domingo, 6 de setembro de 2026

LIVRO: O PAÍS DAS MULHERES - GIOCONDA BELLI


 O PAÍS DAS MULHERES

GIOCONDA BELLI

VERUS – 1ª ED. – 2011

Tradução: Ana Resende

220 páginas

Título Original: El país de las mujeres

PROJETO LER UMA MULHER POR PAÍS – NICARÁGUA 

Gioconda Belli nos presenteia com uma utopia feminista. Um país fictício – Fáguas, na América Latina -, onde a incompetência masculina em governar leva ao poder um partido chamado PEE (Partido da Esquerda Erótica).

O interessante é que um grupo chamado PEE- Partido da Esquerda Erótica, realmente existiu nos anos 80, na Nicarágua, durante a Revolução Sandinista, e discutia questões relacionadas aos direitos das mulheres. O grupo se manteve ativo durante muitos anos.

A autora se utiliza de um humor fino e satírico para demonstrar como seria um mundo governado por mulheres que não se adequassem ao poder masculino, mas pelo contrário, criassem algo totalmente novo.

“Qual é minha ideia? Vejamos. Já existem algumas mulheres presidentas. Isso não é novidade. O que não existe é um poder feminino.” (pag. 82)

A candidata à presidência também propõe o que chama de Felicismo. “A felicidade per capita e não o crescimento do produto interno bruto como eixo do desenvolvimento. Medir a prosperidade não em dinheiro, mas em quanto mais tempo, mais tranquilas, seguras e felizes vivem as pessoas.” (pág. 85)

Cinco mulheres se unem para criar o Partido – Viviana, Martina, Eva, Rebeca e Ifigenia. Elas vencem as eleições após uma campanha que se utiliza de humor e apresenta um projeto de governo muito diferente daquele a que o povo estava habituado. Este resultado também foi influenciado pela erupção do vulcão Mitre, que exala uma fumaça que baixou o nível da testosterona masculina, deixando os homens mansos e calmos.

As mudanças introduzidas pela nova presidenta e pelas quatros ministras são revolucionárias. Ao perceber que, havendo homens no governo, as mulheres ainda se comportavam como submissas diante deles, que sempre acabavam debochando e criticando as ideias que elas apresentavam, Viviana Sansón, a presidenta, decide afastar todos os homens dos cargos públicos, inclusive da polícia e do exército, e colocar somente mulheres nesses postos.

Os homens afastados recebem um salário por seis meses e devem assumir os trabalhos domésticos e o cuidado dos filhos, para que suas esposas possam trabalhar fora do lar. Além disso, foram criadas creches comunitárias e escolas nos bairros, construídas pelos homens; concursos para as regiões mais limpas da cidade, que eram premiadas com isenção do pagamento de água e luz por um período; e também punições severas contra abusadores e estupradores de mulheres.

No entanto, obviamente, nem todos estavam gostando de tudo isso, principalmente quem perdeu a eleição, um juiz que foi desmascarado por Viviana, quando ainda era jornalista e estava envolvido em prostituição e tráfico de mulheres, além de outros homens. No segundo ano do mandato, durante os festejos em uma praça pública, Viviana sofre um atentado, sendo baleada em dois lugares – o baço e o cérebro.

Durante sua hospitalização, enquanto permanece em coma induzido, ela entra em um mundo paralelo, em um galpão onde estão objetos que se referem à sua vida. Cada vez que ela toca um deles, rememora um momento vivido, sua trajetória e seu governo. Enquanto isso, as outras quatro mulheres seguram o governo e buscam o pistoleiro e o responsável pelo atentado. Não menciono o final em respeito aos que irão ler o livro.

Podemos fazer críticas ao livro também. Por exemplo, por mais que a autora trabalhe a questão do cuidado como algo que deva ser igualitário, há momentos em que aparece, ao fundo, um certo essencialismo. Viviana considera o governo como ser uma mãe para o povo.

Se as mulheres governam porque são socialmente construídas para cuidar, estamos realmente diante de uma nova concepção de poder ou apenas transferindo para o Estado o papel tradicional de mãe?

No entanto, a autora levanta uma questão que me provoca há muito tempo: como nós nos pensamos como mulheres? Afinal, o que é o feminino? E concordo com Viviana quando ela diz que deixamos que nos convencessem de que nossas maiores qualidades são fraquezas. Muito se discute sobre a questão natureza/cultura, e o que mais encontramos é uma crítica a essa divisão, considerando que, na modernidade, colocou-se a mulher na natureza e o homem na cultura. Porém, Vandana Shiva defende que estar na natureza é ocupar o lugar de maior valor, uma vez que é a vida. Existiria cultura sem vida?

Sim, foi necessário, primeiramente, combater toda a visão masculina, misógina e machista sobre a mulher. Afirmar que não somos apenas aptas a procriar, cuidar de casa e dar prazer aos homens, como queria Rousseau em seu livro “Emílio ou da educação”. Mas penso que também temos que definir, em algum momento, o que é ser mulher. E, ao invés de colocar alguns valores, como cuidado, maternidade, afeto e intuição, como algo menor, essencialista e pertencente ao lugar que a sociedade nos colocou, também podemos, sim, defender esses valores como tão bons quanto a razão, a lógica, o intelectual e o profissionalismo.

O livro é uma escrita que flui, fácil de ler, mas que traz observações que podem nos levar a grandes reflexões.

 


Gioconda Belli nasceu em Manágua, Nicarágua, em 1948. É uma poetisa e romancista nicaraguense. 



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