sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

ENTRE A FACA, A TERRA E OS ENCANTADOS: NARRAR A HISTÓRIA PELO OLHAR DAS MULHERES

 


TORTO ARADO

ITAMAR VIEIRA JUNIOR

TODAVIA – 1ª ED. – 2019

Torto Arado é talvez o livro mais comentado dos últimos tempos e, de fato, é um livro surpreendente.

O relato trata da vida dos pós-escravizados que, apesar da Lei Áurea, em 1888, que os libertou formalmente da escravidão, não tiveram garantido nenhum cuidado com seu destino, suas possibilidades de sobrevivência e, menos ainda, com sua inclusão na sociedade como pessoas livres. Isso repercute até os dias atuais, produzindo preconceitos, racismo e indiferença à situação de muitos negros e negras.

Analfabetos, não encontravam emprego, não tinham onde morar. Muitos permaneceram nas fazendas onde já viviam e continuaram a trabalhar no mesmo sistema, ou seja, sem receber nada. Outros partiram e acabaram pedindo morada em fazendas: solicitavam um lugar para ter teto e comida e, em troca disso — que deveria ser um direito básico — trabalhavam de sol a sol, seis dias por semana. Apenas no domingo podiam cuidar de sua própria horta. Durante a semana, eram as mulheres que realizavam esse trabalho.

As casas só eram permitidas se fossem de barro, pois se desmancham com o tempo; as de alvenaria poderiam ser questionadas como propriedade. Os armazéns das fazendas, com preços abusivos, obrigavam a maioria a comprar ali mesmo, perpetuando a dependência.

Muitos romances já retrataram a miséria, as tristezas e as dificuldades do sertão, dos pobres, dos negros e das negras. No entanto, Itamar Vieira Junior traz um diferencial fundamental: quem fala são as mulheres. E ele, sendo homem, consegue falar pela voz feminina, consegue escrever pelo feminino.

Há ainda outro ponto importante: não há ideologia explícita, não é militância, e eu nem chamaria de literatura engajada, apesar da denúncia implícita. Trata-se do dia a dia dessas pessoas, narrado pelo viés feminino.

O livro é dividido em três partes: na primeira, quem fala é Bibiana; na segunda, Belonísia; e, na terceira, Santa Rita Pescadeira. Mas temos também Salu, Miúda, Donana e várias outras personagens. Um objeto atravessa toda a narrativa e traça a linha do romance: uma faca de prata com cabo de marfim, pertencente a Donana, a avó, que logo no início é o centro de um acidente que marcará para sempre a vida de Bibiana e Belonísia, duas irmãs.

Além desses personagens, há os encantados, entidades do jarê, religião encontrada na Chapada Diamantina, que muito se assemelha à Umbanda. O pai das meninas é curador, e a avó e a mãe são parteiras.

A ligação com a terra é profunda, seja no campo do alimento, das curas e dos remédios, seja, mais tarde, na luta pelo direito à terra. O livro é muito mais ecológico do que muita “ecologia” que vemos por aí — inclusive quando retrata a chegada de um novo dono da fazenda que se diz ecológico.

Forma-se um amplo painel da vida nas fazendas deste Brasil que ainda persiste e que permanece desconhecido do olhar urbano: seus rituais, crenças, comidas, dificuldades, miséria, mas também as alegrias, as festas, os laços de parentesco não sanguíneos que se criam, o compadrio. É a vida das mulheres nessas fazendas.

Gosto especialmente do fato de que o foco não está apenas na miséria e na violência, embora elas estejam presentes, mas na vida como ela é.

E o que mais apreciei: é o oprimido que fala. Poucas vezes se dá voz aos donos da fazenda; eles surgem apenas para recolher aquilo que pensam ser deles, inclusive parte da produção da roça, o que gera profunda revolta. Em geral, vemos romances desse tipo escritos pelo olhar do opressor — mesmo quando ele não se reconhece como tal. Aqui, são os trabalhadores, os ex-escravizados que falam, e, sobretudo, as mulheres.



Itamar Vieira Júnior nasceu em Salvador em 1979. É um escritor brasileiro. 

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