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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

LIVRO: GEORGE ELIOT: A VOZ DE UM SÉCULO

 


GEORGE ELIOT: A VOZ DE UM SÉCULO

FREDERICK R. KARL

RECORD – 1998

884 páginas 

Como parte da pesquisa sobre o feminino no século XIX, a leitura da biografia de George Eliot se impõe quase como um gesto preliminar. Antes dos romances, antes da obra literária, há uma vida marcada por escolhas intelectuais, afetivas e políticas que ajudam a compreender a singularidade de seu pensamento.

Frederick R. Karl constrói uma biografia extensa, que acompanha Mary Ann Evans da infância à morte, passando por toda a sua produção literária, bem como pelos comentários críticos que seus livros suscitaram ao longo do tempo. Trata-se de um trabalho minucioso, por vezes exaustivo — especialmente quando se detém longamente nas negociações com editoras, contratos e rendimentos financeiros, trechos que tendem a quebrar o ritmo da leitura. Ainda assim, o livro se sustenta como uma fonte importante para entender o percurso intelectual de Eliot.

Um de seus méritos está em situar a autora no interior da Inglaterra vitoriana, fazendo do contexto histórico e cultural um pano de fundo constante. Karl insere George Eliot em diálogo com figuras centrais da época, como Dickens, Charlotte Brontë e John Stuart Mill, revelando um ambiente intelectual vibrante, atravessado por debates morais, religiosos e políticos que ecoam diretamente em sua obra.

Mary Ann Evans era uma mulher profundamente intelectualizada, pertencente a uma elite cultural e integrada ao meio literário de seu tempo. Ainda assim, enfrentou forte preconceito, sobretudo quando decide viver com George Henry Lewes, um homem casado. Essa escolha, escandalosa para os padrões morais da época, contribui decisivamente para a adoção de um nom de plume masculino, estratégia que lhe permitiu circular com maior liberdade no campo literário.

George Eliot raramente se pronunciava publicamente. É nos romances que seu pensamento se revela com maior clareza: suas reflexões éticas, suas críticas sociais, suas posições sobre religião, moralidade e vida privada. A ficção torna-se, assim, o espaço onde ela elabora não apenas ideias abstratas, mas também justificativas implícitas para suas próprias escolhas.

Nesse sentido, a biografia de Karl cumpre um papel fundamental: mostrar que conhecer a vida de George Eliot não significa reduzir sua obra a dados biográficos, mas compreender melhor as tensões que atravessam seus romances. Antes da leitura da ficção, há uma mulher que pensa, escolhe, transgride, e é dessa fricção entre vida e escrita que emerge a força duradoura de sua obra.



Frederick R. Karl nasceu em Nova Iorque em 1927 e faleceu na mesma cidade em 2004. Foi um biógrafo literário. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

LIVRO: A ÚLTIMA GRANDE LIÇÃO - O sentido da vida - Mitch Albom


A ÚLTIMA GRANDE LIÇÃO: o sentido da vida

MITCH ALBOM

SEXTANTE – 1998

Tradução: José J. Veiga

159 páginas 


Mitch Albom teve um professor que foi um mestre em sua vida, Morrie Schwartz, mas apesar da promessa de ir visitá-lo nunca mais o fez até o dia que Morrie estava a beira da morte. Foram 14 encontros, sempre as terças-feiras, que mudaram a vida de Mitch. Este livro é o relato destes encontros e das mudanças que ocorreram para Mitch, mas que também podem mudar as nossas vidas. Morrie sofria de ELA (esclerose lateral amiotrófica), uma doença degenerativa e fatal. Em seus encontros com o antigo professor que ele chama de treinador Morrie irá falar de amizade, família, medo, perdão, morte.

Infelizmente na maioria das vezes nós só nos damos conta de que nossa vida não foi o que sonhamos e desejamos quando estamos envelhecendo e temos a percepção da morte que se aproxima ou diante de uma doença fatal que nos dá pouco tempo de vida. Não poderia ser diferente?

Deixamos de lado o que realmente é importante na vida para cuidarmos de coisas pequenas e materiais, como status, sucesso, dinheiro, consumo, bens. E para isto sacrificamos nossos amigos, nossa família, nosso lar e as pequenas alegrias e satisfações da vida.

O sentido da vida não é algo que se encontra ou que exista, a vida é a vida, o sentido cabe a cada um de nós construir. Mas as pessoas acabam enclausuradas no sistema competitivo e materialista e se esquecem que viver não é isto, isto é um sistema que nos enreda e ilude, não tem compaixão, e se você bobear perde tudo que pensa ter construído com tanto esforço e sacrifício. Vale a pena?

Somos dominados pelo Ego e pela competição e perdemos o sentido da solidariedade, compaixão, e hospitalidade. O narcisismo sempre fala mais alto, e queremos sempre ser o melhor e vencer, mas como diz Morrie: qual o problema de ser o segundo?

Todos nós de certa maneira sabemos que vamos morrer, mas deletamos isto. Não levamos isto em conta durante nossa vida.Por um lado isto é bom, pois poderíamos sofrer muito com este sentimento sendo constante, mas por outro, ao esquecer que vamos morrer como todos e que não levamos nada de material daqui, levamos uma vida que foca coisas que não tem importância nenhuma ao invés de nos preocuparmos com o que realmente conta.

O que precisamos é aprender a viver dentro deste sistema, mas sem se deixar afetar por ele a ponto de perdemos o que a vida tem de melhor.

Mitch Albom e Morrie Schwartz

Assista ao filme no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=8j6k_I7nlKw

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

LIVRO: HISTÓRIAS QUE CURAM - Conversas sábias ao pé do fogão - RACHEL NAOMI REMEN


HISTÓRIAS QUE CURAM: Conversas sábias ao pé do fogão

RACHEL NAOMI REMEN

ÁGORA – 1998

Tradução: Laura Teixeira Motta

277 páginas

Título original: Kitchen table wisdom.

Rachel é médica, ela trabalha com pacientes com câncer, principalmente os terminais, através de uma terapia que os ajuda a enfrentar este momento. Mas o livro nos proporciona um ensinamento que é sábio sobre a vida, sobre como viver e não apenas sobreviver.

Um dos pontos do livro é a questão do treinamento que os médicos recebem de serem profissionais e não se envolverem emocionalmente com os pacientes. Acontece que o médico é um ser humano e ter que se conter pode levá-lo ao que a autora chama de embotamento, ou seja, ficar insensível a dor, o que não quer dizer que ele não sinta, mas justamente porque sente e tem que reprimir ele acaba assim.

A autora defende o ponto que cada doença é única para aquela pessoa e que a cura também é única. Para a medicina a doença é uma só e tem seus recursos para lidar com ela, mas as coisas são muito mais profundas do que isto, pois a doença já é um sintoma de algo que afetou aquele ser humano.

Cada um que ler o livro encontrará algo que lhe fale. Eu pessoalmente me atentei muito à questão do quanto ficamos presos ao outro e com isto deixamos de ser nós mesmos e fazer o que desejamos. Ela nos lembra que um elogio também é uma forma do outro nos julgar e não apenas a crítica como costumamos ver. E do quanto nos dedicamos a atender aos padrões que nos foram impostos na infância ou pela sociedade e o quanto isto gera infelicidade.

Rachel também nos fala sobre o sagrado, aquele lugar interno ou até mesmo externo que nos traz paz, e do quanto precisamos disto.

A força, a determinação, a integridade das pessoas que estão com câncer é algo que nos comove e nos leva a refletir muito sobre a vida.



segunda-feira, 14 de julho de 2014

LIVRO: A VIAGEM DE THÉO - Romance das Religiões - Catherine Clément


A VIAGEM DE THÉO – ROMANCE DAS RELIGIÕES

CATHERINE CLÉMENT

COMPANHIA DAS LETRAS – 1998

Tradução: Eduardo Brandão

625 páginas

PAÍS – FRANÇA

Título Original: Le voyage de Théo

Théo sofre de uma doença grave e sua tia Marthe se propõe a levá-lo em uma viagem que pode se transformar em sua cura. Esta viagem será pelos locais sagrados de todas as religiões e seus rituais, além de Théo ter que descobrir sempre qual será a nova etapa da viagem através de pistas, como num jogo.

Marthe e Théo viajarão pelo mundo passando pelos locais sagrados do catolicismo, hinduísmo, judaísmo, protestantismo, budismo, islamismo entre outras. Ele sempre gostou muito de livros e lia muito sobre religião, se perguntava como os homens criaram deuses e como estes podem influenciar na história dos homens. Então, é a oportunidade de ir aos locais que ele só conhecia pelos livros e vivenciar o sagrado.

Um romance sobre as religiões, sua história, fundamentos, crenças, rituais.

Catherine Clément nasceu em 1939 em Boulogne-Billancourt, França. É autora de obras de filosofia, psicanálise e antropologia. Amiga de Claude-Levi Strauss que sempre lia seus romances antes que ela os publicasse. 

segunda-feira, 16 de junho de 2014

LIVRO: HITLER A TIRANIA E A PSICANÁLISE - Ensaio sobre a destruição da civilização


HITLER A TIRANIA E A PSICANÁLISE: Ensaio sobre a destruição da civilização

JEAN-GÉRARD BURSZTEIN

COMPANHIA DE FREUD – 1998

Tradução: Dulce Duque Estrada

96 páginas

Título Original: Hitler, la tyrannie et la psychanalyse - Essai sur la destruction de la civilisation

Um livro muito interessante com a análise sobre o nazismo e Hitler pelo viés da psicanálise nos oferecendo uma resposta ao Por que? por que o povo alemão aderiu à Hitler? por que Hitler conseguiu fazer o que fez?

Bursztein parte do laço social, o que nos une aos outros, agrupando-nos através da cultura numa civilização. Pelo viés da psicanálise somos introduzidos na Lei pelo pai que interfere na relação fusional entre mãe e filho levando-o a se separar e desistir de seu desejo pela mãe voltando-se para o mundo, para outros, e fazendo desta falta seu desejo de se mover. É a aceitação inconsciente da diferença homem e mulher e da interdição do incesto. Recalcamos então o ódio ao pai, este que impõe a lei e o transformamos no pai simbólico, o que nos rege em nossos valores, princípios e moral.

Os judeus são um povo que não se referem à um país ou uma língua, mas sim à lei, a Torá, e por isto mesmo representam este pai. A Alemanha no pós Primeira Guerra estava deprimida, e Hitler encarna o ideal de eu que o povo busca, utiliza-se do mito nacional, do povo ariano, da cultura germânica resolvendo para todos o problema que enfrentavam, nada como um pai que vem socorrer e acaba com os outros que são a ameaça.

Quando se rompe o laço social, ou seja, a lei que une os seres humanos, instala-se o que Bursztein chama de psicose social. As pessoas passam a não se importar mais com o outro, e buscam um bode expiatório para ser o responsável por todos seus problemas.

Por outro lado, Hitler é um psicótico, delira, tem visões, megalomaníaco. Ele hipnotiza o povo, fala e eles aderem, e como a psicose social elimina toda e qualquer moral, não irão contra ele. Hitler está acima da lei, está foracluído, só faz o que quer, e tudo gira em torno dele. Não há mais a lei, a civilização, apenas ele e o povo alemão.

Obviamente não foram todos os alemães que aderiram, mas a grande maioria sim, o que permitiu o que aconteceu, por que Hitler sozinho não teria conseguido fazer o que fez. Só foi possível com o apoio do povo em seu ódio ao judeu.

O racismo é sempre um ódio ao diferente. Porém o judeu é um semelhante, ele é assimilado, integrado, e no caso da Alemanha, se consideravam alemães. O que faz a diferença aqui é o significante judeu, e o que ele diz, transformando então os judeus em diferentes.

O que ocorreu com o nazismo é que temos o mito como referência delirante ( o mito do povo ariano, puro, belo e perfeito), a cultura é reduzida à mitologia e o direito é uma ideologia delirante (Hitler acima da lei, fora da lei), e eis que o laço social se rompe. A civilização se reduz à mestria e emerge um tirano. Não há mais espírito crítico, identificação simbólica.

Ao contrário de uma civilização com laço social, onde o mito é uma referência nacional e possui significantes de referência simbólica, a cultura é um discurso (na realidade vários discursos), o direito é uma autoridade legítima e a civilização anda.

Um livro que vale a pena ser lido para melhor compreensão não só do nazismo, mas de todas as tiranias, e das perversões também.


Jean-Gérard Bursztein é um psicanalista francês e doutor em filosofia. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: HANNA E SUAS FILHAS - MARIANNE FREDRIKSSON




HANNA E SUAS FILHAS

MARIANNE FREDRIKSSON

OBJETIVA – 1988

Tradução: Myriam Campello

312 páginas

PAÍS – SUÉCIA 



O livro fala sobre três gerações fictícias de mulheres que viveram na Suécia entre o final do Séc.XIX até o final do Séc. XX. São elas: Hanna, a avó, Johanna, a mãe e Anna, a filha e que é quem nos conta a história.

A mãe de Anna está com Alzheimer, e ela encontra na casa dos pais uma foto de sua avó Hanna, vindo a se interessar pela história desta mulher, quem foi ela?

O livro nos mostra a história destas três mulheres, em suas épocas, e como se parecem com as nossas, no mundo de hoje. Os amores, filhos, o trabalho, a luta, a profissão, a família. Levanta a questão de ser mulher e de como isto muitas vezes pode ser difícil, doloroso, mas também prazeroso. Fala das relações entre as mulheres - avó, mãe, filha, neta, mas também mostra a força que é esta teia de ancestrais.

Ao mesmo tempo relata os acontecimentos de cada época, a política, a vida, os costumes, nos mostrando também o caminho percorrido pela mulher em sua busca por liberdade e poder viver de acordo com o que deseja.

Marianne Fredriksson é uma escritora sueca nascida em 1927 em Gotemburgo e que faleceu em 2007 na cidade de Estocolmo. Foi jornalista e somente em 1980 devido uma crise pessoal iniciou sua bem sucedida carreira de escritora.