ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
JOSÉ SARAMAGO
COMPANHIA DAS LETRAS – 2020
Em Ensaio sobre a cegueira,
José Saramago constrói uma alegoria radical sobre a incapacidade humana de ver.
A cegueira que se espalha no romance não é apenas física: ela revela um colapso
ético, social e político. O que se perde não é a visão dos olhos, mas a
capacidade de perceber o outro, o mundo e a si mesmo para além do automatismo,
da ideologia e das certezas confortáveis.
Saramago parece insistir numa
ideia desconfortável: não são os olhos que enxergam, mas algo interior que se
comunica com o exterior. Ver implica responsabilidade, atenção, abertura.
Quando essa dimensão se rompe, instala-se a barbárie — e ela não precisa de
muito tempo para se organizar. O romance mostra como, diante do medo e da
escassez, as convenções morais se dissolvem rapidamente.
Todos ficam cegos, exceto uma
única pessoa: uma mulher. Essa escolha não é casual. A mulher que vê carrega o
peso de testemunhar a degradação humana sem poder intervir plenamente nela.
Ver, aqui, não é privilégio; é condenação. A lucidez isola, expõe e fere. Ao
mesmo tempo, Saramago não idealiza o feminino: o fato de ser mulher não a torna
moralmente superior, nem implica que as mulheres, enquanto grupo, estejam
imunes à cegueira. Muitas também não veem — ou escolhem não ver.
A presença dessa mulher funciona
como espelho incômodo para o leitor. Se alguém vê, por que os outros não veem?
O romance sugere que a cegueira não é falta de capacidade, mas uma recusa — uma
acomodação coletiva diante da violência, da desigualdade e da desumanização
cotidiana.
Ensaio sobre a cegueira
permanece atual justamente porque não oferece redenção fácil. É uma metáfora
dura, que nos obriga a deslocar o olhar: não para enxergar melhor, mas para
perceber o quanto já aceitamos viver na escuridão. Ler Saramago é, nesse
sentido, um exercício desconfortável de lucidez.
José Saramago nasceu em Azinhaga, Portugal, em 1922 e faleceu em Tias, Espanha em 2010. Foi um escritor português premiado com o Nobel de Literatura em 1998.

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