TORTO ARADO
ITAMAR VIEIRA JUNIOR
TODAVIA – 1ª ED. – 2019
Torto Arado
é talvez o livro mais comentado dos últimos tempos e, de fato, é um livro
surpreendente.
O relato trata da vida dos
pós-escravizados que, apesar da Lei Áurea, em 1888, que os libertou formalmente
da escravidão, não tiveram garantido nenhum cuidado com seu destino, suas
possibilidades de sobrevivência e, menos ainda, com sua inclusão na sociedade
como pessoas livres. Isso repercute até os dias atuais, produzindo
preconceitos, racismo e indiferença à situação de muitos negros e negras.
Analfabetos, não encontravam
emprego, não tinham onde morar. Muitos permaneceram nas fazendas onde já viviam
e continuaram a trabalhar no mesmo sistema, ou seja, sem receber nada. Outros
partiram e acabaram pedindo morada em fazendas: solicitavam um lugar para ter
teto e comida e, em troca disso — que deveria ser um direito básico —
trabalhavam de sol a sol, seis dias por semana. Apenas no domingo podiam cuidar
de sua própria horta. Durante a semana, eram as mulheres que realizavam esse
trabalho.
As casas só eram permitidas se
fossem de barro, pois se desmancham com o tempo; as de alvenaria poderiam ser
questionadas como propriedade. Os armazéns das fazendas, com preços abusivos,
obrigavam a maioria a comprar ali mesmo, perpetuando a dependência.
Muitos romances já retrataram a
miséria, as tristezas e as dificuldades do sertão, dos pobres, dos negros e das
negras. No entanto, Itamar Vieira Junior traz um diferencial fundamental: quem
fala são as mulheres. E ele, sendo homem, consegue falar pela voz feminina,
consegue escrever pelo feminino.
Há ainda outro ponto importante:
não há ideologia explícita, não é militância, e eu nem chamaria de literatura
engajada, apesar da denúncia implícita. Trata-se do dia a dia dessas pessoas,
narrado pelo viés feminino.
O livro é dividido em três
partes: na primeira, quem fala é Bibiana; na segunda, Belonísia; e, na
terceira, Santa Rita Pescadeira. Mas temos também Salu, Miúda, Donana e várias
outras personagens. Um objeto atravessa toda a narrativa e traça a linha do romance:
uma faca de prata com cabo de marfim, pertencente a Donana, a avó, que logo no
início é o centro de um acidente que marcará para sempre a vida de Bibiana e
Belonísia, duas irmãs.
Além desses personagens, há os
encantados, entidades do jarê, religião encontrada na Chapada Diamantina, que
muito se assemelha à Umbanda. O pai das meninas é curador, e a avó e a mãe são
parteiras.
A ligação com a terra é
profunda, seja no campo do alimento, das curas e dos remédios, seja, mais
tarde, na luta pelo direito à terra. O livro é muito mais ecológico do que
muita “ecologia” que vemos por aí — inclusive quando retrata a chegada de um
novo dono da fazenda que se diz ecológico.
Forma-se um amplo painel da vida
nas fazendas deste Brasil que ainda persiste e que permanece desconhecido do
olhar urbano: seus rituais, crenças, comidas, dificuldades, miséria, mas também
as alegrias, as festas, os laços de parentesco não sanguíneos que se criam, o
compadrio. É a vida das mulheres nessas fazendas.
Gosto especialmente do fato de
que o foco não está apenas na miséria e na violência, embora elas estejam
presentes, mas na vida como ela é.
E o que mais apreciei: é o
oprimido que fala. Poucas vezes se dá voz aos donos da fazenda; eles surgem
apenas para recolher aquilo que pensam ser deles, inclusive parte da produção
da roça, o que gera profunda revolta. Em geral, vemos romances desse tipo
escritos pelo olhar do opressor — mesmo quando ele não se reconhece como tal.
Aqui, são os trabalhadores, os ex-escravizados que falam, e, sobretudo, as
mulheres.


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