espaço a outra voz, e quando isto se faz é María quem conta, e existe também a possibilidade dele estar mentindo para ela.
O livro dialoga com outros livros, principalmente com "O Coronel Chabert" de Balzac que acompanha o livro. "revela passo a passo as armadilhas de toda ficção. O desejo íntimo de acreditar naquilo que é narrado, bem como o impulso de preencher com a própria fantasia o que se ignora.".
Estamos sempre fazendo isto, mesmo quando o outro nos fala, o captamos com a nossa subjetividade. Sempre faltará algo, há sempre um resto em qualquer diálogo. O livro lembrou-me um pouco Machado de Assis - Dom Casmurro, onde a dúvida permanece e não sabemos pelo autor se Capitu traiu ou não.
Javier Marías, através de sua personagem María, nos leva ao encontro do que é mais real em um enamoramento, aquilo que realmente pensamos ou desejamos, chegando ao cruel, que se faz através de palavras ou de atos. Quando amamos outro que ama outro, no fundo desejamos eliminar este outro, alguns o fazem, outros só o falam, e isto remete ao inconsciente infantil, onde desejamos a morte do irmão(ã), ou do genitor que concorre conosco por aquele a quem desejamos, e isto se mantém, repetindo em nossas vidas, seja em pensamento ou em ato. os Enamoramentos é uma descrição do real de se estar apaixonado.

Javier Marías Franco nasceu em 1951 em Madrid, Espanha. É formado em Filosofia e Letras pela Universidade Complutense de Madrid. Considerado um dos mais importantes escritores vivos da lingua castelhana.

domingo, 16 de setembro de 2012

LIVRO: JOSÉ E PILAR - Conversas Inéditas - MIGUEL GONÇALVES MENDES



JOSÉ E PILAR: Conversas Inéditas

Miguel Gonçalves Mendes

Companhia das Letras – 2012

Tradução: Rosa Freire D’Aguiar

224 páginas



Terminei a leitura do livro "José e Pilar Conversas Inéditas" e o recomendo. O livro traz conversas entre o autor e José Saramago e Pilar del Rio sobre política, amor, religião e Deus, morte. Cada um deles expõe seus pensamentos e a maneira como lida com estes assuntos. Pilar é uma mulher extraordinária, forte, decidida e muito racional, o que muitas vezes me levou a não concordar totalmente com ela, mas é de uma generosidade imensa. Saramago também é objetivo, olha a vida como ela é e ambos não tem medo de falar e expor seus pensamentos, sejam eles apreciados ou não pelos outros. Além disto há o amor entre este homem e esta mulher, que é belíssimo. Ambos são engajados nas grandes questões do mundo, o que hoje em dia nos falta e muito.

Um trecho sobre o que diz Pilar: " Os países privilegiados são países privilegiados e as pessoas que vivem nos países privilegiados não sabem o que têm e se suicidam de puro privilégio, não é? E não tenho pena dos suicidas do privilégio, porque toda a minha compaixão está esgotada com pessoas que neste momento estão cruzando o oceano tentando cavar a vida com um bebê nos braços, mortas de frio, está certo? Minha compaixão está com os que estão trabalhando de sol a sol, por um salário miserável, também em Portugal e também na Espanha, explorados por empresários que vão à missa e batem no peito. Minha compaixão está com todos esses, não com os suicidas do Primeiro Mundo nem com os empresários maravilhosos que tem desgraças pequenas, pessoais, a mulher que lhe põe chifres e todas essas coisas."

Mendes pergunta por que estes se suicidam, os do Primeiro Mundo e a resposta é " Por que não estão gerando os únicos valores que podem reconfortar e que podem satisfazer, que são os valores da solidariedade. E então vão ver os filhos crescer, os filhos se casar, tornar-se engenheiro de telecomunicações ou de não sei o quê, e estamos metidos nas pequenas vidinhas de cada um, sem percebermos que o mundo está mais longe, e no final a vida fica pequena. E há alguns que de tão pequena, se asfixiam e se suicidam. A vida é grande. Se fossêmos todos muito mais generosos, muito mais abertos, muito mais solidários, nos daríamos conta de que temos tanto trabalho pela frente que não teríamos tempo para nos suicidar. De acordo?"

E novamente Mendes lhe pergunta sobre o vazio, de não saber o que fazer... e ela " Como não saber o que fazer? Viver! Encher a terra! Cuidar dela! Deixá-la melhor! Cultivá-la! Aprender! Diferenciar Beethoven de Bach! Há um montão de coisas para fazer. Há um montão de coisas para fazer, ser solidário, adotar crianças, ir aos hospitais, cuidar dos doentes. Temos mundos de coisas. Ler, estudar! Ajudar aos que precisam. Cuidar do meio ambiente. Fazer festas! Beber vinho..

Uma bela crítica ao individualismo, ao sistema, ao higienismo, a falta de solidariedade, do dom da dádiva. Não estamos sozinhos no mundo, e o mundo não é apenas nosso quintal ou jardim.
Sobre o amor, um amor que não se espera do outro o que não tenho, mas que dá, oferece, o que cada um tem ou não tem.
Sobre a morte: faz parte da vida, é garantida, não tem por que se preocupar com ela, e sim com o viver que não é garantido. A morte já está conquistada, diz Pilar, a vida não.

José e Pilar 

Miguel Gonçalves Mendes nasceu em 1978 em Covilhã, Portugal. É um realizador, argumentista e produtos português.