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sábado, 7 de fevereiro de 2026

LIVRO: FORA DO LUGAR: MEMÓRIAS

 


FORA DO LUGAR: MEMÓRIAS 

EDWARD SAID

COMPANHIA DAS LETRAS – 1ª ED. – 2004.

Tradução: José Geraldo Couto

448 páginas 


Edward Said é amplamente conhecido por Orientalismo, obra fundamental para a crítica ao eurocentrismo e às formas pelas quais o Ocidente construiu discursivamente o chamado “Oriente”. Em Fora do Lugar, no entanto, ele desloca o foco: trata-se de uma autobiografia da infância e da juventude, vividas sobretudo entre o Cairo e o Líbano, marcada por desenraizamento, disciplina, medo e inadequação constante.

A leitura causa, em muitos momentos, um certo espanto. Said descreve uma infância atravessada por uma relação difícil com os pais: uma mãe manipuladora, emocionalmente instável, e um pai autoritário, profundamente patriarcal, cuja rigidez produziu nele medo e traumas duradouros. Esses episódios não aparecem como simples memórias pessoais, mas como marcas psíquicas que o acompanharam por toda a vida. Said retorna a elas diversas vezes, como se tentasse compreender de que modo o sentimento de não pertencimento se enraizou tão cedo.

Muito antes da consolidação do pensamento decolonial como campo teórico, Said já afirmava algo decisivo: o Oriente não existe como essência, mas como construção do olhar ocidental. Em Fora do Lugar, ainda não encontramos a formulação sistemática dessa crítica, mas é possível acompanhar o seu nascimento. A experiência de viver entre línguas, culturas e sistemas educacionais distintos — sempre como alguém deslocado, nunca plenamente integrado — constitui a matriz sensível de suas ideias futuras.

A autobiografia também se cruza com a história política do século XX. Said relata a trajetória de sua família palestina e o impacto da expulsão dos palestinos de suas terras com a criação do Estado de Israel, processo imposto sem levar em conta a população local. A perda, o exílio e a violência simbólica e material desse evento atravessam o livro e ressoam de maneira dolorosamente atual. Não se trata apenas de memória individual, mas de uma história coletiva marcada pela injustiça e pelo apagamento.

Escrito quando Said já enfrentava um câncer e se encontrava próximo do fim da vida, Fora do Lugar carrega um tom de balanço existencial. Não é um livro de vitórias, mas de exposição de fragilidades. Ao acompanhar a formação emocional e intelectual de Said, o leitor compreende melhor o alcance e a urgência de suas obras. Ler esta autobiografia é perceber que sua crítica ao imperialismo cultural não nasce apenas da teoria, mas de uma vida inteira vivida na fronteira, sob a experiência constante de não pertencimento.

É uma leitura que não idealiza o autor, mas o humaniza — e, justamente por isso, ilumina com mais profundidade sua obra crítica.


Edward Said nasceu em Jerusalém em 1935 e faleceu em Nova Iorque, EUA, em 2003. Foi um acadêmico, crítico literário e ativista político palestino. Esteve entre os fundadores dos estudos pós-coloniais. 


segunda-feira, 29 de setembro de 2014

LIVRO: ANDANDO EM CÍRCULOS - As pedras milenares e o caminho da tríplice espiral - RICARDO MENDES


ANDANDO EM CÍRCULOS

As pedras milenares e o caminho da tríplice espiral

RICARDO MENDES

AXCEL BOOKS DO BRASIL – 2004

163 páginas


Ricardo Mendes esteve no Sul da Inglaterra e na Irlanda visitando os locais onde se encontram as pedra milenares, monumentos megalíticos que foram erguidos há mais de cinco mil anos, antes de qualquer religião.

O livro é uma sequência de fotos destes locais em preto e branco. Ele nos relata a força energética que existe nestes locais e o que podemos sentir ao ir ali e nos deixar levar por isto. O livro é um relato espiritual sobre o seu encontro com as pedras, os círculos, e sua energia.

Nada substitui estar nestes locais, mas se deixar levar para dentro das fotos tiradas por Ricardo já nos proporciona um bem estar e uma visão diferente deste planeta onde vivemos, que como se diz na introdução do livro, é uma pedra flutuante.

Ricardo Mendes 

sábado, 24 de maio de 2014

LIVRO: TU CARREGAS MEU NOME - A herança dos filhos de nazistas notórios


TU CARREGAS MEU NOME: A herança dos filhos de nazistas notórios

NORBERT & STEPHAM LEBERT

RECORD – 2004

Tradução: Kristina Michahelles

206 páginas


Um tema tabu, pouco estudado e revelado, e também pouco pensado. Costumamos pensar nas vítimas, na herança psíquica de seus descendentes, os traumas, mas não pensamos no que aconteceu com os filhos dos nazistas, principalmente dos líderes que foram julgados e condenados à morte ou a prisão perpétua ou por muitos anos. O que aconteceu com eles? quais os traumas que carregam, qual o peso deste fardo?

Norbert Lebert, pai de Stephan, um jornalista, em 1959 entrevistou filhos e filhas de nazistas como Rudolf Hess, condenado à prisão perpétua, Martin Bormann, desaparecido, Hermann Göring, condenado à morte e que se suicidou antes, Heinrich Himmler, que se suicidou quando foi capturado, Baldur von Schirach, condenado a 20 anos de prisão e Hans Frank, condenado à morte.

O que era ser portador deste sobrenome? o nome de seu pai que se tornou ou uma vergonha para alguns ou um símbolo de uma glória perdida para outros?

Quarenta anos depois, seu filho, Stephan retomou seu trabalho para saber o que havia acontecido com eles, o que haviam feito de suas vidas e como lidavam com esta herança. Quais as consequências de ser portador deste nome? como isto havia afetado a vida deles, seja para melhor ou para pior.

Não devemos ignorar que estes criminosos eram seus pais, e que se por um lado foram cruéis, sádicos, perversos, autoritários, e levaram a morte milhões de pessoas, por outro, eram bons maridos, bons pais de família, amorosos com seus filhos. Como separar este pai amoroso do pai acusado de crimes tão hediondos? O grande erro é pensar que seres assim são maus com todos, não, eles também tem um lado bom, amoroso, gentil, educado. Isto assusta, pois nos revela que qualquer um pode se transformar num monstro assassino, e realmente é assim. Quantas vezes não ouvimos relatos sobre um psicopata de como ele era um bom vizinho, não incomodava ninguém, era educado? Sim, todos nós carregamos em si mesmo o mau e o bom, depende de vários fatores, como contexto, entorno, situações que surgem para que o gatilho seja ativado ou não.

A Alemanha foi imersa numa ideologia fascista, estava traumatizada com a Primeira Guerra, derrotada, humilhada, e eis que surge um líder, um bom pai, que vem para resolver tudo isto e devolver ao país seu lugar e orgulho. Os comícios, a juventude hitlerista, a mídia, a propaganda, e a ameaça àqueles que não aderiam. Então, o que dizer dos filhos? que eram pequenos na época da guerra, alguns com 03 anos de idade, como poderiam ter consciência do que acontecia? como podem ser responsabilizados pelos atos dos pais? que culpa eles tem? Mas eles são símbolos, são o nome do pai.

Mas a questão é mais profunda. Como lidar com este pai? com este nome? como viver com isto? O filho se identifica com os pais, são seus modelos. Como fazer desaparecer um passado, a infância e a família?

O livro busca algumas respostas. Stephan volta a entrevistar alguns deles e nos traz o relato de 1959 e o atual. O que cada um deles fez.

Wolf-Rüdiger Hess, filho de Rudolf Hess; Martin Bormann filho e Martin Bormann pai, Niklas e Norman Frank, filhos de Hans Frank; Gudrun Himmler, filha de Himmler, Edda Göring, filha de Hermann Göring, os irmãos Von Schirach filhos de Baldur Von Schirach e Karl-Otto Saur filho e pai.

Vários escreveram livros sobre seus pais. Alguns tentam resgatar o nome, outro quer destruir o pai, ainda há o que procura a religião. A negação do que ocorreu, se negar a enxergar para alguns e para outros a maturidade suficiente de enfrentar a realidade. A sacralização do pai ou sua destruição. Alguns se fecham em seu mundo negando tudo, não conseguindo enxergar o que houve, outros procuram formas possíveis de viver, constroem um mundo para poder viver.

"Podemos dizer que os descendentes dos nazistas se situam numa zona fronteiriça entre criminosos e vítimas"

(...) o criminoso se realiza através do seu ato, enquanto a vítima é interrompida em tudo aquilo que ainda quer realizar."

E o que ficou no meio? no liminar? Nenhum deles é culpado ou responsável pelo o que fez seu pai, e todos amavam o pai, mas alguns admitem o horror que o pai fez, provocou, outros não conseguem ver.



Wolf-Rüdiger Hess 









 Martin Bormann filho

Gudrun Himmler

Edda Göring e o pai

karl-Otto Saur filho


sábado, 18 de janeiro de 2014

LIVRO: O CANTOR DE TANGO - TOMÁS ELOY MARTÍNEZ


O CANTOR DE TANGO

TOMÁS ELOY MARTÍNEZ

 COMPANHIA DAS LETRAS – 2004

Tradução: Sérgio Molina

221 páginas

Título original: El cantor de tango

PAÍS - ARGENTINA 

Irei a Buenos Aires este ano e como não conheço a cidade fui em busca de algo sobre ela. Nunca fui de ler guias de turismo, prefiro um romance, uma história que me fale do lugar e não podia ter feito melhor escolha pegando o Cantor de tango que estava na minha Biblioteca já faz um tempo aguardando para ser lido.

Foi um mergulho na Buenos Aires, nos lugares, na vida, na sua história, me senti lá, e ao terminar o livro tenho a sensação de já estar vendo a cidade, não a turística, mas o labirinto que é Buenos Aires, assim como seu povo que é este labirinto, pois " que a forma de um labirinto não está nas linhas de seu traçado e sim nos espaços entre essas linhas." E o que temos neste espaço? as pessoas e sua vida.

Bruno chega em Buenos Aires para tentar encontrar um cantor de tango que dizem ser melhor que Gardel, mas que não é conhecido no meio musical uma vez que nunca gravou nada, para completar sua tese sobre Borges e os tangos que segundo este seriam os que eram cantados antigamente nos bordéis e não os que vieram depois e provocaram o desaparecimento dos verdadeiros.

Mas esta busca não será fácil, pois Julio Martel, nome artístico de Estéfano, não é fácil de ser encontrado uma vez que não canta mais em lugares acordados, mas sim nos mais improváveis, como túneis, prédios antigos, em frente ao mercado, sem nenhum anúncio disto.

Acompanhamos Bruno nesta busca que nos leva por Buenos Aires, por seus lugares e sua história, como se estivéssemos num labirinto seja de ruas, seja de histórias que se sobrepõem. Um mapa que não é o da cidade, mas sim dos locais onde ele cantou e que poderia indicar o próximo, mas para isto é preciso saber porque ele cantou em determinado lugar.

Conheceremos então uma Buenos Aires que se assemelha ao tango, que é cantada no tango, na solidão e no amor, na tragédia, na dor, e na esperança.


 Tomás Eloy Martínez nasceu em 1934 em Tucumán, Argentina e faleceu em 2010 em Buenos Aires. Formado em Literatura Espanhola e Latino-americana, foi jornalista e escritor.

sábado, 4 de janeiro de 2014

LIVRO: A LUZ DO FAROL - COLM TÓIBÍN



A LUZ DO FAROL

COLM TÓIBÍN

COMPANHIA DAS LETRAS – 2004

Tradução: Alexandre Hubner

280 páginas

PAÍS – IRLANDA

Este livro eu o li no ano passado, mas ainda não havia escrito sobre ele no meu blog. Helen, sua mãe e sua avó mantém distância, vivem no desencontro, culpas, medo, solidão, raivas que não conseguem enfrentar. A doença do irmão de Helen, que está com AIDS  irá fazer com que elas tenham que se reencontrar e viver na casa da avó por um tempo , que fica na beira de um penhasco com o mar abaixo e um farol, para onde o irmão quis ir após ter a doença fatal diagnosticada.
Aos poucos vão ter que se confrontar, descobrir que no fundo se amam, mas não conseguem viver juntas apesar de que a separação é impossível, pois não é uma questão física e sim psíquica, de laços afetivos. 

Colm Tóibín nasceu em 1955 em Enniscorthy, Irlanda. É escritor, jornalista e crítico literário.