sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A LUCIDEZ FEMININA EM UM MUNDO CEGO


 

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

JOSÉ SARAMAGO

COMPANHIA DAS LETRAS – 2020

Em Ensaio sobre a cegueira, José Saramago constrói uma alegoria radical sobre a incapacidade humana de ver. A cegueira que se espalha no romance não é apenas física: ela revela um colapso ético, social e político. O que se perde não é a visão dos olhos, mas a capacidade de perceber o outro, o mundo e a si mesmo para além do automatismo, da ideologia e das certezas confortáveis.

Saramago parece insistir numa ideia desconfortável: não são os olhos que enxergam, mas algo interior que se comunica com o exterior. Ver implica responsabilidade, atenção, abertura. Quando essa dimensão se rompe, instala-se a barbárie — e ela não precisa de muito tempo para se organizar. O romance mostra como, diante do medo e da escassez, as convenções morais se dissolvem rapidamente.

Todos ficam cegos, exceto uma única pessoa: uma mulher. Essa escolha não é casual. A mulher que vê carrega o peso de testemunhar a degradação humana sem poder intervir plenamente nela. Ver, aqui, não é privilégio; é condenação. A lucidez isola, expõe e fere. Ao mesmo tempo, Saramago não idealiza o feminino: o fato de ser mulher não a torna moralmente superior, nem implica que as mulheres, enquanto grupo, estejam imunes à cegueira. Muitas também não veem — ou escolhem não ver.

A presença dessa mulher funciona como espelho incômodo para o leitor. Se alguém vê, por que os outros não veem? O romance sugere que a cegueira não é falta de capacidade, mas uma recusa — uma acomodação coletiva diante da violência, da desigualdade e da desumanização cotidiana.

Ensaio sobre a cegueira permanece atual justamente porque não oferece redenção fácil. É uma metáfora dura, que nos obriga a deslocar o olhar: não para enxergar melhor, mas para perceber o quanto já aceitamos viver na escuridão. Ler Saramago é, nesse sentido, um exercício desconfortável de lucidez.


José Saramago nasceu em Azinhaga, Portugal, em 1922 e faleceu em Tias, Espanha em 2010. Foi um escritor português premiado com o Nobel de Literatura em 1998.


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