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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

LIVRO: DE PERTO E DE LONGE


 

DE PERTO E DE LONGE

CLAUDE LÉVI-STRAUSS E DIDIER ERIBON

COSAC & NAIFY – 1ª ED. 2005

272 páginas

Em De Perto e de Longe, Didier Eribon entrevista Claude Lévi-Strauss. O livro é particularmente instigante para quem deseja conhecer não apenas a obra, mas o percurso de vida e de pensamento desse que foi um dos grandes mestres da antropologia do século XX. Não se trata de uma entrevista protocolar, mas de uma travessia biográfica e intelectual, marcada por deslocamentos, hesitações e escolhas que ajudam a compreender a formação de um pensamento singular.

O relato de Lévi-Strauss é fascinante justamente porque não constrói uma narrativa heroica de si. Ao contrário, ele revisita sua trajetória com distanciamento, quase com pudor. Seu percurso entre filosofia, antropologia, exílio, trabalho de campo e reflexão estrutural — aparece como algo que se fez aos poucos, muitas vezes contra expectativas iniciais. Para quem, como eu, estuda filosofia, mas sente que o desejo maior aponta para a antropologia, esse livro funciona também como espelho e estímulo.

Um dos momentos mais interessantes da entrevista é quando Lévi-Strauss retoma sua aproximação entre antropologia e psicanálise. Foi ele quem comparou o xamã ao analista, ressaltando tanto as semelhanças quanto as diferenças entre esses dois modos de escuta e intervenção simbólica. No entanto, é também o mesmo Lévi-Strauss que, em A Oleira Ciumenta, formula uma crítica rigorosa à psicanálise. Essa ambivalência não é contradição, mas método: aproxima-se para compreender, afasta-se para pensar.

Talvez um dos aspectos mais intrigantes do livro seja a recorrente afirmação de Lévi-Strauss de que não se lembra de nada, de que esquece tudo. Essa confissão, vinda de alguém cuja obra é atravessada por mitos, estruturas e sistemas de memória coletiva, produz um efeito quase paradoxal. Mas é justamente aí que o livro se abre para uma reflexão mais profunda: talvez lembrar exija esquecer. Talvez o pensamento só se organize quando o excesso de memória cede lugar à estrutura.

Nesse sentido, De Perto e de Longe não é apenas um livro sobre Lévi-Strauss, mas sobre o próprio ato de pensar. Um pensamento que não se ancora na autobiografia como confissão, mas no distanciamento; que não acumula lembranças, mas as reorganiza; que só pode ver de perto porque aprendeu, antes, a olhar de longe.


Claude Lévi-Strauss nasceu em Bruxelas, Bélgica, em 1908 e faleceu em Paris, França, em 2009. Foi um antropólogo.

Didier Eribon nasceu em Reims, França, em 1953. É um escritor e filósofo francês. 


 


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

LIVRO: UM CERTO CAPITÃO RODRIGO


 

UM CERTO CAPITÃO RODRIGO

ÉRICO VERÍSSIMO

COMPANHIA DAS LETRAS - 2005

192 páginas

PAÍS - BRASIL

ESTADO - RIO GRANDE DO SUL 

LEITURAS QUE MARCARAM NA JUVENTUDE


Um Certo Capitão Rodrigo é um daqueles livros que a gente guarda com afeto. Há nele uma vibração diferente, mais viva, mais solar, marcada pela figura carismática de Rodrigo Cambará — conquistador, andarilho, provocador das normas — e, sobretudo, pela presença firme de Bibiana, que não se deixa apagar pelo brilho masculino.

Rodrigo entra na narrativa como quem entra numa cidade: anunciando-se, ocupando espaço, desafiando regras. Seu jeito sedutor, livre, quase teatral, faz dele uma figura magnética. Mas Érico Veríssimo não constrói um herói simples. O mesmo impulso que encanta também desestabiliza; a mesma liberdade que seduz traz insegurança e conflito. Rodrigo é movimento, enquanto a vida exige permanência.

É Bibiana, porém, quem sustenta a densidade do romance. Sua força não é estridente, mas sólida. Ela ama, escolhe, enfrenta a família, aceita o risco de se unir a um homem que não se encaixa. Bibiana não é ingênua diante do temperamento de Rodrigo; ela sabe com quem está lidando e, ainda assim, decide. Há nela uma autonomia rara para personagens femininas de romances históricos: não é prêmio, não é sombra, não é apêndice.

A relação entre Bibiana e Rodrigo se constrói nesse contraste: ele, o conquistador, o que passa; ela, a que fica, a que sustenta, a que transforma a instabilidade em vida possível. Enquanto Rodrigo se move pelo mundo, Bibiana cria raízes. E é nessa diferença que se revela sua força maior.

Lido na juventude, o romance encanta pela aventura e pelo carisma do Capitão Rodrigo. Lido mais tarde, ele revela algo mais profundo: a história de uma mulher que escolhe amar sem se dissolver no outro. Bibiana não perde a si mesma na relação; ao contrário, afirma-se dentro dela.

Talvez seja por isso que Um Certo Capitão Rodrigo permaneça tão querido. Não apenas pelo charme do personagem masculino, mas porque, por trás dele, há uma mulher que sustenta a narrativa com firmeza, coragem e presença. Sem Bibiana, Rodrigo seria apenas passagem. Com ela, a história permanece.



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

LIVRO: O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

 


O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO

JOSÉ SARAMAGO

COMPANHIA DE BOLSO – 2005

376 páginas 

PAÍS - PORTUGAL 

Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago propõe uma reinterpretação radical da figura de Jesus, narrando sua história de modo a desafiar frontalmente as crenças religiosas convencionais. Não se trata de uma negação simples do cristianismo, mas de uma reescrita que desloca seus fundamentos, expondo tensões éticas, políticas e teológicas geralmente silenciadas.

A narrativa se inicia com o nascimento de Jesus em Belém, mas desde as primeiras páginas fica claro que Saramago não está interessado em repetir a versão bíblica consagrada. O autor rapidamente abandona a infância milagrosa e avança para a vida adulta, concentrando-se no momento em que Jesus passa a ser confrontado pelas exigências de sua missão — exigências que não aparecem como redenção, mas como imposição.

O Jesus de Saramago é, antes de tudo, um homem. Um homem atravessado por dúvidas, medos, desejos e tentações. Um homem que sofre, ama, hesita e se interroga. Ao humanizar radicalmente Jesus, Saramago desmonta a imagem de um messias plenamente consciente de seu destino e revela o peso insuportável de uma identidade divina que não foi escolhida, mas imposta. A relação com Deus não é de obediência serena, mas de conflito; a fé não é conforto, mas inquietação.

As relações de Jesus com seus discípulos, com Maria e com outras figuras bíblicas são igualmente deslocadas. Maria deixa de ocupar o lugar idealizado da virgindade intocável para surgir como mulher marcada pela dor, pela culpa e pela perda. A santidade dá lugar à experiência concreta, corporal e histórica. Ao fazê-lo, Saramago questiona não apenas dogmas específicos — como a Trindade ou a virgindade de Maria —, mas a própria lógica que sustenta uma teologia fundada no sacrifício.

Ao longo do romance, a crítica à Igreja Católica e ao seu papel histórico é incisiva. O cristianismo aparece menos como mensagem de amor e mais como projeto de poder, sustentado pela dor e pelo sofrimento humanos. Essa crítica atinge seu ponto mais alto no célebre encontro, em um barco, entre Jesus, Deus e o diabo. O diálogo entre os três é magistral e perturbador: Deus surge como figura sedenta de domínio, disposto a sacrificar o próprio filho para ampliar seu reino; o diabo, paradoxalmente, aparece como aquele que reconhece o horror desse plano; e Jesus, preso entre ambos, percebe que seu destino não é salvar o mundo, mas inaugurá-lo como espaço permanente de culpa e violência.

Nesse sentido, O Evangelho Segundo Jesus Cristo não é apenas um romance religioso, mas uma reflexão profunda sobre poder, obediência e responsabilidade. Saramago nos obriga a perguntar: que tipo de Deus exige o sofrimento como prova de amor? Que tipo de fé se funda no sacrifício de um inocente? Ao devolver a Jesus sua humanidade, o autor desloca o sagrado e expõe o custo humano das grandes narrativas de salvação.

É um livro incômodo — e justamente por isso necessário.


José Saramago nasceu em Azinhaga, Portugal, em 1922 e faleceu em Tias na Espanha em 2010. Foi um escritor português que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.


sexta-feira, 27 de maio de 2016

LIVRO: AS ÁGUAS DO MEU POÇO - Reflexões sobre experiências de liberdade - IVONE GEBARA



AS ÁGUAS DO MEU POÇO: REFLEXÕES SOBRE EXPERIÊNCIAS DE LIBERDADE

IVONE GEBARA

BRASILIENSE – 2005

Tradução: Jacqueline Castro

243 páginas

Título Original: Les eaux de mon puis

Descobri Ivone Gebara em meu curso de Filosofia. Este livro é um mergulho em si mesma em busca de se conhecer e compreender, é um mergulho íntimo que ela nos relata com sinceridade, simplicidade, mostrando suas dúvidas, dificuldades, conflitos, buscas, dores e alegrias. 

Desde sua adolescência ela busca a liberdade e agora faz um balanço sobre o que é a liberdade, e como atingi-la, tarefa difícil, tarefa de toda uma vida. Mas fala também de outros temas e de sua experiência junto com Dom Helder Câmara na Teologia da Libertação, de seu "exílio" em Louvain-la-Neuve na Bélgica após haver dado uma entrevista e falado sobre o aborto. 

Ivone é uma freira católica, mas que enxerga o mundo como ele é, é sensível as dificuldades dos outros, às necessidades das pessoas. Vive no meio do povo mais pobre e também de sua violência. 

Este livro foi escrito em francês, apesar dela ser brasileira, mas ela aceitou este desafio. 

Ao se confrontar neste percurso do livro, neste mergulho em suas águas profundas ela descobre a si mesma e traça este caminho e nos doa isto, sua experiência. O livro é um mergulho na singularidade de cada um, e que pode nos iluminar e incentivar a fazer o mesmo, debruçar-se a beira de seu poço e escutar suas águas profundas. Um percurso que apesar de difícil e muitas vezes doloroso vale a pena ser feito, principalmente para o que deseja uma libertação.

No que se refere a mim, encontrei em seu relato algo que me tocou e muito. Sempre defendi o feminismo sem igualar a mulher ao homem, exceto em seus direitos como cidadã. Porém percebo que todas nós pensamos através de uma linguagem, cultura masculina, e isto é estrutural. Ivone começa este questionamento quando se dá conta do Deus masculino, patriarcal, visto pela sociedade desta forma. Então ela descobre a Teologia feminista que busca reinterpretar a Bíblia sob o viés feminino. Mas o que ela me mostrou é que realmente é difícil mudar o discurso, a linguagem, mas não é impossível. É preciso reinterpretar, reavaliar, olhar com outros olhos, e se aproximar do feminino. Tarefa longa e difícil, mas possível. 

Ivone Gebara nasceu em 1944 em São Paulo. É filosofa, teóloga e freira católica. É doutora em filosofia e Ciências Religiosas. 

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

LIVRO: LIQUIDAÇÃO - IMRE KERTÉSZ


LIQUIDAÇÃO

IMRE KERTÉSZ

COMPANHIA DAS LETRAS – 2005

Tradução: Paulo Schiller

106 páginas

PAÍS – HUNGRIA 


Um livro pequeno mas que é grande, Liquidação - seria possível mesmo liquidar algo como o holocausto? e tudo que ele deixa de marcas, traços e herança? Existe a superação? ou somente é possível a transformação?

O ponto central do livro é que o homem tem o mal em si e que sem a civilização e a cultura ele mostra do que é capaz. " O homem do tempo das catástrofes não tem destino, não tem qualidades, não tem caráter. (...) Para ele, já não existe retorno a um ponto de equilíbrio do Eu, a uma certeza sólida e incontestável do Eu: portanto, perde-se no sentido mais verdadeiro da palavra. Esse ser sem o Eu é a catástrofe, o verdadeiro mal. "

B. nasceu em Auschwitz e sobreviveu, o que já é algo quase impossível. Judit não conheceu o campo de concentração, nasceu depois, mas traz em si a herança psíquica da família que passou por lá, seu pai, calado, distante. O livro fala do pós-guerra, de quem sobreviveu e de quem nasceu depois e das possibilidades de viver com esta herança. A questão é que vivem numa outra ditadura neste momento, em Budapeste, e em uma entrevista à Folha de São Paulo Kertész dirá que "numa ditadura totalitária só se sobrevive quando se segue a lógica do absurdo." Após a Segunda Guerra muitos países ficaram atrás da Cortina de Ferro em regimes ditatoriais dando continuidade ao caos e violência.


B. que traz em sua coxa a marca do campo uma vez que bebês eram tatuados na coxa porque o ante-braço era curto demais para o número opõe resistência a se livrar disto tudo, é como um gozar na dor, que lhe dá uma certa satisfação.  Judit tenta ultrapassar esta resistência e transformar sua vida.

O livro é sobre uma peça que B. deixa após seus suicídio que é lido pelo editor Amargo que também é o protagonista da peça,  buscando compreender porque ele teria se suicidado. Quais seriam as razões morais e filosóficas deste ato? Seria o momento em que B. se cansa de buscar outras prisões quando acaba a resistência e se abrem outros mundos diante dele. Ele não pode, precisa viver dentro de Auschwitz que está entranhado nele, como quando os médicos provam os venenos para conhecerem seus efeitos. Somente se vencesse isto, se desvendasse o enigma Auschwitz ele poderia se libertar.

Judit por outro lado perceberá que nada foi por acaso, que se casou com B. para viver Auschwitz e tentar compreender. Um dia ela se dá conta que desistiu de resistir, ou seja, que se deu por satisfeita. Ela abre mão do gozo na dor. E o instinto de viver desperta novamente nela.

A diferença é que B. passou pelo campo de concentração e ela não. Ela não tem imagens e seu corpo não registrou isto, como a marca em B. em sua coxa. Visita o local e não consegue compreender, nestas alturas o campo já foi transformado num local "turístico" de visitações onde os batedores de carteira se aproveitam da emoção das pessoas para roubar-lhes a carteira. Onde é impossível fazer uma visita em silêncio e se está ao lado de pessoas que vieram de outros locais e não tem ideia do que se passou ali. Ela não consegue registrar Auschwitz e não compreende mais B.

Para os que viveram isto, como o autor do livro, não é possível deixar de resistir e esquecer o que se passou. Tenta-se viver , é um sobrevivente.

A leitura é difícil, não se sabe quando é a peça, quando é Amargo o protagonista do livro, são pedaços, cacos, e aos poucos me senti sendo sufocada pela leitura, mas é justamente isto o que é brilhante na escrita de Kertész, ele nos prende com arrame farpado.













Imre Kertész nasceu em 1929 em Budapeste - Hungria.
Foi deportado em 1944 para Auschwitz e Buchenwald sendo libertado
em 1945 pelas tropas norte-americanas. Foi o único sobrevivente de
sua família.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

LIVRO: OS AMANHÃS - HAFID AGGOUNE



OS AMANHÃS

HAFID AGGOUNE

ROCCO – 2005

Tradução: Maria Angela Villela

123 páginas

PAÍS – FRANÇA


AS RAÍZES DO PASSADO ESTÃO NO AMANHÃ

1942, Pierre vê seu primeiro amor ser levada pelos nazistas e ela não voltará. Sua última visão e de seu calcanhar no estribo do carro. Ele deixa de existir. Durante 59 anos permanecerá calado, sem conseguir gritar sua dor, sua raiva, seu medo, sem conseguir dizer sobre isto. Viverá na esperança da volta de Margot.
2001 - 11 de Setembro, com a morte de outro interno no asilo onde se encontra, ele volta, retorna à vida, e perceberá que é a morte que nos faz viver.

Um belíssimo relato, de um renascer, um retorno à vida, da tentativa de escrever sobre o que viveu naquele dia longínquo, e que ficou inesquecível, mas também inefável, uma tentativa de gritar pela escrita.

"É por causa da morte, é sempre por causa da morte, que em todo lugar, em todas as épocas, para cada um de nós, acontece e não acontece, porque não há nada a que se apegar, não há nada, e o vazio ronda o vazio e nessa vida é preciso aprender a viver com esse vazio, aprender a preenchê-lo com a vida, aprender a ver por trás das imagens, aprender a não perder o prazer, mesmo sob as bombas, os escarros, as injurias, as traições, os exílios, as deportações, os silêncios, os gritos e todas as faltas, aprender a dançar nos braços sem corpo do nada, aprender a ter orgulho de si, a amar a si mesmo, a amar o outro porque cada qual é um estranho, porque ninguém se parece com ninguém, aprender a amar esta vida, e este mundo que recomeça todos os dias, porque nós somos frágeis."

Lindo! a dor do existir em palavras.

RECOMENDO.


Hafid Aggoune nasceu em 1973 em Saint-Étienne, França. Estudou letras e História da arte em Lyon.